O candidato do Partido da Causa Operária (PCO) à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, participou neste sábado (26) do debate presidencial promovido pelos canais Três Irmãos e Kritikê, com transmissão da Rádio MyNews VIP FM. Diferentemente dos debates realizados pelos grandes monopólios de comunicação, os organizadores convidaram todas as candidaturas à Presidência, independentemente da posição nas pesquisas eleitorais. Participaram Rui, Hertz Dias, do PSTU; Samara Martins, da Unidade Popular; Clariana Barão, da Democracia Cristã; e Veterinário Wilson Grassi, do Democrata.
Desde o pré-debate, Rui chamou a atenção para a exclusão das candidaturas menores dos principais espaços da campanha. Questionado sobre os convites que havia recebido, respondeu que, praticamente, eles não existiram.
“Não tem convite para debate. Os únicos debates que nós vamos participar são os dois debates que foram feitos aqui, o que é um problema muito grave, porque, se é uma eleição democrática, o público tem que conhecer os candidatos. Eu tenho certeza absoluta, porque já participei de outras eleições, que a maioria da população nem sabe que os candidatos que vão estar aqui debatendo existem.”
Rui afirmou que a desigualdade de exposição não seria simplesmente um resultado da legislação eleitoral, uma vez que os veículos poderiam convidar todos os candidatos. Segundo ele, existe um controle deliberado da disputa eleitoral pelos grandes órgãos de imprensa.
“É uma eleição controlada. Eu não acho que é por acaso. Eu não acho que tem a ver com a legislação, porque eles poderiam convidar todo mundo. Há um interesse dos grandes órgãos de comunicação de controlar a eleição, controlar a opinião pública, que é o papel deles, é o que eles fazem.”
Pouco antes do início do debate, Rui também apoiou uma nota de desagravo apresentada contra a falta de isonomia na campanha. O manifesto, articulado por candidatos excluídos de diversos debates televisivos, denunciava justamente o mecanismo pelo qual partidos com mais recursos, maior exposição e melhores posições nas pesquisas recebem ainda mais espaço, enquanto os demais são mantidos fora do conhecimento de grande parte da população.
Questionado ainda no pré-debate sobre qual assunto estaria sendo tratado de forma insuficiente na eleição, Rui apontou a dívida pública. Para o candidato do PCO, o problema aparece na imprensa de maneira invertida: em vez de se discutir a própria existência da dívida e o volume de recursos destinados aos credores, fala-se apenas em “equilíbrio fiscal” e corte de gastos.
“O que eu acho que o Brasil precisaria discutir é se nós devemos ou não manter a dívida pública, porque o País está escravizado a essa dívida pública.”
Na apresentação formal dos candidatos, Rui resumiu sua trajetória política. Jornalista, destacou que milita desde a ditadura militar, participou do movimento estudantil e das lutas do movimento operário, foi dirigente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e afirmou que sua atividade permanece baseada no marxismo, na revolução e no socialismo.
“Eu tenho uma militância pautada pela ideia da revolução e do socialismo e baseada no marxismo. A minha militância é uma militância antiga, já de mais de 40 anos. E eu continuo na mesma luta do começo da minha carreira.”
Um dos primeiros temas sorteados para Rui foi a educação. O candidato destacou a necessidade de melhores salários e formação para os professores e, posteriormente, chamou a atenção para a dimensão do problema educacional brasileiro. Segundo ele, não é possível tratar a educação brasileira como a de países que partiram de condições sociais muito diferentes.
“O Brasil é um dos países no mundo que tem o maior déficit educacional devido ao fato de que nós temos uma esmagadora maioria da população muito pobre, que essa população saiu da zona rural com baixíssimo nível de escolaridade e que, portanto, o investimento de recursos na educação para superar essa situação teria que ser muitas vezes superior ao que nós temos visto nos últimos anos.”
Outro confronto ocorreu no tema da saúde. Veterinário Wilson Grassi sustentou que parte significativa das filas do SUS seria produzida pelo excesso de exames e defendeu uma política voltada à prevenção de doenças. Rui discordou e apontou como problema central a falta de recursos do sistema público.
