A ampliação da guerra no Oriente Próximo está criando uma situação cada vez mais difícil para os Estados Unidos e seus aliados. A avaliação foi feita por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, durante o programa Análise Internacional, transmitido nesta quinta-feira (30) pelo canal do Diário Causa Operária no YouTube.
Pimenta comentou os ataques realizados pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita contra o Iraque, as operações iranianas contra bases norte-americanas na Jordânia e a participação crescente das monarquias árabes na guerra. Segundo ele, o conflito já ultrapassou o enfrentamento direto entre Washington, “Israel” e o Irã e começa a atingir toda a região.
O presidente do PCO também analisou a crise política na América Latina, marcada pela perseguição contra Evo Morales na Bolívia, pelas mobilizações populares contra os governos de direita no Peru, na Colômbia e no Chile e pelo agravamento da pressão imperialista sobre Cuba e Venezuela.
Guerra se espalha pelo Oriente Próximo
Os ataques norte-americanos e sauditas contra posições militares no Iraque abriram uma nova frente na guerra. A Arábia Saudita afirmou que a operação teria sido uma resposta a um ataque lançado do território iraquiano. O governo do Iraque e as organizações da Resistência negaram a acusação.
Pimenta destacou que os bombardeios ocorrem justamente quando o governo iraquiano procura convencer as organizações armadas do país a entregar suas armas e submeter toda a defesa nacional às forças oficiais.
“O governo do Iraque tem procurado unificar as Forças Armadas sob seu controle e chamou as organizações da Resistência a se desarmarem, dizendo que assumiria as tarefas de defesa nacional. Agora, com esse ataque, essas organizações estão cobrando o governo: o que ele vai fazer? Aparentemente, não vai fazer nada. Isso significa que o ataque saudita e norte-americano está desestabilizando também o Iraque e promovendo uma radicalização política dentro do país.”
O programa também apresentou informações sobre uma operação iraniana contra a base aérea de Azraq, na Jordânia. Segundo o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, o ataque destruiu três caças F-35 norte-americanos e danificou outras aeronaves.
A operação teria sido realizada em resposta à retomada dos bombardeios norte-americanos contra o Irã. Um desses ataques atingiu uma área residencial da ilha de Qeshm e matou um casal e seus dois filhos.
Para Pimenta, a Jordânia já participava da guerra ao permitir que os Estados Unidos utilizassem seu território e suas instalações militares. O ataque iraniano contra a base de Azraq, porém, marcou uma nova etapa.
“A Jordânia, de maneira não oficial, já está participando dessa guerra há bastante tempo. Mas essa é a primeira vez que o Irã dá o troco no que diz respeito às bases norte-americanas. Há uma extensão muito grande da guerra. Fala-se inclusive na formação de uma missão militar para desobstruir o Estreito de Bab al-Mandeb. Não está claro se isso vai acontecer, mas o fato mostra que o conflito está adquirindo um caráter internacional.”
Além da Jordânia, países como Bahrein e Kuwait participam das operações norte-americanas. No Mar Vermelho, o Ansar Alá ampliou suas ações e bloqueou o Estreito de Bab al-Mandeb, uma das principais rotas do comércio marítimo mundial.
O bloqueio ocorre ao mesmo tempo que o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã. As duas medidas atingem diretamente o transporte de petróleo e aumentam a pressão econômica sobre os aliados dos Estados Unidos.
Segundo dados apresentados no programa, o Produto Interno Bruto da Arábia Saudita teria recuado 4,8%, a maior queda desde a crise provocada pela pandemia. A redução foi atribuída principalmente à interrupção da produção e do transporte de petróleo.
“É uma situação insustentável”, afirmou Pimenta. “Eles estão procurando uma saída. A situação é cada vez mais dramática, os preços do petróleo sobem e o conflito pode escapar do controle a qualquer momento.”
Trump não consegue encerrar a guerra
Pimenta também comentou informações da imprensa norte-americana segundo as quais Donald Trump estaria irritado com a demora nas negociações para encerrar o conflito.
Durante a campanha eleitoral, Trump procurou se apresentar como adversário das guerras prolongadas conduzidas pelos governos anteriores. Depois de assumir a Casa Branca, porém, passou a executar a política dos setores mais belicistas do regime norte-americano.
“Trump não consegue manter a política que defendeu durante a campanha eleitoral. Está fazendo a política dos neoconservadores, dos falcões da guerra. O fato é que a crise é muito grande. Ele se enfiou numa enrascada, sua popularidade está abaixo de 30% e as eleições estão se aproximando. Enquanto isso, os iranianos continuam atacando. Os efeitos das operações contra as bases norte-americanas estão ficando muito difíceis de esconder. A situação se transformou num pesadelo para o imperialismo.”
