Nascido em 1970 na Faixa de Gaza, Izedine al-Haddad, também conhecido pelo nome de guerra “Abu Suhaib”, cresceu, como tantos outros mártires e soldados da liberdade, sob as atrocidades e o genocídio cometidos por “Israel”. Viveu uma vida de muito sofrimento e privações em um território ocupado — condições que não o impediram, mas o inspiraram a lutar pela libertação de seu povo.
Sua juventude foi marcada pela eclosão da Primeira Intifada em 1987, momento histórico que coincidiu com a fundação do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). Ao ingressar no movimento logo em seus primeiros anos, al-Haddad rapidamente se envolveu com a segurança interna e a contrainteligência. Sua ascensão de agente raso a comandante foi marcada por uma disciplina militar rigorosa que o levaria, décadas depois, a ocupar o topo do Estado-Maior das Brigadas Izedine al-Din al-Qassam.
A trajetória militar de al-Haddad e o seu fim trágico estão intrinsecamente ligados à realidade cruel e mortífera da Faixa de Gaza. Nas últimas décadas, e com uma intensidade avassaladora a partir do final de 2023, o território foi submetido a bombardeios sistemáticos e a um cerco militar que dizimou praticamente toda a região, aniquilando a infraestrutura civil, hospitais, escolas e rotas de ajuda. Nos últimos três anos, os sionistas reduziram Gaza a pó. A magnitude da destruição e o número desproporcional de vítimas civis — majoritariamente mulheres e crianças — deixaram claro para o mundo inteiro que as ações militares de “Israel” têm como único objetivo o genocídio: o extermínio por completo do povo palestino. Foi no epicentro desse cenário catastrófico que al-Haddad se consolidou como um dos principais arquitetos da resistência armada no terreno.
O Fantasma de Gaza
Antes de ascender ao Estado-Maior de todas as Brigadas Al-Qassam, ele foi por muitos anos o comandante da Brigada da Cidade de Gaza. O braço armado do Hamas é dividido territorialmente (Norte, Cidade de Gaza, Centro, Cã Iúnis e Rafá), e a Brigada da Cidade de Gaza é considerada a maior e mais bem equipada de todas, o que demonstra o alto nível de confiança que o alto comando depositava em sua liderança.
Após a guerra de 2014, quando grande parte da infraestrutura do Hamas foi destruída, al-Haddad foi creditado pela própria inteligência israelense como o principal organizador da rápida reconstrução dos batalhões locais, da reestruturação das fábricas de foguetes e da escavação de novos túneis.
Conhecido tanto nas fileiras palestinas quanto nos corredores da inteligência militar sionista como o “Fantasma da Faixa de Gaza”, al-Haddad construiu uma reputação notável e, assim como seus irmãos de trincheira, trilhou uma trajetória digna de um épico. Ao contrário de líderes políticos ou porta-vozes do Hamas, que ocasionalmente apareciam como representantes perante a imprensa, ele operava no mais estrito anonimato. Não possuía presença pública, evitava rastros digitais e comunicava-se por vias que despistavam a alta tecnologia de vigilância do imperialismo. Essa eficiência metodológica frustrou repetidamente as Forças de Ocupação de “Israel” (IOC, na sigla em inglês) e o Shin Bet (serviço de inteligência interno), que passaram anos tentando mapear seu paradeiro sem sucesso. Mesmo com todo o aparato de ponta do imperialismo, nunca conseguiram pôr as mãos no Fantasma de Gaza.
Durante a guerra iniciada em outubro de 2023, as IOF lançaram milhares de panfletos sobre Gaza com fotos dele, oferecendo recompensas em dinheiro por informações. Em dezembro daquele ano, os panfletos ofereciam US$ 400.000 por Iahiá Sinuar e cerca de US$ 300.000 por al-Haddad. Posteriormente, com a morte de outros líderes e sua ascensão na hierarquia, essa recompensa foi dobrada e chegou a valer US$ 750.000.
