A crise dos partidos tradicionais na Europa revela a perda de controle do imperialismo sobre os regimes políticos. Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), analisou esse processo no programa Análise Internacional, transmitido às quintas-feiras, às 12h30, pelo canal do Diário Causa Operária no YouTube.
As pesquisas eleitorais de Berlim, apresentadas no programa, contrariam a explicação de que o desgaste dos partidos alemães seria uma particularidade das regiões da antiga Alemanha Oriental. Pimenta afirmou:
“O regime está se esfacelando. Não é uma crise ocasional, é uma crise definitiva, uma crise terminal.”
Os partidos que questionam o regime crescem e abrem caminho para enfrentamentos mais radicais. Ao comentar a presença do BSW na disputa alemã, Pimenta destacou: “Mostra que não se trata simplesmente de uma onda de direita, mas de uma polarização entre esquerda e direita”.
Na América Latina, a esquerda que permaneceu por longos períodos no governo passou a ser identificada com a principal ala do regime. Isso dificulta que o descontentamento popular se expresse por meio dessas organizações.
Pimenta também rejeitou a apresentação do crescimento do partido alemão Die Linke como uma vitória do socialismo. Adaptada ao regime, a organização funciona como um substituto da social-democracia:
“Esse tipo de regime político se apoia sobre uma espécie de bipartidarismo. Então, era a alternância no governo do Partido Socialdemocrata e da CDU. Só que o Partido Socialdemocrata se comprometeu totalmente com a política da direita, com o neoliberalismo, e acabou se esgotando completamente. Então agora eles estão procurando criar um substituto de emergência, como aconteceu em outros países com o Syriza, por exemplo, diante do esgotamento do Partido Socialista Grego.”
O Syriza apresentou-se como uma esquerda renovada e mais democrática do que os partidos tradicionais. No governo, submeteu-se aos bancos:
“Aí o Syriza ganhou, anos atrás, a eleição no meio de uma crise extraordinária da dívida grega com os bancos europeus, principalmente bancos alemães. E ele acabou assinando um acordo draconiano com os bancos e, por isso, foi liquidado politicamente.”
No Brasil, o PSOL representa essa esquerda pequeno-burguesa. A rigidez do regime, dominado por uma oligarquia e por currais eleitorais, dificulta que o partido substitua eleitoralmente o PT. Além disso, a aliança com os petistas comprometeu a pretensão do PSOL de apresentar-se como alternativa.
Na Espanha, o Podemos perdeu força ao apoiar o governo neoliberal do Partido Socialista. No Chile, Gabriel Boric repetiu a política do Partido Socialista chileno.
“Tudo isso daí vai liquidando. Mesma coisa aconteceu com a esquerda portuguesa, que apoiou o governo do Partido Socialista. Quer dizer, só estão sobrevivendo e tendo algum futuro político os partidos que não se envolveram muito profundamente com a esquerda tradicional”, afirmou Pimenta, que citou a França Insubmissa e o BSW entre as organizações que conservaram maior independência.
A imitação do discurso da extrema direita por dirigentes da esquerda grega é outra demonstração de submissão. Pimenta comparou essa orientação à campanha petista:
“Isso aí mostra por que essa esquerda não tem futuro. Não tem futuro nenhum. É uma coisa sem personalidade política, como acontece no Brasil. O PT está fazendo a mesma coisa aqui. Colocou a segurança pública como uma das questões-chave da campanha.”
A defesa da população trabalhadora exige o combate à repressão e a legalização de todas as drogas. Repetir o discurso repressivo da direita fortalece os ataques aos direitos democráticos.
Pimenta distinguiu a Aurora Dourada, organização fascista grega, dos agrupamentos de Javier Milei e Jair Bolsonaro, que continuam sendo partidos do regime. A proibição da Aurora Dourada e a prisão de seus dirigentes serviram para conter seu desenvolvimento naquele momento:
“O que não significa que a burguesia tenha eliminado a Aurora Dourada. Muito pelo contrário, eles estão aí. Eles simplesmente botaram um cabresto aí, botaram umas pessoas na cadeia, mas a hora que eles precisarem da Aurora Dourada, eles vão chamar o pessoal a comparecer na situação política grega.”
Questionado sobre o recuo eleitoral da extrema direita sueca após sua associação com a direita tradicional, o dirigente do Partido ressaltou que seria necessário acompanhar mais de perto os acontecimentos do país para explicar o resultado. Apontou, no entanto, um efeito comum às alianças governamentais da esquerda e da extrema direita: “Ela acaba herdando aí o fiasco da política oficial”.
A derrubada de Dilma Rousseff deu uma sobrevida ao PT, mas o retorno de Lula ao governo voltou a expor seu esgotamento. Pimenta rejeitou a ideia de que o Brasil estaria livre do processo que atinge os partidos europeus:
“A única diferença é que o Lula sempre teve uma grande autoridade política, mas é evidente que essa política dele vem minando as bases dessa autoridade. É muito evidente. Agora nós estamos atravessando uma situação em que a frente com a burguesia se materializou na frente do PT com o STF também. Porque o STF é parte dessa frente ampla que o PT propala. Então a frente ampla está liquidando o PT.”
O acesso à inteligência artificial também preocupa o imperialismo. Questionado sobre a campanha para frear seu desenvolvimento e seu eventual emprego pelo Ansar Alá, no Iêmen, Pimenta explicou:
“O pessoal está com medo do caráter democrático do uso da inteligência artificial, que você pode usar, o governo pode usar, mas ninguém garante que as oposições aos governos não possam usar também. Então isso aí gera um medo muito grande.”
Ao responder à preocupação de que essas ferramentas ampliem o poder repressivo dos governos, explicou:
“Uma tecnologia pode ser usada tanto por um como por outro. Uma vantagem de muita tecnologia anterior é que o imperialismo, pelo fato de ter o maior poder econômico, tinha um monopólio dessas tecnologias, enquanto que as populações não tinham acesso. Só que o desenvolvimento tecnológico, principalmente de computadores pessoais, levou à democratização, ao acesso da população a essas tecnologias.”
O conhecimento necessário para utilizar essas ferramentas é uma barreira menor do que a falta de recursos para obtê-las, destacou Pimenta.
Perguntado se uma república soviética no Brasil utilizaria o ChatGPT, respondeu: “Com certeza, é um grande recurso. Não pode ser deixado de lado”. As tentativas de regulamentação procuram atrasar o desenvolvimento dessas ferramentas, enquanto os governos podem desenvolver tecnologias sem torná-las públicas.
Na Argentina, Javier Milei recebe conselhos para demonstrar preocupação com as dificuldades econômicas da população. Pimenta apontou o objetivo dessa recomendação:
“A política do Milei já começou a dar sinais de esgotamento. Quando a burguesia dá conselhos para ele moderar essa política, é uma tentativa de manter funcionando uma política que está se esgotando completamente.”
Pimenta explicou que os governos se desgastam rapidamente porque, ao assumir o poder, precisam decidir como agir diante das exigências do sistema financeiro:
“Ou ele adota a política dos bancos, quer dizer, do sistema financeiro, ou ele vai para um enfrentamento com a política dos bancos. Se ele adotar a política dos bancos, ele perde a popularidade dele.”
Sem conseguir sustentar seus governos, a burguesia procura alternativas mais reacionárias:
“Essas forças políticas de direita vão ter que ser substituídas por forças políticas de direita mais radicais, até que a burguesia consiga apoio suficiente para impor uma solução drástica à economia. A solução moderada não é uma solução.”





