Reação iraniana

Resposta do Irã enfraqueceu os EUA ‘de modo significativo’, admite congressista

Thomas Massie denuncia esgotamento de mísseis, mortes de soldados, alta dos combustíveis e crescimento da dívida: “tudo por ‘Israel’”

“Os Estados Unidos foram significativamente enfraquecidos pela guerra com o Irã”, declarou o deputado republicano Thomas Massie no domingo (26).

Em uma publicação na rede social X, Massie relacionou os efeitos da agressão norte-americana: esgotamento das defesas antimísseis, redução da Reserva Estratégica de Petróleo, mortes de militares, encarecimento dos bens de consumo, crescimento da dívida pública e abandono das necessidades internas do país.

“Tudo por ‘Israel’”, escreveu.

O deputado defendeu que Donald Trump aproveite a interrupção dos combates para retirar as tropas norte-americanas da região e buscar a reabertura do Estreito de Ormuz por meio da diplomacia.

A declaração contraria diretamente a propaganda da Casa Branca, segundo a qual os Estados Unidos teriam saído fortalecidos e o Irã estaria próximo do colapso. Meses depois do início da guerra, porém, Washington não conseguiu impor nenhuma de suas principais exigências à República Islâmica.

O programa nuclear iraniano não foi desmantelado, o arsenal de mísseis continua em operação e Teerã não rompeu com o Eixo da Resistência. Ao mesmo tempo, bases norte-americanas espalhadas pelo Oriente Próximo passaram a sofrer ataques frequentes.

Guerra consome arsenal norte-americano

Os estoques de pelo menos quatro armamentos fundamentais para o agressor imperialista — Patriot, THAAD, SM-3 e PrSM — caíram para 50% ou menos dos níveis anteriores à guerra, segundo levantamento do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais dos Estados Unidos.

A indústria militar não consegue repor os mísseis na mesma velocidade em que são disparados. A produção mensal está em torno de 15 Tomahawks e 20 interceptadores Patriot. Não há previsão de entrega de novos interceptadores THAAD em 2026.

Somente nos primeiros quatro dias da famigerada Operação Fúria Épica, as baterias Patriot encarregadas de proteger bases dos Estados Unidos e países aliados no Golfo dispararam 943 interceptadores. O número corresponde a cerca de 18 meses da produção das fábricas da Lockheed Martin e da Boeing.

Cada interceptador THAAD custa aproximadamente US$ 15,5 milhões. Um acordo assinado em janeiro prevê elevar a produção anual de 96 para 400 unidades, mas a ampliação deverá levar de três a quatro anos para produzir resultados.

O CSIS calcula que a reconstrução dos estoques aos níveis anteriores à guerra exigirá pelo menos três anos. O desgaste reduz a capacidade dos Estados Unidos de manter outros conflitos simultâneos ou preparar uma guerra de grandes proporções contra a China ou a Coreia do Norte.

A escassez já interfere nas decisões do comando militar. O chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, manifestou preocupação com a ampliação da campanha justamente por causa do nível das reservas.

A interrupção dos combates ocorreu depois que o consumo das munições passou a limitar as opções do Pentágono. Trump admitiu que gostaria de contar com mais armamentos sofisticados, embora continue negando publicamente que os estoques estejam baixos.

No dia 26, o presidente tentou reforçar essa negativa publicando imagens de ataques produzidas por inteligência artificial.

Quase 500 militares feridos

O balanço oficial mais recente, divulgado em 24 de julho, registra 18 militares norte-americanos mortos desde o começo da guerra. Quatro morreram depois do dia 17.

O Pentágono também reconhece quase 500 feridos, dos quais aproximadamente 100 foram atingidos nas duas semanas anteriores à divulgação do relatório.

Pete Hegseth admitiu que as operações já consumiram mais de US$ 37,5 bilhões. Levantamentos independentes calculam cerca de US$ 42 bilhões em gastos militares diretos.