Questionado sobre se o Irã deveria abandonar uma posição defensiva e passar ao ataque, o dirigente afirmou que as operações contra as instalações norte-americanas já constituem uma política ativa de retaliação.
“O Irã está atacando. Atacou bases norte-americanas, destruiu equipamentos militares e provocou baixas. Portanto, não é simplesmente uma defesa. É uma política de retaliação. Agora, se por atacar entendermos que o Irã deveria invadir e ocupar outro país, isso não seria correto. A política de retaliação adotada pelo Irã me parece correta.”
Imperialismo amplia a censura
A censura contra os meios de comunicação iranianos também foi discutida. A agência Fars teve seu certificado SSL bloqueado, o que dificulta ou impede o acesso de grande parte dos usuários ao seu conteúdo.
O certificado SSL é utilizado para autenticar um endereço eletrônico e proteger a comunicação entre o navegador e o sítio acessado. Sem essa certificação, os navegadores passam a exibir alertas de segurança ou bloqueiam completamente a página.
A medida se soma ao confisco do domínio internacional da emissora Press TV pelo governo dos Estados Unidos. Perfis em inglês do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica também foram derrubados pelas plataformas controladas pelos monopólios norte-americanos.
Segundo Pimenta, a repressão está ligada à perda de controle do imperialismo sobre a opinião pública e à circulação de informações sobre os danos provocados pelos ataques iranianos.
“De modo geral, o imperialismo está perdendo a luta pela opinião pública. Cresce a repulsa à política dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, os iranianos denunciaram que estavam recebendo informações sigilosas sobre instalações militares norte-americanas enviadas por pessoas dos próprios países envolvidos na guerra. Esse teria sido um dos motivos para a supressão dos sítios e dos perfis iranianos.”
Nova cara, mesma política no Reino Unido
A crise do imperialismo também apareceu na análise da situação britânica. Após a queda do governo de Keir Starmer, o novo primeiro-ministro manteve as principais medidas do governo anterior.
Jeremy Corbyn denunciou um investimento de US$11,2 bilhões na nova etapa do programa britânico de submarinos nucleares. O anúncio foi feito no período do aniversário do bombardeio atômico norte-americano contra Hiroxima.
Ao mesmo tempo, a polícia prendeu 77 pessoas que se manifestavam em defesa do grupo Ação Palestina. A organização havia sido classificada como “terrorista” pelo governo de Starmer.
“O governo Starmer estava liquidado e decidiram colocar uma cara nova para manter a mesma política. É uma tentativa de distrair o eleitor britânico. O Partido Trabalhista mantém uma política sionista, altamente repressiva e contrária aos interesses dos trabalhadores. O país está caindo aos pedaços, mas o governo vai investir uma fortuna em armas para preparar uma guerra contra países que procuram manter alguma independência diante do imperialismo, como a Rússia, a China e o Irã.”
Pimenta considerou que a crise abre espaço para o crescimento da esquerda no Reino Unido. Advertiu, no entanto, que o novo partido organizado por antigos integrantes do Partido Trabalhista já enfrenta disputas internas e a influência da política identitária.
Terrorismo vira arma contra o povo boliviano
Na América Latina, o principal assunto foi a nova ordem de prisão emitida contra o ex-presidente boliviano Evo Morales. O Ministério Público da Bolívia acusa Morales de terrorismo e levante armado por seu suposto envolvimento nas mobilizações contra o governo de Rodrigo Paz.
Os protestos utilizaram bloqueios de rodovias e exigiram a saída do presidente, denunciado por sua política neoliberal. Morales afirmou que o governo procura responsabilizá-lo pelas manifestações para desviar a atenção da crise econômica e social do país.
Pimenta avaliou que a acusação não tem como alvo apenas o ex-presidente, mas prepara uma ofensiva contra todo o movimento popular.
“O governo boliviano procura caracterizar como terrorismo o movimento que se mobilizou contra ele. Mesmo que Evo Morales não tenha organizado os protestos, ele os apoiou. A acusação contra ele serve para atacar o conjunto da mobilização. Nós advertimos inúmeras vezes a esquerda para não brincar com a questão do terrorismo, porque, mais cedo ou mais tarde, essa classificação se transforma numa arma contra o movimento operário e popular.”
Segundo o dirigente, a palavra “terrorismo” funciona como uma autorização para uma repressão muito mais dura. Caso seja julgado e condenado com base nessa acusação, Morales poderá permanecer preso durante muitos anos.
