Rui na TV 247

‘Regime democrático está esgotado na América Latina’, diz Rui Pimenta

Presidente nacional do PCO analisou a guerra na Ucrânia, a crise entre FIFA e UEFA e as manobras para controlar as eleições latino-americanas

Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência, afirmou nessa sexta-feira (31), em entrevista à TV 247, que os regimes políticos da América Latina atravessam uma crise profunda, marcada por golpes, fraudes e exclusão dos candidatos mais populares.

Na conversa com a jornalista Andrea Trus, Pimenta também analisou a guerra na Ucrânia, a disputa entre FIFA e UEFA pelo controle econômico do futebol e a tentativa de retirar Flávio Bolsonaro da eleição para abrir espaço a um candidato da chamada terceira via.

Imperialismo tentou transformar Ucrânia em novo Vietnã

Ao comentar a viagem de Zelensqui aos Estados Unidos e a ausência de novas promessas de armamentos, Pimenta disse que o conflito na Ucrânia nasceu da tentativa dos Estados Unidos e dos países europeus de provocar uma crise econômica e social na Rússia.

O objetivo inicial seria cercar o território russo. Depois da entrada das forças de Moscou no leste ucraniano, a política passou a ser a transformação da guerra em um conflito prolongado, capaz de consumir os recursos econômicos e militares do país.

“Os europeus e os Estados Unidos procuraram transformar a Ucrânia em um novo Afeganistão, em um novo Vietnã para a Rússia, numa tentativa de levar a economia russa a uma crise. Os russos conhecem a história do Vietnã e do Afeganistão e sabem que, se você administrar de maneira equivocada esse problema, terá uma crise social no próprio país. Eles trataram de conduzir a situação da maneira menos problemática possível e estão perto de obter um resultado. A imprensa russa considera que as Forças Armadas ucranianas estão em franca decomposição, avaliação que considero correta. Não sei se isso levará a um colapso da Ucrânia, porque o empenho do imperialismo é muito grande. Eles não querem deixar a Ucrânia cair.”

Os países imperialistas, explicou, não podem admitir uma vitória russa porque isso abalaria toda a ordem política construída após o fim da União Soviética. O fortalecimento de Moscou também poderia estimular os países do Leste Europeu a reduzirem sua dependência das principais potências da União Europeia.

“O imperialismo não pode deixar a Rússia se dar bem na Ucrânia por dois motivos. Primeiro, porque seria o completo colapso da ordem imperialista mundial. Estava proibido invadir a Ucrânia, e os russos desafiaram essa proibição. Segundo, porque o fortalecimento da Rússia vai levar a uma crise da Europa com os países do Leste Europeu. Existe toda uma tendência de esses países se tornarem independentes das potências europeias, em particular da Alemanha, que domina a União Europeia. Eles veem isso como um grande problema político e econômico.”

Pimenta também mencionou a participação da Ucrânia em ataques contra interesses iranianos no Mar Cáspio. Segundo ele, ao ampliar o conflito, o imperialismo acumula novos problemas sem conseguir solucionar os anteriores.

“Todo esse risco que eles vão criando é uma rede de problemas que terão de enfrentar. Você tenta resolver um problema e aumenta os problemas. É assim que vejo a situação”, disse.

Briga pelo controle do dinheiro do futebol

A disputa entre FIFA e UEFA também foi tema da entrevista. A entidade europeia rejeitou medidas econômicas propostas pela federação mundial que atingiriam diretamente os campeonatos nacionais e os interesses dos grandes clubes do continente.

Para Pimenta, a divergência econômica agravou uma crise que já vinha da Copa do Mundo. Ele voltou a denunciar a atuação da arbitragem em benefício da seleção argentina e o esquema comercial construído em torno de Lionel Messi.

“A Copa foi escandalosa, não há dúvida nenhuma. Ficaram patentes o desejo da FIFA e a atuação da arbitragem em favor da Argentina. O problema não é exatamente a Argentina, que é café pequeno, em certo sentido, no que diz respeito ao futebol. O problema é que há todo um esquema comercial montado em torno da figura de Lionel Messi. Não foi um cartão vermelho: foram dezenas de acontecimentos irregulares e muito flagrantes. Isso detonou uma crise. O problema econômico entre a FIFA e a UEFA foi a última gota. Os europeus ficaram obviamente perturbados com o nível de manipulação da Copa em favor da Argentina. Estamos vendo uma briga entre Europa e Estados Unidos pelo controle do dinheiro do futebol.”

