Movimento estudantil

Revoltados com Macron, estudantes incendeiam escolas na França

Bloqueios atingem centenas de liceus e dezenas de universidades enquanto trabalhadores enfrentam congelamento salarial e cortes no Orçamento de 2027

A revolta estudantil que começou nos arredores de Paris espalhou-se pela França e colocou o governo de Emmanuel Macron diante de uma nova crise. Nesta quinta-feira (1º), incêndios atingiram liceus, barricadas fecharam estabelecimentos de ensino e universitários aderiram aos bloqueios. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou uma reunião interministerial de emergência para discutir a situação.

O movimento já vinha crescendo durante toda a semana. Na quarta-feira (30), 356 liceus estavam submetidos a bloqueios totais ou parciais, contra 338 na terça-feira. Nesta quinta, aproximadamente 30 universidades e institutos de ensino superior também registraram paralisações ou bloqueios em cidades como Paris, Lille, Lyon, Marselha, Rouen, Brest, Poitiers, Reims e Dijon. O jornal Le Figaro registrou que uma mobilização universitária dessa extensão não ocorria havia anos.

Os alunos protestam contra problemas bastante concretos: professores ausentes sem substituição, salas superlotadas, prédios deteriorados, falta de funcionários e jornadas escolares consideradas excessivas. Também há protestos contra a pressão exercida pelo Parcoursup, sistema utilizado para selecionar estudantes para o ensino superior.

Em Estrasburgo, Raphael, de 17 anos, descreveu as condições de seu liceu: “Somos 35 por sala. Com 35°C no verão, é insuportável. Não há banheiros suficientes e há vazamentos de água em algumas salas”. Segundo o estudante, o prédio está caindo aos pedaços, o refeitório não comporta os alunos e faltam recursos e supervisores.

Em Saint-Denis, na periferia de Paris, alunos relataram problemas semelhantes. A imprensa francesa encontrou estudantes denunciando prédios infestados por baratas, cadeiras quebradas e longas filas para conseguir comer nos restaurantes universitários. Em Lille, professores também apareceram apoiando os alunos.

A revolta assumiu formas mais duras em várias cidades. O salão de entrada do liceu Nelson-Mandela, em Nantes, foi destruído pelo fogo durante o bloqueio do estabelecimento. A direção informou que se tratou de um incêndio intencional, embora naquele momento não houvesse identificação pública de seu autor. Em Lyon, um princípio de incêndio atingiu a fachada do liceu Lumière. A Reuters registrou ainda incêndios provocados por estudantes em pelo menos dois estabelecimentos e confrontos em Marselha, onde um veículo dos bombeiros foi queimado.

O governo respondeu com forte repressão policial. Somente na quarta-feira, 625 pessoas foram detidas, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez. O Ministério da Educação contabilizou 119 feridos desde o início dos protestos, dos quais 34 eram funcionários das escolas. Bombas de gás lacrimogêneo foram utilizadas diante de estabelecimentos e alunos acusaram policiais de violência durante as operações.

Depois da reunião convocada por Lecornu, Matignon passou a qualificar os acontecimentos como uma passagem para as “violências urbanas” e anunciou que alguns liceus passariam temporariamente às aulas a distância. O ministro da Educação, Edouard Geffray, anunciou que receberia representantes dos estudantes, dos pais e dos trabalhadores da educação.

A explosão nas escolas ocorre no mesmo momento em que uma parcela importante da classe trabalhadora francesa entra em choque com a política neoliberal do governo. Na terça-feira (29), servidores públicos, bombeiros, professores e trabalhadores da saúde realizaram uma greve nacional contra as medidas previstas para 2027. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) contabilizou mais de 300 mil manifestantes em mais de 180 atos por todo o país. Estudantes, aposentados e empregados do setor privado também participaram.

O projeto orçamentário apresentado pelo governo prevê um ajuste de 54 bilhões de euros. Entre as medidas estão o congelamento dos salários dos servidores e da maioria das aposentadorias, além da redução de despesas com governos locais e saúde. O governo vem com a ladainha de sempre: afirma que pretende reduzir o déficit público, enquanto os sindicatos denunciam a transferência da conta para os trabalhadores e para os serviços públicos. Na verdade, trata-se do repasse do dinheiro do povo para os banqueiros, patrões de Macron.

Os próprios liceus já haviam participado da paralisação de 29 de setembro. Mais de 330 estabelecimentos foram atingidos por piquetes naquele dia. Professores, bombeiros e trabalhadores da saúde estavam nas ruas enquanto estudantes erguiam barreiras diante das escolas. A atual onda de bloqueios, portanto, cresceu no interior de uma luta mais ampla contra a terapia de choque de Macron.

Essas mobilizações são consequência precisamente da política neoliberal seguida por Macron desde sua chegada ao Eliseu. A reforma trabalhista, os choques com os ferroviários, as mudanças no seguro-desemprego e a reforma da Previdência de 2023 são partes de uma ofensiva prolongada contra as condições de vida da classe operária francesa.

A reforma previdenciária tornou-se um dos maiores exemplos desses ataques. O governo aumentou de 62 para 64 anos a idade mínima para a aposentadoria e, diante da dificuldade para aprovar a medida na Assembleia Nacional, utilizou o artigo 49.3 da Constituição para fazer o projeto avançar sem uma votação ordinária. O resultado foram meses de greves e manifestações em 2023.

O caráter dessa política não pode ser separado das relações de Macron com o grande capital financeiro. Antes de chegar ao governo, ele passou pela alta administração pública e trabalhou no banco Rothschild. O macronismo é um governo neoliberal, ligado aos banqueiros e comprometido com a política do imperialismo francês, ao mesmo tempo em que reduz recursos destinados aos trabalhadores e aos serviços públicos.

A rejeição ao presidente dos banqueiros chegou a um dos níveis mais altos de seus dois mandatos. Pesquisa do Ifop realizada entre 9 e 17 de setembro com 1.956 franceses apontou apenas 17% de satisfeitos com Macron, quatro pontos a menos que em agosto. Outros 55% declararam-se “muito insatisfeitos”, recorde dessa resposta na série do instituto. Entre os jovens de 18 a 24 anos, somente 24% disseram estar satisfeitos com ele.

O governo procurou deslocar a discussão das reivindicações para a questão da ordem pública. Lecornu e outros integrantes do Executivo acusaram a França Insubmissa de incentivar os bloqueios e os confrontos. Jean-Luc Mélenchon respondeu defendendo os estudantes e acusando o governo de repressão. O próprio Le Monde, porém, registrou que as exigências dos jovens dizem respeito principalmente a professores, verbas, manutenção dos prédios e condições de estudo.

A tentativa de conter o movimento com a polícia ocorre enquanto o Orçamento de 2027 aumenta a pressão sobre os mesmos setores que estão nas ruas. A CGT deu ao governo 48 horas para rever os cortes e anunciou que os sindicatos discutiriam novos passos caso Lecornu mantivesse seu programa. Nas escolas, os bloqueios passaram dos liceus às universidades justamente quando mais de 300 mil trabalhadores já haviam demonstrado que a insatisfação com o governo ultrapassa em muito os portões dos estabelecimentos de ensino.

A situação na França, como sempre, é explosiva. Ela indica o caminho a ser seguido pela juventude e pelos trabalhadores do mundo, inclusive do Brasil.

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