Neste sábado (27), Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO e pré-candidato à Presidência, abriu o programa Análise Política da Semana, transmitido pela Causa Operária TV (COTV), comentando o avanço da censura no País. O dirigente tratou de uma decisão judicial que multou em R$40.000,00 um cidadão por ter dito que determinada pessoa ocupava um cargo por ser negra.
Para Pimenta, o caso expõe uma contradição da política identitária e do sistema de repressão às opiniões. Ele comparou o episódio à perseguição movida pelo sionismo contra pessoas e organizações que denunciam “Israel” e defendem a Palestina.
“O cidadão foi acusado de racismo por dizer que a pessoa estava ocupando um cargo por ser negra. Mas acontece que justamente uma das grandes reivindicações do identitarismo é que pessoas negras ocupem cargos porque são negras. Nós vimos a campanha que foi feita em torno da indicação de um juiz para o STF, na época que Lula indicou Zanin, de que Lula deveria indicar uma mulher negra para o STF. Por que uma mulher negra? Porque ela é negra. O atributo fundamental seria esse. Aí o cidadão fala que a pessoa foi indicada porque é negra e não pode falar isso”, disse.
Segundo Pimenta, a forma atual de repressão não depende apenas de condenação final. O próprio processo já funciona como punição, pois obriga o acusado a contratar advogado, organizar defesa, reunir documentos e responder a uma pressão permanente.
“O processo em si já é uma punição. Foi aberto um inquérito, a pedido da Procuradoria-Geral da República, porque nós contratamos serviços, na época das eleições, de uma empresa cuja dona tem simpatia pelo Hamas. Existe essa lei? Não existe essa lei. Dos mais de uma dúzia de processos que nós sofremos, dois já foram arquivados. Mas o simples fato de que você tenha que responder a todos os processos levantados contra você já é uma punição. Você precisa contratar advogado, responder ao processo, fazer pesquisa factual e legal, organizar testemunhas para depor a seu favor. Nenhum desses processos é uma coisa simples”, afirmou.
O presidente nacional do PCO disse ainda que essa política é impulsionada por lóbis com recursos financeiros e apoio institucional. No caso do sionismo, afirmou, a perseguição se volta contra a denúncia do genocídio na Palestina e contra a defesa da extinção do Estado de “Israel” enquanto organização política.
“Você pode paralisar uma opinião política, um movimento político, um pensamento político apelando sistematicamente para processos. Não custa nada para a pessoa fazer essas denúncias. O lóbi tem dinheiro, tem advogados, tem condições de contratar advogados, tem condições de gastar o dinheiro. Quando as pessoas apoiaram a lei de racismo e não perceberam que essa lei era simplesmente um expediente para introduzir a censura das opiniões políticas no País, ninguém parou para pensar em todas as consequências daquilo que estava acontecendo”, declarou.
Na análise internacional, Pimenta tratou da crise no Reino Unido. Segundo ele, a renúncia do primeiro-ministro britânico Keir Starmer no meio de uma crise no Partido Trabalhista é um sinal de desagregação de um regime político que durante séculos foi um dos mais estáveis da Europa.
Pimenta afirmou que o antigo bipartidarismo britânico, formado pelo Partido Conservador e pelo Partido Trabalhista, entrou em uma situação que expressa a crise geral do capitalismo. Ele comparou esse processo à instabilidade vista em países atrasados, embora se trate de uma das principais potências imperialistas.
“Quando você vê a quebra simultânea dos dois partidos que formam o bipartidarismo britânico, você é obrigado a tirar a conclusão de que não se trata de uma crise momentânea. É a decomposição de um regime que teve estabilidade por pelo menos dois séculos. Esse regime atravessou as duas guerras mundiais, atravessou a crise de 1929, atravessou as crises recentes e agora entrou em decomposição. Isso revela a situação do capitalismo mundial”, disse.
Para Pimenta, a ascensão do partido de Nigel Farage também deve ser vista sob esse ângulo. Ele afirmou que a extrema direita aparece como tentativa de substituição dos partidos tradicionais, mas sem a mesma estrutura acumulada pelas antigas organizações da burguesia.
