O governo Lula passou semanas reconstruindo sua relação com Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado, na expectativa de conseguir votar antes das eleições o fim da escala 6 por 1.
Não conseguiu.
Alcolumbre deixou a votação para depois do primeiro turno e, mesmo assim, a orientação do Planalto é evitar qualquer confronto com ele. O governo ainda espera convencer o presidente do Senado a colocar a proposta em plenário antes de um eventual segundo turno.
A situação resume a política seguida pelo PT diante da direita. Lula faz concessões, recompõe alianças e evita ataques aos dirigentes do Centrão esperando receber apoio em troca. Quando esse apoio não vem, a resposta é fazer novas concessões para não romper a relação.
O presidente do Senado frustrou uma das poucas reivindicações da campanha petista diretamente ligadas aos interesses dos trabalhadores. O governo, em vez de responsabilizá-lo publicamente, preocupa-se em preservá-lo.
Quantos chifres serão necessários para o PT perceber que esse relacionamento não funciona?
Faz as pazes e não recebe nada
A relação entre Lula e Alcolumbre havia se deteriorado depois da rejeição, pelo Senado, de Jorge Messias, indicado pelo presidente para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Alcolumbre passou mais de três meses sem ser recebido por Lula. Com a aproximação das eleições, porém, o Planalto tratou de encerrar a briga.
Houve reuniões, almoços e fotografias de reconciliação. O governo precisava do comando do Congresso para tentar aprovar medidas que pudessem ser apresentadas durante a campanha.
O fim da escala 6 por 1 era a principal delas.
Depois de anos de alianças com a direita e de aplicação de uma política voltada para os interesses dos grandes capitalistas, o PT precisava apresentar alguma medida concreta aos trabalhadores. A redução da jornada possui enorme apoio popular e poderia cumprir esse papel.
Lula procurou Alcolumbre.
Recompôs a relação.
E nem sequer conseguiu arrancar dele o compromisso de colocar a proposta em votação.
A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), admitiu isso claramente:
“Ele nunca disse que colocaria para votar, nós é que estávamos na luta”.
Ou seja, o governo depositou suas esperanças numa negociação em que uma das partes nunca prometeu entregar aquilo que a outra esperava receber.
Governo protege quem segura a proposta
Depois do adiamento, seria natural que o PT apontasse quem está impedindo a votação.
Poderia denunciar os senadores contrários à redução da jornada, organizar uma campanha nacional e jogar sobre eles o peso político de defender a escala 6 por 1 às vésperas das eleições.
Preferiu o caminho oposto.
A orientação é não atacar Alcolumbre.
Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, chegou a assumir parte da responsabilidade pelo adiamento, alegando que a base governista teria avaliado não haver segurança para colocar a proposta em plenário.
É um esforço evidente para evitar qualquer ruptura com o presidente do Senado.
A justificativa é ainda menos convincente quando se observa que a proposta passou pela Comissão de Constituição e Justiça com apenas quatro votos contrários. Nenhum dos quatro senadores que votaram contra disputa as eleições deste ano.
Existe uma razão simples para isso: votar abertamente contra a redução da jornada tem um custo político elevado.
O governo poderia aproveitar essa situação.
Prefere não fazê-lo porque sua prioridade é preservar a aliança com a direita.
Uma concessão atrás da outra
A reaproximação com Alcolumbre ocorreu dentro de uma negociação muito mais ampla com o Congresso.
Nesse período, avançaram propostas de interesse de setores empresariais e do próprio aparelho de Estado. O Senado aprovou, por exemplo, a legislação sobre minerais críticos, que prevê bilhões de reais em incentivos ao setor.
Também avançaram negociações sobre segurança pública e outras medidas tratadas como prioritárias pelo governo.
Quando chega a vez de uma reivindicação dos trabalhadores, aparecem as dificuldades.
Faltam votos.
Não existe ambiente.
É melhor esperar.
Precisa negociar mais.
O padrão é conhecido.
Para agradar à direita e aos grandes capitalistas, o governo flexibiliza sua posição. Quando quer aprovar alguma medida favorável à população, precisa pedir a colaboração dos mesmos setores aos quais acabou de fazer concessões.
E eles cobram mais.
A política que enfraquece o próprio PT
A direção petista apresenta essa orientação como sinal de habilidade.
A tese é que, para derrotar a extrema direita, é necessário reunir também a direita tradicional.
Para manter essa aliança, o PT abandona reivindicações, aceita políticos burgueses em sua coalizão, faz concessões econômicas e evita enfrentar o Centrão.
O resultado é exatamente o contrário do que seus dirigentes anunciam.
Cada concessão diminui o poder de pressão do partido.
A direita sabe que Lula precisa de seus votos e, principalmente, sabe que o governo não pretende mobilizar os trabalhadores contra ela.
Não existe motivo para Alcolumbre ceder.
O PT é quem precisa dele.
Essa vulnerabilidade foi criada pela própria direção petista.
Durante décadas, a força do partido veio de sua ligação com os trabalhadores, sindicatos e movimentos populares. Quanto mais substitui essa base por acordos com banqueiros, grandes empresários e políticos da direita, mais dependente fica dos últimos.
Depois, utiliza a própria fraqueza como argumento para novas concessões.
A 6 por 1 mostra o tamanho do problema
O fim da escala 6 por 1 deveria ser justamente o tipo de reivindicação utilizado para reorganizar os trabalhadores contra os patrões.
Milhões de pessoas trabalham seis dias para descansar apenas um. A proposta mexe diretamente com a vida de uma parcela importante da população, sobretudo os trabalhadores do comércio e dos serviços.
O PT, no entanto, colocou a reivindicação nas mãos de uma negociação parlamentar.
Em vez de organizar os trabalhadores para obrigar o Senado a votar (e que fosse num texto claro, e não ambíguo), procura convencer Alcolumbre.
A diferença é fundamental.
Um partido sustentado por uma grande mobilização popular poderia colocar os parlamentares contra a parede: ou aprovam a redução da jornada, ou terão de explicar aos trabalhadores durante a campanha por que defendem a manutenção da escala 6 por 1.
O governo prefere reuniões reservadas.
Quando elas fracassam, marca outras.
A derrota agora é chamada de estratégia
Depois do adiamento, setores do PT já procuram enxergar uma vantagem no fracasso.
A avaliação é que uma eventual votação próxima ao segundo turno poderia ajudar Lula numa disputa contra Flávio Bolsonaro.
É a maneira típica pela qual a direção petista transforma derrota em suposto cálculo genial.
O objetivo era votar antes do primeiro turno.
Alcolumbre impediu.
Agora se diz que talvez seja melhor votar depois.
Se a votação for novamente adiada, aparecerá outra explicação sobre como isso pode beneficiar a campanha.
O fato não muda: o governo queria aprovar uma de suas principais bandeiras eleitorais e não conseguiu.
A direção petista insiste em apostar numa aliança em que praticamente todas as concessões caminham numa única direção.
A direita recebe cargos, acordos, medidas econômicas e garantias políticas.
O PT espera reciprocidade.
Quando não recebe, oferece mais.
É uma política suicida apresentada como esperteza.
Quanto mais o partido abandona os interesses de sua antiga base social para agradar à direita, menos força possui para cobrar qualquer coisa dela.





