Análise da 3ª

Rui Costa Pimenta: ‘centro não tem apoio de ninguém’

Presidente do PCO comentou a crise envolvendo Jaques Wagner, a queda de Starmer, o Irã e a campanha contra a Seleção Brasileira

Na edição desta terça-feira (23) do programa Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO e pré-candidato à Presidência, analisou os principais acontecimentos da situação política nacional e internacional.

Um dos primeiros assuntos foi a queda de Keir Starmer no Reino Unido. Para Pimenta, o governo britânico foi marcado pela perseguição aos defensores da Palestina e por uma dura política de censura na rede.

“A perseguição no Reino Unido teve como eixo, nesse período todo do Starmer, a perseguição às pessoas que defendiam a Palestina. Nós temos aí um movimento que foi declarado como terrorista, uma coisa totalmente absurda. O pessoal foi preso, está preso até agora, com acusação de terrorismo. E, de um modo geral, a censura na Internet é uma das mais duras do mundo inteiro. Isso, sem dúvida nenhuma, está na conta do que fez com que o Starmer fosse derrubado.”

Pimenta afirmou que a experiência britânica deve servir de advertência para o Brasil. Segundo ele, a política de Starmer é semelhante à que vem sendo aplicada no País, sobretudo no terreno da censura.

“A política do Starmer é a política que está sendo aplicada no Brasil. Sem tirar nem pôr. Talvez a perseguição contra os defensores da Palestina não seja tão intensa porque o governo Lula não persegue ativamente ninguém nesse sentido. Mas, no que diz respeito à censura da internet, é uma cópia, é a mesma coisa. Isso deveria ser objeto de análise da esquerda. É receita para o desastre. Não tem ninguém na Inglaterra que não diga: já vai tarde o governo do Starmer.”

O presidente nacional do PCO relacionou a crise britânica às declarações recentes de Lula em defesa do centro. Para Pimenta, a queda de Starmer mostra que essa política não encontra apoio popular.

“Veja que o Lula falou que o pessoal gosta do centro. Bom, na Inglaterra, o centro acaba de mostrar que não tem apoio de absolutamente ninguém. Temos que destacar também o fato de que o Partido Trabalhista está cotado para ter uma derrota catastrófica na eleição. E merecida, logicamente. Merecida.”

Partido Trabalhista sem alternativa

Ao comentar a possível substituição de Starmer por Andy Burnham, Pimenta afirmou que o Partido Trabalhista não apresenta uma política alternativa porque sua ala de esquerda foi eliminada da organização durante a campanha contra Jeremy Corbyn.

“Não existe dentro do Partido Trabalhista uma política alternativa. A política alternativa foi expulsa do partido. Existia toda uma ala ligada ao Jeremy Corbyn, que inclusive foi líder do Partido Trabalhista por um período, participou de uma eleição. Essa ala foi totalmente expurgada do partido. Então, o que você tem agora no Partido Trabalhista é a direita. É um partido expurgado. Isso sem falar no fato de que o aparato do Partido Trabalhista da Inglaterra é controlado pelos serviços de inteligência. Isso não podemos perder de vista.”

Pimenta também destacou o peso do sionismo na política britânica. Segundo ele, a campanha contra Corbyn foi uma expressão desse domínio.

“A Inglaterra é o país, fora ‘Israel’, logicamente, mais sionista do mundo. Foram os ingleses que construíram o Estado de ‘Israel’. Essas campanhas de antissemitismo na Inglaterra são muito fortes. Existe uma pressão de todo o aparelho estatal e intelectual britânico em favor do sionismo. O Jeremy Corbyn sempre foi perseguido com acusações de antissemitismo porque defendeu os palestinos.”

Irã e ‘Israel’

O programa também tratou do acordo envolvendo os EUA, o Irã e o Estreito de Ormuz. Para Pimenta, a sabotagem de “Israel” ao acordo deve ser compreendida como parte de uma disputa dentro do próprio Estado norte-americano.

“Não podemos considerar a relação entre Trump e ‘Israel’ como sendo a relação dos Estados Unidos e ‘Israel’. São duas coisas diferentes. O aparelho de Estado norte-americano provavelmente está dando luz verde para Netaniahu continuar bombardeando o Líbano e complicar o acordo que foi feito à revelia de Trump. Existe uma queda de braço dentro do Estado norte-americano.”

Segundo Pimenta, Trump procura encerrar a crise porque o bloqueio imposto pelo Irã no Estreito de Ormuz cria uma situação grave para a economia norte-americana e para a economia mundial.

“O Trump quer liquidar o problema, quer fazer o acordo. A situação é grave pelo bloqueio que os iranianos conseguiram estabelecer sobre o Estreito de Ormuz. É uma situação muito grave, pode levar a uma crise econômica nos Estados Unidos, pode levar a uma crise econômica em geral.”