Quando são incluídos reparos das bases atingidas e reposição de armamentos e equipamentos, algumas estimativas se aproximam de US$ 50 bilhões.

Mísseis iranianos atingem bases dos EUA

O consumo das defesas norte-americanas decorre da capacidade do Irã de manter os ataques mesmo depois dos bombardeios contra seu território.

Mísseis e drones iranianos atingiram instalações dos Estados Unidos na Jordânia, no Cuaite e no Barém. Entre os alvos estavam radares, sistemas antiaéreos, depósitos de combustível e centros usados para coordenar as operações contra a República Islâmica.

O Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica afirmou ter destruído dois lançadores HIMARS e armazéns militares no Cuaite. Um dos ataques provocou um incêndio em uma instalação de geração de energia e abastecimento de água.

As forças iranianas também continuaram disparando contra posições norte-americanas no Cuaite e no Barém depois dos ataques dos EUA contra regiões costeiras do país.

Especialistas ouvidos pela própria imprensa norte-americana reconheceram que os bombardeios não eliminaram a capacidade de Teerã de ameaçar as bases dos Estados Unidos e a navegação pelo Estreito de Ormuz.

Irã mantém controle de Ormuz

Na segunda-feira (27), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, afirmou que o país continua no controle do Estreito de Ormuz e não pretende negociar com os Estados Unidos.

Baghaei comparou o governo norte-americano a “uma quadrilha mafiosa que não obedece a regras nem leis”.

Teerã declarou que suspenderá seus ataques enquanto durar a pausa dos Estados Unidos, mas negou estar procurando uma nova rodada de negociações.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, assessores militares informaram a Trump que a campanha havia chegado ao limite do que poderia obter nas condições atuais.

Na terça-feira (28), o comando militar iraniano anunciou que embarcações de países e empresas que utilizem ativos iranianos congelados ficarão proibidas de atravessar Ormuz.

O Comando Central dos Estados Unidos respondeu que “o Irã não controla o Estreito de Ormuz” e alegou que se trata de uma via internacional. A declaração, contudo, não impede Teerã de restringir pela força a passagem de navios.

Petróleo volta a superar US$ 100

Antes da guerra, o barril de petróleo era negociado entre US$ 67 e US$ 71. Durante as votações realizadas no Congresso dos EUA em 23 de julho, o preço ultrapassou US$ 100.

Nos postos por todo o território norte-americano, a média da gasolina chegou a US$ 3,95 por galão em 16 de julho. Em diversas regiões, o preço superou US$ 4 em plena temporada de viagens de verão.

A alta do combustível encarece o transporte, os alimentos e os produtos industriais. O custo da guerra é, assim, transferido diretamente à população norte-americana.

Para tentar conter os preços, a burguesia americana passou a retirar grandes quantidades de petróleo da reserva estratégica do país.

Em apenas 17 semanas, o estoque caiu de 415,4 milhões de barris, em 20 de março, para 311,4 milhões em 17 de julho. Foram consumidos 104 milhões de barris, quase um quarto da reserva existente antes da escalada.

O volume chegou ao nível mais baixo desde 1983.

Especialistas calculam que a reserva precisa permanecer acima de aproximadamente 150 milhões de barris para evitar danos ao sistema. Embora ainda esteja acima desse limite, o governo reduziu de maneira significativa sua margem para enfrentar novas crises.

O economista Steve Hanke, da Universidade Johns Hopkins, afirmou que a Casa Branca utiliza uma reserva de emergência para responder a uma emergência criada pela própria política de guerra.

Inflação atinge maior nível em três anos

O aumento da energia levou a inflação norte-americana ao maior nível em três anos.

O índice de preços ao consumidor chegou a 4,2% em maio, o resultado mais elevado desde abril de 2023, segundo análise do Center for American Progress.

A pressão inflacionária também aumentou os juros pagos pelo governo. O custo adicional da dívida pública neste ano é estimado em US$ 30,8 bilhões.