Apesar das ameaças de boicote, ele considerou provável um acordo entre as entidades. A FIFA não teria condições de organizar suas principais competições à revelia da confederação que reúne os clubes e campeonatos mais ricos do planeta.

A concentração econômica do futebol europeu, acrescentou, produz efeitos diretos sobre os clubes brasileiros. O dinheiro dos grandes clubes permite que eles retirem do País os melhores jogadores e, ao mesmo tempo, conquistem uma parcela crescente do público nacional por meio da propaganda e das transmissões televisivas.

“O futebol europeu é o mais rico do mundo de longe. Esse é um dos grandes problemas do Brasil. O futebol brasileiro sofre uma pressão enorme do dinheiro europeu. Os jogadores brasileiros vão para o exterior e existe uma propaganda gigantesca em favor dos times europeus. Já conseguiram formar no Brasil um público que dá mais importância ao futebol europeu do que ao futebol brasileiro. As copas europeias são transmitidas no Brasil, mas a mesma coisa não acontece lá em relação ao nosso futebol. Eles ganham muito dinheiro e mantêm os países que não são imperialistas numa pobreza futebolística, com os clubes brasileiros falidos ou semifalidos.”

Questionado sobre a rivalidade entre Brasil e Argentina, Pimenta rejeitou a ideia de que a tivesse atribuído exclusivamente ao imperialismo. Disse que ela também é alimentada pelo comportamento de setores da torcida e da imprensa argentina, inclusive por ataques racistas contra os brasileiros.

O presidente do PCO ressaltou ainda que o Brasil continua sendo a principal potência futebolística da América Latina, tanto pelas cinco Copas do Mundo conquistadas pela Seleção quanto pelo predomínio recente dos clubes brasileiros na Libertadores.

Golpes e fraudes na América Latina

Ao tratar da situação política latino-americana, Pimenta comentou a decretação de um estado de sítio no Peru logo no discurso de posse de Keiko Fujimori. Para ele, o episódio demonstra que uma eleição também pode servir como instrumento de um golpe de Estado.

O caso peruano foi relacionado às denúncias de fraude na Colômbia, ao impedimento da candidatura de Evo Morales na Bolívia e à exclusão dos principais candidatos populares nas eleições brasileiras.

“Os processos eleitorais da América Latina estão todos sob suspeita, inclusive o do Brasil. Quando Bolsonaro ganhou, Lula foi impedido de concorrer. Agora Bolsonaro está sendo impedido de concorrer. Isso é manipulação eleitoral, não há dúvida nenhuma. Mostra que o chamado regime democrático, no conjunto da América Latina, está muito debilitado, muito em crise. Está, na realidade, esgotado. O processo do Peru é ilustrativo de uma situação generalizada de manipulações e fraudes.”

A crise internacional, prosseguiu, obriga o imperialismo a recorrer a métodos cada vez mais repressivos para controlar os governos latino-americanos e aplicar uma política de ataques às condições de vida da população.

“O imperialismo precisa controlar o regime político. Estamos atravessando uma situação de grande crise. É preciso arrancar o couro da população, e os métodos homeopáticos de ataque às condições de vida já não estão dando conta da situação. Então, é preciso uma política dura. Keiko Fujimori está agindo preventivamente porque sabe que haverá mobilização contra a política dela. Seria um engano pensar que, como Lula está na frente nas pesquisas e pode ganhar a eleição, isso evitará que o Brasil siga o destino geral da América Latina.”

Pimenta lembrou que a interferência norte-americana na região não começou com o atual governo dos Estados Unidos. Os golpes em Honduras e no Brasil, destacou, foram promovidos durante governos do Partido Democrata. A diferença é que figuras como Marco Rubio atuam de maneira mais escancarada.

“O imperialismo, dado o nível da crise que enfrenta internacionalmente, não consegue manter a normalidade. Não há como. A situação exige medidas extraordinárias para controlar o regime político.”