Colômbia e fraude eleitoral

Outro tema abordado foi a denúncia do presidente colombiano Gustavo Petro de fraude nas eleições presidenciais. Petro apontou uma invasão do sistema eleitoral e denunciou a participação de “Israel”.

Pimenta considerou possível a participação do Estado sionista, mas afirmou que esse tipo de operação também está ao alcance dos EUA e de outros países imperialistas.

“É possível. Esse tipo de trabalho sujo é o que ‘Israel’ faz em geral para o imperialismo. É um pouco ingênua a declaração do Petro de dizer que só ‘Israel’ teria condições. Os Estados Unidos têm muito mais condições do que ‘Israel’. Outros países imperialistas também têm.”

Para o pré-candidato à Presidência pelo PCO, a situação colombiana faz parte da instabilidade aberta pelos golpes de Estado na América Latina. Ele destacou ainda que os partidos de centro, ao perderem apoio popular, passam a sustentar a extrema direita.

“Esses candidatos de extrema direita que estão aparecendo em todos os lugares são apoiados pelos partidos ditos de centro. À medida que os partidos de centro perderam o seu eleitorado, perderam para a direita, eles estão apoiando os direitistas como forma de tentar recuperar as posições perdidas. A ideia de que existe um antagonismo entre a extrema direita e o centro, que seria democrático, é derrubada por esses acontecimentos.”

Cuba e a abertura econômica

Pimenta também comentou as reformas econômicas anunciadas em Cuba. Para ele, ainda é cedo para afirmar que se trata de restauração capitalista, embora as medidas indiquem uma abertura ao capital.

“A política de restauração capitalista é muito cedo para dizer. É uma abertura em relação ao mercado, cujo impacto vamos ter que ver no decorrer do período. Cuba já adotou algumas medidas nesse sentido. Agora, acho que existe muita comparação abusiva com a NEP. A NEP era uma política bastante circunscrita dentro do governo bolchevique.”

Segundo ele, a situação cubana é extremamente difícil por causa do bloqueio econômico imperialista, do tamanho reduzido do país e de seus poucos recursos.

“Cuba é um país muito pequeno, com muito poucos recursos. É um país submetido a uma situação de bloqueio econômico já faz várias décadas. Então é uma situação complicada. Manter uma economia totalmente estatal nessas condições é complicado. Eles mantiveram essa economia estatal até o momento com pouca abertura para o capital internacional. Agora, estão fazendo uma aposta de que essas medidas econômicas vão atrair capital e podem até diminuir a pressão do imperialismo sobre o país.”

Caso Master e Jaques Wagner

Na parte nacional do programa, Pimenta comentou o avanço do caso Banco Master e a ligação do banqueiro Daniel Vorcaro com diferentes setores do regime político, inclusive com nomes do PT, como Jaques Wagner.

“O caso vai custar caro, não tem por onde. Isso fala muito do regime político brasileiro, que está completamente podre. De um lado ao outro, o ativismo dele dentro do regime político acabou colocando às claras que o negócio é podre.”

Ao comentar a defesa feita por Fernando Haddad a Jaques Wagner, Pimenta afirmou que o senador tem grande peso dentro do PT e relações estreitas com a burguesia baiana.

“Aqui nós estamos tratando de uma pessoa poderosa dentro do PT. É um pessoal que se encastelou no governo da Bahia, tem vários mandatos do PT na Bahia, tem um relacionamento muito estreito com a burguesia da Bahia, com a direita. Acho que é isso que está pesando na definição. E isso apesar do fato de que o estrago que ele está fazendo na campanha do Lula é muito grande.”

Campanha contra a Seleção Brasileira

Na parte final, Pimenta comentou a Copa do Mundo e criticou a campanha da imprensa contra a Seleção Brasileira, Neymar e o técnico Carlo Ancelotti.

“A Copa, na imprensa e nas redes sociais, em parte, é um show de horrores. O pessoal nem disfarça mais a campanha que faz contra Neymar e contra a Seleção Brasileira. O Brasil nunca foi considerado o país do futebol porque ganhou ou deixou de ganhar alguma coisa. É porque o povo brasileiro é, no mundo, o povo que mais se interessa por futebol, de longe.”

Segundo ele, os ataques não são uma simples divergência esportiva, mas uma campanha política para desmoralizar o futebol brasileiro.

“Quando estava a discussão para escolher o técnico brasileiro, nós fomos claros: o técnico deveria ser brasileiro. Aí todo esse pessoal que agora está atacando a Seleção Brasileira fez uma campanha dizendo que tinha que ser técnico estrangeiro. O cara foi escolhido e agora, como o negócio é baixar a ripa na Seleção Brasileira, o ataque contra ele é total. Os jogadores da Seleção Brasileira não deveriam levar minimamente a sério essa campanha. É uma campanha política.”

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