A Moody’s Analytics calcula que a guerra já impôs aproximadamente US$ 132 bilhões em despesas adicionais aos consumidores e contribuintes dos Estados Unidos.

Outros pesquisadores estimam que o aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos poderá custar até US$ 1.000 por domicílio.

Ao mesmo tempo, a Casa Branca pediu ao Congresso mais US$ 87,6 bilhões para sustentar as operações. Desse total, US$ 67,1 bilhões seriam destinados ao Pentágono.

O pedido foi apresentado depois de o gasto militar previsto para 2026 já ter alcançado o recorde de US$ 1,05 trilhão.

Enquanto faltam recursos para serviços públicos, moradia, saúde e infraestrutura, novas dezenas de bilhões de dólares são entregues à indústria militar para sustentar uma guerra conduzida em benefício dos interesses dos monopólios imperialistas e seu preposto para dominar os povos do Oriente Próximo, “Israel”.

Os efeitos não se limitam aos Estados Unidos. O Banco Mundial reduziu para 2,5% a previsão de crescimento mundial em 2026, a menor taxa desde a pandemia.

A alta da energia e do transporte atinge principalmente os trabalhadores e os países pobres, que pagam pela guerra imperialista contra o bravo povo iraniano.

Republicanos rompem com Trump

A crise chegou ao Congresso norte-americano.

No dia 23, a Câmara dos Representantes aprovou, por 214 votos contra 208, uma resolução para conter a guerra encabeçada por Trump.

Quatro deputados republicanos votaram contra o governo: Thomas Massie, Brian Fitzpatrick, Tom Barrett e Warren Davidson.

No Senado, uma resolução equivalente foi bloqueada por 49 votos contra 47.

A medida aprovada na Câmara não possui força de lei e não será enviada para a assinatura de Trump. Seu resultado, porém, mostrou que já existe uma ruptura dentro da bancada republicana.

A deputada Pramila Jayapal classificou o conflito como uma “guerra ilegal”, conduzida sem missão, estratégia ou objetivo final definidos. Trump chamou as votações de “sem sentido”.

O deputado Gregory Meeks anunciou que tentará autorizar um processo contra a Casa Branca por desrespeitar a autoridade do Congresso.

‘América em primeiro lugar, não Israel’

A guerra também abriu uma divisão entre figuras ligadas ao movimento trumpista.

A deputada Marjorie Taylor Greene e o comentarista Tucker Carlson romperam publicamente com Trump por causa da agressão contra o Irã.

Carlson classificou a guerra como “absolutamente nojenta e maligna”.

“Fazer a América grande novamente deveria significar América em primeiro lugar, não Israel em primeiro lugar”, declarou Greene.

Trump respondeu que “MAGA é Trump”, procurando transformar qualquer oposição à sua política em uma ruptura com o próprio movimento.

O professor George Hawley avaliou que o ataque ao Irã afastou parte da direita radical do presidente.

A divisão ainda aparece mais entre parlamentares, apresentadores e influenciadores do que entre o conjunto do eleitorado republicano, que continua majoritariamente alinhado a Trump. No entanto, uma pesquisa Reuters/Ipsos publicada no último final de semana apontou que 26% dos eleitores republicanos desaprovam a guerra de agressão contra o Irã.

Washington contém ‘Israel’

A própria relação entre os Estados Unidos e “Israel” passou a ser limitada pelos efeitos da guerra.

Na terça-feira (28), o ministro da Defesa israelense afirmou que Washington estava impedindo novos ataques contra a infraestrutura energética iraniana.

O governo norte-americano teme que os bombardeios provoquem uma guerra regional mais ampla e uma nova disparada do preço do petróleo.

Depois de consumir mísseis, petróleo e dezenas de bilhões de dólares sem conseguir submeter o Irã, os Estados Unidos agora procuram conter seu próprio fantoche para impedir que a crise econômica se torne ainda maior.

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