“Queria discordar do candidato porque o problema do SUS é o completo sucateamento da saúde pública nacional. Não são só os exames que têm fila, o tratamento tem uma fila.”
Rui relatou o caso de um militante do PCO que, segundo ele, teria de esperar seis meses por quimioterapia e precisou arrecadar dinheiro para realizar o tratamento na rede privada. Para o candidato, o exemplo mostrava que o problema não poderia ser reduzido a uma questão administrativa.
“Nós precisaríamos ter uma rede de saúde que desse conta da necessidade da população.”
A discussão sobre financiamento eleitoral também deu a Rui a oportunidade de retomar a denúncia da desigualdade entre os partidos. Ao comentar uma proposta de Samara Martins, da UP, o candidato do PCO afirmou que nenhuma legislação seria capaz de eliminar totalmente essa desigualdade enquanto permanecesse a própria divisão social entre ricos e pobres.
“Não é possível fazer uma fórmula que dê conta do problema da disparidade eleitoral. A sociedade é dividida entre gente muito rica e gente pobre.”
Rui defendeu, porém, medidas capazes de diminuir essa diferença, particularmente “participação de todos nos debates” e “tempo igual para a apresentação das propostas nos grandes meios de comunicação”.
Um dos principais momentos de sua participação ocorreu quando o tema sorteado foram as bets. Rui anunciou que, caso chegasse à Presidência, revogaria a Medida Provisória adotada pelo governo Lula para proibir as apostas. A posição foi registrada também na cobertura do próprio MyNews.
Para Rui, a medida tomada pelo governo na reta final da campanha possui finalidade eleitoral. A caracterização foi apresentada por ele como uma crítica política ao governo, e não como uma constatação judicial.
“Primeiramente, queria deixar absolutamente claro que a medida adotada pelo presidente Lula é uma medida antidemocrática porque caracteriza compra de voto no período eleitoral. É uma medida demagógica para influenciar as eleições.”
No mérito da política, Rui rejeitou o método proibicionista.
“Se nós por acaso fôssemos eleitos presidente da República, revogaríamos a medida, porque nós acreditamos que não é através de proibições que nós vamos colocar o País no eixo.”
O candidato defendeu a regulamentação das apostas e argumentou que sua proibição não acabaria com o jogo, mas fortaleceria atividades clandestinas.
“Agora que foi proibida a aposta legal, com toda a certeza vão se criar novos focos de organizações criminosas que vão explorar a aposta ilegal. Eu tenho 67 anos de idade e, desde que eu me conheço por gente, nunca deixou de haver no Brasil aposta ilegal. Quem falar que vai acabar com esse tipo de coisa está mentindo descaradamente para a população.”
Mais adiante, no confronto direto entre os candidatos, Rui escolheu tratar da crise das instituições políticas. Sua pergunta a Hertz Dias, do PSTU, partiu dos escândalos envolvendo o Banco Master e o INSS para colocar em discussão não apenas determinados ministros ou parlamentares, mas o funcionamento do conjunto do regime político.
“O escândalo do Banco Master e o escândalo do INSS que apareceram na véspera das eleições colocaram em pauta a completa desagregação do regime político. Nesse sentido, seria necessário ter uma proposta em relação às instituições políticas brasileiras. O STF está falido completamente. O Executivo está envolvido, o Congresso Nacional nem falar. Então nós temos uma crise generalizada de todas as instituições.”
Hertz respondeu defendendo a superação do regime pela mobilização da classe trabalhadora. Rui disse concordar com grande parte da resposta e introduziu a proposta de uma Assembleia Nacional Constituinte, mas ressaltou que ela não poderia ser organizada simplesmente a partir das instituições existentes.
“Essa Assembleia Nacional não pode ser feita sobre a base do que existe hoje em termos de partidos políticos, instituições. Ela teria que ser feita sobre a base de uma completa alteração das instituições políticas atuais. Isso não pode ser feito sem uma ampla mobilização, uma mobilização revolucionária da população brasileira.”
