Polêmica

Quem mata mais, ondas de calor ou os bancos?

Esquerda cai na propaganda do imperialismo e esquece que o verdadeiro problema é a pobreza

Apocalipse climático

A manipulação das questões climáticas pelo imperialismo penetrou especialmente na esquerda pequeno-burguesa. Manchetes como Ondas de calor mataram 120 mil brasileiros em 20 anos, mostram Fiocruz e UFBA aparecem em artigos como o publicado no sítio Revista Movimento, ligado ao MES-PSOL, na quarta-feira (23), e servem para espalhar medo entre as pessoas.

Ao ler o texto, fica claro que as causas das mortes estão ligadas a outros fatores, como a pobreza e a falta de atendimento médico adequado. Nesse sentido, o próprio artigo é obrigado a admitir que os “principais afetados foram idosos, mulheres, crianças e pessoas com menos escolaridade, o que prova a correlação com fatores sociais”.

O texto foi retirado da ClimaInfo, uma ONG que recebe recursos por meio de doações e fundos de “filantropia”, como a Oak Foundation, a Hewlett Foundation e a Sequoia. A Hewlett Foundation é ligada à HP, empresa conhecida por fornecer e desenvolver o Basel System, sistema biométrico de identificação usado em postos de controle militares que controlam a circulação de palestinos na Cisjordânia.

Os dados

Segundo informa o artigo, “feito pela primeira vez em escala nacional, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade Federal da Bahia (UFBA) analisou dados sobre ondas de calor e internações e mortes no SUS entre 2000 e 2019. E constatou que as altas temperaturas mataram 120 mil brasileiros nesse período”.

A informação é vaga. Mesmo considerando que as internações tenham sido motivadas pelo calor, é preciso saber se o atendimento foi adequado. Como se sabe, o teto de gastos, instituído após o golpe contra Dilma Rousseff, retirou recursos dos investimentos sociais e agravou as condições do sistema público de saúde. Nesse sentido, os bancos têm mais influência sobre as mortes do que o calor.

Adiante, o texto afirma que “foram revisados dados de mortalidade por doenças do aparelho circulatório e cardiovascular ocorridas no SUS em 5.566 municípios. A partir deles, a pesquisa verificou que os principais afetados foram idosos, mulheres, crianças e pessoas com menos escolaridade — o que indica a importância de fatores sociais no impacto do calor, destaca o Estadão”.

O trecho mostra que o artigo força a atribuição das mortes às chamadas ondas de calor. Se a baixa escolaridade aparece como fator relevante, mais uma vez é preciso apontar para os bancos, que ficam com grande parte do orçamento público e impedem que o País tenha melhores condições de educação, saúde e moradia.

O absurdo aparece no trecho seguinte, segundo o qual “os efeitos das altas temperaturas nem sempre aparecem de imediato. Em muitos casos, o calor agrava quadros de doenças pré-existentes, informam g1 e CNN Brasil”.

Para evitar que a manipulação fique evidente, o texto apresenta uma justificativa: “o estresse térmico pode sobrecarregar funções cardiorrespiratórias, contribuindo para inflamações e agravando doenças, além de afetar o trato urinário por meio da desidratação, da hipovolemia (redução do volume total de sangue e líquidos no corpo) e da disfunção renal”.

É preciso, em primeiro lugar, desconfiar de informações da Globo e da CNN Brasil. Mesmo assim, existem inúmeros fatores que sobrecarregam funções cardiorrespiratórias, provocam inflamações e agravam doenças.

O artigo diz ainda que “em crianças, o efeito mais comum em todas as regiões do país foi a ocorrência de diarreias. Já a população idosa apresentou alta sensibilidade a problemas respiratórios, renais e metabólicos (diabetes)”.

Diarreia no Brasil pode ter inúmeras causas. O próprio exemplo mostra a fragilidade da tentativa de atribuir tudo ao calor. Em um país pobre, com saneamento insuficiente, atendimento precário e milhões de pessoas vivendo em más condições, apresentar o calor como causa principal é uma distorção.

Causa espanto o trecho segundo o qual “uma maior taxa de mortalidade por ondas de calor também é associada a pessoas com menor escolaridade. A escolaridade foi empregada como um proxy da posição socioeconômica, por refletir diferenças no acesso a recursos materiais, oportunidades e condições de vida ao longo do curso de vida, explica a pesquisa”.

Por que não dizer logo que o problema é a pobreza, agravada pela baixa escolaridade? Em vez disso, o texto apresenta uma explicação que confirma que o centro do problema não é o calor, mas as condições sociais.

Uma pesquisadora citada no artigo, Beatriz Oliveira, afirma que “o grupo com menor escolaridade tem menor condição de se adaptar. Isso implica, por exemplo, a residência onde mora, ter ou não ar-condicionado, a questão de se deslocar e permanecer muito mais tempo exposto a essas condições. Também residir em locais com dificuldade de acesso à saúde”.

Manipulação

O texto serve para mostrar como a campanha climática pode manipular dados sociais e apresentá-los como se fossem problemas naturais. Pode não ser esse o caso específico do estudo, mas é conhecido o sistema de financiamento de pesquisas, ONGs e campanhas que empurra conclusões previamente alinhadas aos interesses de seus financiadores.

Segundo o artigo, “os autores da pesquisa recomendam a implementação de sistemas de monitoramento e de alerta antecipado, orientação à população e o fortalecimento da resposta do SUS frente a eventos climáticos extremos”.

A melhor medida seria o calote da dívida pública. Com isso, seria possível liberar recursos para o SUS, para a educação, para a moradia e para as demais necessidades da população trabalhadora.

Não é preciso pesquisar muito para comprovar que os bancos matam muito mais que qualquer onda de calor.

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