Ao longo de sua trajetória, al-Haddad sobreviveu a pelo menos seis tentativas de assassinato. Enquanto o céu de Gaza era dominado por veículos aéreos não tripulados (VANTs) letais prontos para atacar ao menor sinal, a sua capacidade de comandar as tropas de Izedine al-Qassam e coordenar a logística a partir das sombras tornou-o o alvo prioritário de “Israel” e, ao mesmo tempo, o motor prático da resistência no subsolo.
A Unidade 8200 de “Israel” é uma das mais avançadas do mundo em inteligência de sinais (rastreamento de celulares, rádio e internet). Ciente disso, al-Haddad não usava telefones, computadores conectados à rede ou rádios de comunicação. Suas ordens eram dadas pessoalmente ou através de bilhetes de papel levados por uma rede de mensageiros de extrema confiança. Ele vivia predominantemente no vasto e complexo sistema de túneis subterrâneos de Gaza — muitos a dezenas de metros de profundidade —, que eram imunes à vigilância aérea por satélites e drones, além de resistentes a diversos tipos de bombas antibunker.
Quando precisava subir à superfície, nunca dormia no mesmo lugar duas noites seguidas. Utilizava a infraestrutura civil e bairros densamente povoados para se camuflar, frequentemente usando roupas civis comuns para não ser identificado pelos drones que varriam as ruas com reconhecimento facial. Diferentemente de líderes políticos que andam com comitivas, al-Haddad mantinha seu círculo de segurança incrivelmente pequeno. Apenas um punhado de pessoas sabia sua localização exata a qualquer momento, minimizando o risco de informantes e espiões cooptados pelo Shin Bet. A principal foto de al-Haddad que circula nas agências de notícias foi extraída de um vídeo antigo e raro onde ele aparecia ameaçando “Israel”; ainda assim, as imagens utilizadas na imprensa eram quase sempre defasadas ou simuladas, reforçando o apelido de “Fantasma”.
Como um dos membros mais antigos das Brigadas Al-Qassam, ele desempenhou um papel direto no planejamento da “Operação Dilúvio de Al-Aqsa”, em 7 de outubro de 2023. Com o desenrolar da guerra e a escalada da campanha de extermínio conduzida por “Israel”, al-Haddad assumiu uma das tarefas mais sensíveis do grupo: a logística e a gestão dos prisioneiros “israelenses”. Por ter estudado o inimigo de perto, ele aprendeu o hebraico — língua que dominava perfeitamente. Relatos apontam que ele se comunicava diretamente com os prisioneiros para organizar as tratativas políticas que visavam à troca por milhares de reféns palestinos.
À medida que a máquina de guerra de “Israel” assassinava sucessivamente líderes históricos do Hamas, como Muhamad Deif e Iahiá Sinuar, a autoridade de al-Haddad tornou-se incontestável. Em meados de 2025, o “Fantasma” emergiu definitivamente como o Chefe do Estado-Maior das Brigadas Al-Qassam, assumindo o comando absoluto da resistência armada no momento mais crítico e devastador da história de Gaza.
No dia 15 de maio de 2026, desrespeitando as tratativas do cessar-fogo recém-discutido no Egito, forças sionistas lançaram um ataque aéreo avassalador contra um prédio residencial no bairro de Al-Rimal, na Cidade de Gaza. O bombardeio não apenas tirou a vida do comandante, mas demonstrou mais uma vez a crueldade dos sionistas: os mísseis martirizaram sua esposa, sua filha de 19 anos e um bebê, deixando ainda dezenas de civis mortos e feridos sob os escombros. Para al-Haddad, foi o capítulo final de um sacrifício familiar que já havia lhe custado a vida de seus filhos e de um neto em fases anteriores da guerra. Ao confirmar o seu martírio, as Brigadas Al-Qassam declararam que o assassinato covarde não apagaria a resiliência do movimento, destacando que a fila de novos quadros na resistência é interminável. As multidões que tomaram as ruas esburacadas de Gaza durante o seu cortejo fúnebre provaram que a morte do “Fantasma” não simbolizava o fim da luta, mas a consolidação de uma resistência inabalável para uma população que se recusa a ser apagada da história.