O quarto bloco do debate também colocou Rui diante de Clariana Barão para discutir a situação das mulheres. O candidato do PCO relacionou a opressão feminina às condições econômicas e à permanência de milhões de mulheres presas ao trabalho doméstico. Criticou a política de cotas como solução para o problema e defendeu organização e liberdade política para as mulheres.
No bloco destinado a perguntas aos candidatos ausentes, Rui primeiro foi sorteado para questionar Augusto Cury. Criticou a indefinição política do candidato do Avante, perguntando qual seria efetivamente seu objetivo na eleição.
O momento mais importante, porém, ocorreu quando Lula foi sorteado. Samara Martins criticou a conciliação do governo com a burguesia e coube a Rui comentar. O candidato do PCO lembrou que apoiou Lula em 2022 e formulou a pergunta que faria ao presidente:
“Eu, pessoalmente, como eleitor do Lula na eleição de 2022, faria a seguinte pergunta: por que ele prometeu que faria um governo nacionalista, um governo social e um governo democrático e acabou fazendo um governo que não foi nem nacionalista, nem social e nem democrático?”
Rui também voltou a criticar medidas adotadas pelo governo nos últimos dias da campanha e rejeitou que a ameaça representada pela direita possa justificar qualquer política do PT.
“Não adianta falar que o Flávio Bolsonaro é o diabo em forma de gente, porque isso não justifica o que nós estamos vendo na eleição.”
A cobertura do MyNews destacou esse confronto, registrando que Rui concordou parcialmente com as críticas feitas por Samara ao governo e contrapôs a política do PCO à orientação reformista do PT.
Nas considerações finais, Rui voltou ao problema que atravessou praticamente toda a sua participação: a crise do regime político. Para o candidato, os escândalos recentes são sintomas de uma deterioração muito mais ampla das instituições brasileiras.
“As eleições que vão ser realizadas agora no dia 4 se dão no marco da maior crise institucional e política brasileira desde a ditadura militar. Todas as instituições revelaram a sua completa falência.”
Rui afirmou que a própria campanha presidencial teria sido tomada por denúncias e escândalos, sem que as principais candidaturas apresentassem saídas para os problemas do País.
“O Brasil se encontra numa situação extremamente delicada e nós precisamos de soluções radicais. Sem a participação do povo nas ruas não vai mudar nada. Essa é, na minha opinião, a questão central.”
Ao final, Rui elogiou a iniciativa dos organizadores por convidarem todas as candidaturas e afirmou esperar que a Internet amplie os espaços de discussão política, rompendo parcialmente o bloqueio imposto pelos grandes meios de comunicação.
Na entrevista realizada após o debate, voltou ao tema. Disse considerar ruim o modelo tradicional em que candidatos passam grande parte do tempo atacando uns aos outros, mas avaliou positivamente o formato daquela noite por permitir maior exposição das posições políticas.
“Eu acho que deu bastante oportunidade para cada um expressar várias questões importantes.”
Clariana Barão concentrou sua participação na situação das mulheres e das crianças; Samara Martins apresentou o programa da UP e a defesa do socialismo; Hertz Dias desenvolveu as propostas do PSTU sobre estatização, jornada de trabalho e organização dos trabalhadores; e Wilson Grassi defendeu posições liberais na economia e propostas próprias sobre proteção animal. Em comum, os cinco candidatos criticaram, por diferentes caminhos, a falta de espaço concedido às candidaturas excluídas dos principais debates.
Rui, por sua vez, utilizou suas intervenções para colocar em discussão problemas que estiveram praticamente ausentes dos debates promovidos pela grande imprensa: a dívida pública, a crise das instituições, o papel do STF, a desigualdade eleitoral e a necessidade da mobilização política independente da população. Sua declaração final condensou a posição defendida durante toda a noite: nenhuma saída para a crise brasileira poderá ser produzida apenas pelas instituições existentes, sem a entrada direta dos trabalhadores na luta política.