“A burguesia vai ter que improvisar estruturas políticas para governar esses países. É o que está acontecendo na Inglaterra com o partido de Nigel Farage. Só que partido político é uma estrutura que demora para ser formada. A burguesia, toda vez que forma um partido, mesmo que ele esteja intimamente associado ao capital, precisa depurar esse partido para que ele seja confiável para os interesses capitalistas. Isso não se faz do dia para a noite”, afirmou.
O dirigente comparou a situação britânica à da França, da Itália, da Alemanha e dos Estados Unidos. Segundo ele, a crise nos partidos tradicionais revela que os governos capitalistas não conseguem responder ao aumento da miséria, do desemprego e da destruição dos direitos sociais.
Líbano e Palestina
Ainda na política internacional, Pimenta comentou o acordo entre o governo libanês, os Estados Unidos e “Israel”. Segundo ele, o presidente do Líbano concluiu um acordo sem ter autoridade constitucional para isso, pois o tema precisa passar pelo Parlamento. O acordo, afirmou, reconhece como legítima a ocupação do sul do Líbano por “Israel”.
Para Pimenta, o acordo abre caminho para uma situação de guerra civil no país, pois atinge diretamente a resistência do Hesbolá no sul do Líbano e aceita a agressão sionista contra a população libanesa.
“É um acordo colonial no mais completo sentido da palavra. Os opositores, em particular o Hesbolá, denunciam que faz parte do acordo que, se ‘Israel’ cometer crimes de guerra no Líbano, o Estado libanês não vai entrar com processo nos tribunais internacionais contra ‘Israel’. Quer dizer, o acordo aceita que sejam realizados crimes de guerra contra a população do Líbano”, disse.
Segundo Pimenta, a situação libanesa faz parte do mesmo processo aberto pela guerra em Gaza e pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Ele lembrou que a chamada Primavera Árabe já tinha demonstrado a fragilidade dos governos da região, com levantes na Tunísia, no Egito, no Iêmen e no Barém.
“O que aconteceu em Gaza repercutiu em todo o Oriente Médio de uma maneira muito forte. Repercutiu também na Europa, com grandes mobilizações na Inglaterra, na França, na Itália e na Alemanha. A gente pode imaginar o tamanho da mobilização nos próprios países árabes do Oriente Médio. Depois veio a guerra contra o Irã, que também enfraqueceu todos esses regimes. A situação do Líbano é mais um episódio da crise generalizada dos países da região”, afirmou.
Michelle Bolsonaro e a terceira via
Ao comentar a política nacional, Pimenta tratou da crise interna do bolsonarismo após declarações de Michelle Bolsonaro contra Flávio Bolsonaro, atual candidato presidencial do setor. Para ele, a crise deve ser vista em relação à tentativa da burguesia de enfraquecer simultaneamente a candidatura apoiada por Bolsonaro e a candidatura de Lula.
Segundo Pimenta, a imprensa capitalista alterna ataques contra o candidato bolsonarista e contra o candidato do PT, procurando abrir espaço para uma terceira via, pela direita ou pela esquerda.
“Na eleição, nós temos uma situação em que o grande capital tem atacado alternadamente o candidato Bolsonaro e o candidato do PT. A revista Veja tirou, numa semana, uma capa com a foto de Jaques Wagner e o título A vez do PT. E agora tirou uma capa com Michelle Bolsonaro. É paulada nos dois candidatos. Isso define um pouco a política geral da burguesia. Eles ainda estão insistindo na estruturação de um candidato da chamada terceira via, um candidato do centro, nem Lula nem Bolsonaro”, afirmou.
Pimenta disse que o ataque de Michelle Bolsonaro a Flávio Bolsonaro, independentemente das motivações pessoais, serve à política de enfraquecimento da candidatura bolsonarista. Ele citou ainda ataques de Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Rodrigo Constantino contra Flávio Bolsonaro.
