O Estado de S. Paulo publicou uma extensa reportagem para denunciar que as bets teriam “tirado” R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras em 2025. O cálculo, elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz) a partir de dados do Banco Central, estima a diferença entre o dinheiro enviado pelos apostadores às plataformas e aquilo que retornou na forma de prêmios.
Para demonstrar o tamanho da cifra, o jornal compara o valor com o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o seguro-desemprego, o abono salarial e até com o PIB de estados inteiros.
Falta, porém, uma comparação muito mais importante: quanto os bancos retiram todos os anos do povo brasileiro?
Em 2025, o sistema bancário brasileiro acumulou aproximadamente R$ 255 bilhões em lucro líquido. É mais de quatro vezes o montante atribuído às perdas com apostas.
Somente Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil obtiveram juntos cerca de R$ 108 bilhões no ano. O Itaú ficou próximo de R$ 47 bilhões; o Bradesco, de R$ 25 bilhões; o Santander, de R$ 16 bilhões; e o Banco do Brasil, de R$ 21 bilhões.
A diferença fundamental é que ninguém é obrigado a apostar. Milhões de trabalhadores, porém, são obrigados a recorrer aos bancos para conseguir fechar as contas.
Juros de mais de 60%
No final de 2025, a taxa média de juros das operações de crédito livre para pessoas físicas estava em torno de 60% ao ano. Nas modalidades mais caras, como o rotativo do cartão e o cheque especial, as taxas eram ainda maiores.
É desse mecanismo que sai uma parcela importante da riqueza acumulada pelos banqueiros.
O trabalhador que não consegue chegar ao fim do mês recorre ao cartão ou a um empréstimo. Quem precisa comprar um eletrodoméstico parcela. Quem necessita adquirir uma casa ou um automóvel assume um financiamento durante anos. Em cada uma dessas operações, uma parte do salário termina nos cofres dos bancos.
O próprio Estadão reconhece que o crescimento das apostas ocorreu num momento em que o endividamento das famílias já se encontrava em níveis elevadíssimos. Segundo os dados apresentados na reportagem, as dívidas junto ao Sistema Financeiro Nacional correspondiam a praticamente metade da renda acumulada pelas famílias em 12 meses.
Esse endividamento não surgiu com as bets. Ele é resultado dos baixos salários, do custo de vida e, sobretudo, das taxas de juros cobradas pelos bancos.
Enquanto milhões de brasileiros precisam se endividar para pagar despesas básicas, o sistema financeiro apresenta lucros bilionários ano após ano.
Quem fica fora da manchete
A campanha contra as apostas tem uma consequência bastante conveniente para os banqueiros: desloca toda a discussão para a maneira como o trabalhador utiliza seu dinheiro.
Se uma família está endividada, procura-se saber se apostou, se gastou demais, se usou mal o cartão ou se precisa de “educação financeira”. O banco que cobra juros de 60%, 100% ou várias centenas por cento ao ano praticamente desaparece do debate.
É uma velha receita da imprensa burguesa, que é propriedade dos… banqueiros. Diante do empobrecimento da população, aparecem especialistas aconselhando os trabalhadores a cortar pequenas despesas, controlar o orçamento doméstico e aprender a consumir melhor.
Agora, as bets cumprem o papel de bode expiatório.
Além de procurar tutelar a população, determinando como ela deve gastar seu próprio dinheiro, a campanha serve para acobertar uma exploração muito mais profunda e permanente: a realizada pelo sistema financeiro.
A verdadeira sangria
Os R$ 255 bilhões de lucro do sistema bancário não correspondem integralmente a dinheiro retirado diretamente das famílias. Os bancos também lucram com empresas, títulos públicos e outras operações. Mas o dado mostra a dimensão do setor que praticamente desaparece quando se discute o endividamento popular.
Os bancos retiram dinheiro dos trabalhadores diretamente, através dos juros e das tarifas, e indiretamente, através da dívida pública e da política de juros elevados.
Em 2025, enquanto as famílias pagavam taxas superiores a 60% ao ano no crédito livre, os bancos acumulavam lucros recordes. Ao mesmo tempo, centenas de bilhões de reais do orçamento público eram destinados ao pagamento dos juros da dívida, em benefício dos bancos, fundos e demais especuladores financeiros.
A diferença de tratamento é reveladora.
R$ 62,5 bilhões perdidos em apostas viram manchetes, gráficos, campanhas políticas, restrições à propaganda e medidas para controlar o dinheiro da população.
Os R$ 255 bilhões de lucro dos bancos são comemorados como sinal de solidez do sistema financeiro.
Quando uma casa de apostas recebe R$ 100 de um trabalhador, a imprensa diz que o dinheiro foi “tirado das famílias”. Quando um banco cobra juros sobre os mesmos R$ 100 durante meses ou anos, chama-se isso de crédito.