Pimenta também criticou a posição do governo Lula. Apesar da antiga proximidade entre Lula e Morales, o governo brasileiro apoiou Rodrigo Paz durante as mobilizações bolivianas.
“A política do governo do PT se perdeu completamente”, afirmou. “Vamos esperar para ver, mas acredito que não haverá nenhum protesto sério contra essa medida absurda.”
Direita enfrenta resistência popular
A crise boliviana foi relacionada às manifestações contra os governos de direita no Peru, na Colômbia e no Chile.
No Peru, o governo de Keiko Fujimori enfrenta protestos desde sua posse. Na Colômbia, a população também se mobiliza contra Abelardo de la Espriella. Ambos chegaram ao poder em eleições cercadas por denúncias de fraude.
No Chile, o governo de José Antonio Kast também enfrenta manifestações populares.
“Esses governos de ultradireita são muito artificiais. É o que acontece na Bolívia, onde o governo foi colocado em xeque por uma gigantesca mobilização popular. Existe uma tendência da população a questionar a política desses governos. A grande dificuldade da burguesia está em consolidá-los. O mesmo ocorre no Chile, o que mostra uma situação difícil para o imperialismo controlar os regimes políticos da região.”
Pimenta ressaltou que esses governos empregam uma retórica de extrema direita, mas aplicam o programa tradicional do grande capital. O discurso mais agressivo serve principalmente para justificar a repressão contra trabalhadores e organizações populares.
O presidente do PCO também comentou o decreto de Javier Milei que permite impedir a entrada ou expulsar estrangeiros acusados de promover mensagens de ódio contra argentinos. Para ele, a medida poderá ser utilizada especialmente contra brasileiros, depois de Milei responsabilizar Lula pelas críticas feitas à Argentina.
Sobre a polêmica envolvendo a Guerra do Paraguai, Pimenta afirmou que negar a invasão do território brasileiro pelas forças paraguaias constitui uma falsificação histórica. Ele criticou setores da esquerda que, para atacar o Brasil, passaram a repetir as posições da direita paraguaia.
Bloqueio impede qualquer abertura em Cuba
As medidas do governo cubano que permitem a atuação privada em setores como farmácias, combustíveis e energia também foram comentadas.
Pimenta rejeitou a afirmação de que a autorização para pequenos negócios significaria automaticamente a restauração do capitalismo. Para ele, o principal problema está no bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos.
“Promover uma abertura com o país bloqueado é praticamente inviável. Permitir que um cidadão monte uma farmácia não significa, por si só, a volta do capitalismo. Cuba atravessa uma crise energética muito grave, o governo não tem recursos para investir e as empresas estrangeiras que entram no país podem ser obrigadas a sair por causa da pressão dos Estados Unidos.”
Pimenta citou o caso de grupos hoteleiros estrangeiros que deixaram Cuba depois de sofrerem pressão do governo Trump. Sem esses investimentos, o Estado cubano precisa reassumir empreendimentos para os quais não dispõe de recursos suficientes.
“Cuba é um país sitiado”, resumiu.
O impasse do nacionalismo venezuelano
No fim do programa, Pimenta analisou a Declaração de Maracay, assinada por dirigentes e antigos integrantes do chavismo.
O documento denuncia o controle norte-americano sobre os recursos obtidos com a venda do petróleo venezuelano e exige a recuperação da soberania econômica do país. Os signatários também defendem um diálogo político sem ingerência estrangeira.
Pimenta reconheceu a tutela exercida pelos Estados Unidos, mas afirmou que os críticos precisam apresentar uma saída concreta para o bloqueio e o estrangulamento econômico da Venezuela.
Segundo ele, a aceitação das condições estabelecidas pelo governo Trump resulta da situação desesperadora criada pelas sanções. A crise revela os limites dos governos nacionalistas que procuram enfrentar o imperialismo sem romper com a propriedade capitalista.
“Em última instância, ou esses regimes caminham para a liquidação do nacionalismo, ou caminham para a liquidação do capitalismo. O meio-termo é insustentável. Já afirmamos várias vezes que seria necessário expropriar o capital e minar a base social e política do imperialismo dentro do país.”
Pimenta comparou a situação venezuelana com a do Irã, onde uma parte importante da economia permanece sob controle estatal. Para ele, essa estrutura ajuda o país a resistir aos ataques, mas não elimina as contradições provocadas pela permanência do capital privado.
“Vivemos numa época em que ou se avança para o socialismo ou o país acaba transformado em uma colônia do imperialismo”, afirmou.