“Independentemente do que Michelle Bolsonaro queria fazer, o que ela está fazendo efetivamente é jogar água no moinho da terceira via. Isso mostra o tamanho da pressão que a candidatura bolsonarista está sofrendo. Se, em vez de Flávio Bolsonaro, mas não tanto por ele e sim por Jair Bolsonaro, o candidato fosse outro da direita, é possível que ele tivesse desistido depois de tanto problema”, afirmou.
PT em São Paulo
Pimenta também comentou a chapa anunciada pelo PT em São Paulo, formada por Fernando Haddad, Márcio França, Simone Tebet e Marina Silva. Segundo ele, a composição expressa a política direitista predominante na direção petista, em aliança com setores oriundos do PSDB e da terceira via.
“A chapa é Haddad, tendo como vice Márcio França, ex-PSDB, e candidatos ao Senado Simone Tebet e Marina Silva. Se a gente olhar essa chapa, já não é uma chapa do PT, é uma chapa do PSDB. Haddad é um dos políticos mais direitistas dentro do PT. A política financeira e econômica dele foi duramente questionada dentro do próprio partido. E os outros são todos PSDB, são políticos da terceira via”, disse.
O presidente nacional do PCO afirmou que esse movimento não se limita a São Paulo. Ele citou o Rio Grande do Sul, o Rio de Janeiro e Pernambuco como exemplos de estados em que o PT aparece subordinado a candidatos e partidos burgueses.
“O eleitorado do PT olha para Lula, mas não percebe que Lula é apenas uma parte. O restante são esses políticos burgueses completamente falidos em todos os lugares. O escândalo com Jaques Wagner revelou uma coisa que todo mundo que acompanha sabe: o PT da Bahia é, na realidade, a cobertura de uma política oligárquica de direita. A dupla Jaques Wagner e Rui Costa é testa de ferro da burguesia local”, declarou.
Fundo eleitoral e PSOL
Outro tema comentado no programa foi a disputa no PSOL em torno do fundo eleitoral. Pimenta citou o caso da deputada Erika Hilton, que, segundo a discussão apresentada, não ficou satisfeita com R$2.000.000,00 e reivindicou R$3.000.000,00 para sua campanha.
O dirigente comparou essa quantia ao montante reservado a partidos sem representação no Congresso Nacional, como o PCO.
“O PSOL vai receber R$80.000.000,00 de fundo eleitoral. Os partidos que não têm representação no Congresso Nacional, como é o caso do PCO, vão receber R$3.400.000,00. Quer dizer, o que Erika Hilton está pedindo para a candidatura dela nós vamos receber para toda a campanha eleitoral do partido. Depois aparece gente dizendo que o PCO vive do fundo eleitoral. Ninguém vai falar que Erika Hilton vive do fundo eleitoral”, afirmou.
Para Pimenta, a disputa revela o funcionamento oligárquico dos partidos políticos no Brasil. Segundo ele, o fundo eleitoral é controlado por pequenos grupos internos e distribuído prioritariamente para parlamentares e nomes já integrados à estrutura partidária.
Sionismo dentro do governo
Pimenta dedicou outra parte do programa ao encontro promovido pelo governo Lula com organizações sionistas. Segundo ele, a reunião, feita em janeiro, foi apresentada como encontro com a “comunidade judaica”, mas, na prática, reuniu setores ligados ao sionismo. O dirigente afirmou que o episódio revela a relação do PT com “Israel”.
Ele criticou a presença de Geraldo Alckmin e de ministros do governo, bem como a política de usar a acusação de antissemitismo para perseguir quem denuncia o genocídio na Palestina.
“Eu pensava que nós estávamos numa etapa de genocídio na Palestina, mas aí a gente descobre que nós estamos numa etapa de antissemitismo. A ministra do PT, em vez de denunciar o que está acontecendo na Palestina, está ajudando os sionistas a perseguir as pessoas em nome do antissemitismo. Trabalhar a liberdade de expressão, nesse caso, significa perseguir as pessoas que se expressaram contra o genocídio em Gaza”, afirmou.