Conciliação desarma a reação popular

A população tem condições de enfrentar os governos impostos pelo imperialismo, afirmou Pimenta. O principal obstáculo, contudo, está na política das organizações que dirigem essas mobilizações.

Como exemplo, citou o encerramento da greve geral boliviana depois que a Central Operária Boliviana (COB) e outras organizações se retiraram do movimento. Também responsabilizou a política de conciliação do governo de Gabriel Boric pelo crescimento da extrema direita no Chile.

“O problema são as organizações que dirigem o movimento. Elas não têm disposição de enfrentar efetivamente o imperialismo. A greve boliviana foi suspensa porque uma parte das direções populares se retirou, não foi até o fim e não intensificou a luta. O movimento popular se defronta com uma política muito conciliadora dos chamados esquerdistas. A vitória da extrema direita no Chile, por exemplo, foi resultado do governo Boric, que foi igual aos governos anteriores. A esquerda está dando uma contribuição significativa para a vitória da direita.”

Uma oposição limitada ao terreno eleitoral, acrescentou, não é capaz de derrotar a ofensiva imperialista, uma vez que as próprias eleições podem ser manipuladas.

“As eleições são uma ferramenta frágil para se opor à ofensiva do imperialismo, porque são facilmente manipuladas. Se você não tem como parte da sua política a mobilização e a organização do povo contra o imperialismo, dificilmente terá algum resultado.”

Corrupção usada para fabricar terceira via

Na parte dedicada à política brasileira, Pimenta foi questionado sobre as denúncias relacionadas ao Banco Master e a políticos do PT. Embora tenha reconhecido que as acusações podem ter fundamento, advertiu que a campanha contra a corrupção é usada pela burguesia para atingir os dois principais polos eleitorais do País.

“Embora o escândalo do Master seja verdadeiro e muitas dessas denúncias aparentemente tenham fundamento, o caso de Jaques Wagner é muito grave para o PT. Nós temos que entender que a burguesia e o imperialismo usam a denúncia da corrupção para manipular a situação política brasileira. Uma hora é Flávio Bolsonaro, outra hora é Lula. Com isso, procuram enfraquecer os dois polos mais importantes da política brasileira.”

A finalidade imediata seria afastar Flávio Bolsonaro e impulsionar o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como candidato da terceira via. Caiado, porém, permanece um político regional, pouco conhecido fora de seu estado e sem votação nacional expressiva.

Pimenta recordou ainda a atuação do governador na União Democrática Ruralista (UDR), organização criada durante o crescimento da luta pela terra no fim da ditadura militar.

“No final da ditadura, antes da primeira eleição presidencial direta, havia muita luta social no Brasil, e Caiado criou a União Democrática Ruralista. Ele deixou absolutamente claro que estavam comprando armas e que matariam qualquer um que tentasse tomar terras. Era uma organização de características claramente fascistas. Agora, Caiado é apresentado como uma pessoa razoável diante do bolsonarismo. O próprio Bolsonaro nunca fez nada como isso.”

A trajetória de Caiado, afirmou, demonstra a falsidade da tese segundo a qual qualquer candidato da terceira via seria uma alternativa mais moderada ao bolsonarismo. O mesmo valeria para o PSDB, cuja reconstrução foi recentemente defendida por Fernando Haddad.

“É absurda a ideia de que substituir o bolsonarismo por uma força política da chamada terceira via seria melhor. Não é verdade. Esse pessoal, no melhor dos casos, é tão problemático quanto o bolsonarismo.”

Pimenta considerou pouco provável um golpe aberto, com a derrubada formal do governo. Advertiu, porém, que a burguesia ainda pode manipular a eleição, seja tentando substituir Flávio Bolsonaro, seja apoiando Lula em troca de um governo mais subordinado aos seus interesses.

“Não está claro o que eles pretendem fazer com a eleição. Não sabemos se vão apoiar Flávio Bolsonaro — neste momento, não estão apoiando e gostariam de substituí-lo — ou se apoiarão Lula, o que também é uma possibilidade. Caso a burguesia apoie Lula, isso significará que o governo será muito ruim. Um golpe declarado, no sentido de uma derrubada, acho difícil. Mas uma manipulação da eleição é possível.”

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