Pimenta citou ainda o histórico de aproximação dos governos Lula com “Israel”, incluindo visitas oficiais, acordos comerciais e crescimento do comércio bilateral. Para ele, manter relações comerciais com “Israel” significa apoiar o sionismo.
“Todo mundo que mantém relações com ‘Israel’, só de manter relações com ‘Israel’, está facilitando e sendo cúmplice daquilo que acontece com os palestinos nas mãos do sionismo. O Brasil mantém relações comerciais, compra alguma coisa de ‘Israel’, financia o sionismo. Isso que eu estou lendo não é uma crítica, é o próprio sítio da Presidência da República falando como é boa a relação do Brasil com os sionistas”, disse.
O dirigente também comentou a votação na Câmara Municipal do Rio de Janeiro de uma proposta que, segundo ele, proíbe inclusive críticas ao Estado de “Israel”. Pimenta afirmou que vereadores do PT votaram a favor e que vereadores do PSOL não participaram da votação.
“Está absolutamente claro que o PT do Rio de Janeiro e o PSOL do Rio de Janeiro foram cúmplices na aprovação desse negócio que proíbe inclusive a crítica ao Estado de ‘Israel’, uma proposta absolutamente criminosa. Se não fosse a denúncia de que a esquerda toda votou, porque num primeiro momento apareceu a denúncia de que todo mundo teria votado, a gente nem ficaria sabendo”, afirmou.
Copa do Mundo e campanha contra o Brasil
No encerramento do programa, Pimenta comentou a Copa do Mundo. O Brasil venceu a Escócia por 3 a 0, mas, segundo ele, a campanha da imprensa contra a seleção brasileira não diminuiu. O dirigente criticou a anulação de um gol brasileiro pelo VAR e afirmou que a imprensa prepara o público para aceitar eventual prejuízo ao Brasil nos próximos jogos.
“Todo mundo que assistiu ao jogo conseguiu ver o lance nítido na televisão. A grande pergunta é: como o cidadão do VAR e o juiz viram uma coisa que ninguém mais viu? É óbvio que existiu má intenção. O jogo estava 1 a 0. O segundo gol do Brasil quase liquidaria a partida. Encontraram motivo e anularam o gol. Mesmo assim, o Brasil fez 3 a 0. Podia ter feito 4 a 0”, afirmou.
Pimenta disse que existe uma campanha para apresentar a seleção brasileira como inferior e para ampliar a dominação do futebol europeu entre o público brasileiro. Segundo ele, trata-se de uma disputa econômica e política.
“O Brasil deve ser um dos países que tem o maior público de futebol do mundo. Não é um público que tem dinheiro, certamente. Por isso, a máfia do futebol prefere que as seleções europeias principais ganhem a Copa. O Brasil tem um público grande e é um público que realmente gosta de futebol. A ideia é fazer com que o futebol europeu domine o público brasileiro. É doutrinar uma parcela da população brasileira para que aceite que o futebol brasileiro é de segunda linha”, afirmou.
O presidente nacional do PCO também criticou a campanha contra Neymar. Segundo ele, a hostilidade ao jogador é política e atinge um dos principais nomes da seleção brasileira. Pimenta afirmou que a seleção é uma das grandes manifestações do nacionalismo brasileiro e que esse nacionalismo, por ser de um país oprimido pelo imperialismo, tem caráter progressista.
“O normal para um brasileiro é torcer para o Brasil. A seleção brasileira é um dos maiores fenômenos culturais do nacionalismo brasileiro. Esse nacionalismo brasileiro tem um caráter progressista. Não é como o nacionalismo alemão, que é reacionário, imperialista. O nacionalismo brasileiro é um fator de progresso para o País, é uma defesa do País diante do imperialismo”, disse.
Pimenta concluiu comentando a ofensiva contra a CazéTV por causa de anúncios de casas de apostas pela internet. Para ele, a campanha contra esse tipo de aposta tem caráter moralista e atingiu justamente um canal que abalou o monopólio da rede Globo nas transmissões esportivas.





