Depois de um resultado eleitoral ruim, a pergunta deveria ser elementar: por que milhões de pessoas votaram assim? No artigo Metade do Brasil não dá a mínima para democracia, soberania e corrupção, publicada no Brasil 247 neste domingo (4), Paulo Henrique Arantes escolhe outro caminho. Fala em “reacionarismo intrínseco à maioria dos brasileiros” e afirma que, para metade do eleitorado, pouco importaria viver numa democracia ou numa ditadura.
É muita acusação para uma evidência muito pequena.
Flávio Bolsonaro recebeu 56,1 milhões de votos, 47,03% dos válidos, enquanto Lula obteve 53,9 milhões, 45,16%. Isso mostra como essas pessoas votaram. Não demonstra que 56 milhões de brasileiros sejam indiferentes à democracia, à soberania ou à corrupção.
Transformar o voto numa radiografia moral do eleitor é bem mais fácil do que explicar por que uma parcela tão grande da população rejeitou a alternativa apresentada pelo governo Lula.
A acusação de “reacionarismo” fica bem contraditória quando vem de quem acha normal as alianças com a direita. Tudo bem um Geraldo Alckmin como vice-presidente de Lula e permanece ao seu lado na chapa de 2026. Nada a reclama de das golpistas Simone Tebet e Marina Silva. No Rio, o diretório estadual do PT aprovou por unanimidade apoio a Eduardo Paes e o definiu como principal palanque de Lula no estado. Mas, quem é chamado de reacionário?
Para Alckmin, Tebet, Marina e Paes não existe o tal “reacionarismo intrínseco”. Agora, quando trabalhadores fazem uma escolha eleitoral diferente, surge imediatamente um diagnóstico moral sobre o caráter do povo.
Para as cúpulas políticas, alianças com antigos adversários são apresentadas como cálculo político. Para o eleitor, votar numa candidatura de direita vira prova de uma inclinação reacionária profunda. O critério muda conforme quem está sendo julgado.
Arantes também afirma que o brasileiro médio seria adepto da “Lei Gérson”, preocupado em levar vantagem. Mas que grande vantagem o brasileiro médio está levando?
O trabalhador enfrenta salário apertado, crédito caro, endividamento, aluguel, transporte e serviços públicos que pesam diariamente no orçamento. Atribuir-lhe um defeito moral coletivo não explica sua decisão e encobre a falência da política petista.
O artigo também critica a grande imprensa e afirma que a mídia empresarial estaria pouco preocupada com a preservação da democracia. E por que essa surpresa? A grande imprensa é formada por empresas ligadas à burguesia. A questão mais importante é por que setores da esquerda depositaram tanta confiança nessas mesmas instituições, como fizeram com a Globo quando esses golpistas promoveram atos contra o Congresso.
A mesma diferença de tratamento aparece no STF. Ao falar de Flávio Bolsonaro, Arantes escreve categoricamente que ele seria corrupto e afirma que nem sequer seria necessária uma condenação judicial para dizê-lo. Quando chega a Alexandre de Moraes, a certeza desaparece: o desgaste do ministro poderia ter sido “merecido ou equivocado” e somente uma investigação permitiria decidir.
Para um, a condenação judicial seria dispensável. Para o outro, aparece a cautela, uma vez que a imprensa de esquerda apoiou o monarca absolutisa Alexandre do STF
Enquanto isso, no mundo real, o povo segue rejeitando, com razão, o Supremo, enquanto a maioria da esquerda confunde sua imagem com uma corte extremamente antidemocrática e com ministros envolvidos em um escândalo gigantesco com o Banco Master
Grande parte da esquerda passou anos associando a defesa do STF e de outras instituições à própria defesa da democracia. A direita fez o movimento inverso e transformou a crítica ao Supremo numa de suas principais bandeiras e com isso atraiu o eleitorado.
Chamar o eleitor de “intrinsecamente reacionário” apenas evita perguntar por que a crítica ao STF acabou sendo apropriada principalmente pela direita. E o mesmo método aparece quando o assunto é corrupção. Arantes considera que o desempenho de Flávio Bolsonaro demonstraria que o brasileiro dá “pouca ou nenhuma importância” ao problema.
O jornalista se esquece que Lula teria enorme chance de vencer as eleições quando estava na cadeia. É preciso entender como o povo percebe as denúncias de corrupção.
O eleitor pode desconfiar das denúncias, considerá-las menos importantes que outros temas, ou mera perseguição, rejeitar a candidatura adversária ou simplesmente votar por motivos diferentes.
A conclusão do artigo sobre soberania sofre do mesmo problema. Ali se afirma existir uma “total despreocupação de metade do eleitorado com a soberania nacional”. Mais uma vez, o voto não permite concluir isso.
Para que soberania se torne uma preocupação de massas, precisa aparecer de maneira concreta: emprego, indústria, controle de recursos naturais, salário, energia, produção nacional e independência econômica. Essas reivindicações abstratas atraem apenas a pequena burguesia e, só aparecem como bandeira eleitoral porque o governo fez pouco nas áreas sociais.
Essa esquerda mais elitizada toma suas próprias prioridades como se fossem automaticamente as prioridades de toda a população. Quando o eleitor não corresponde ao esquema, é logo acusado de reacionário.
Há ainda uma ausência importante na lista de Arantes: o desempenho do próprio governo. Ainda que o autor diga que Lula realizou uma campanha “morna” e que faltou apresentar de maneira mais enfática as realizações governamentais. Mas foi morna justamente porque não tinha praticamente nada para apresentar.
O Bolsa Família só teve agora a primeira atualização dos valores pela inflação desde a retomada do atual modelo, em 2023, somente foi anunciada em 17 de setembro de 2026. O último reajusta importante foi feito por Jair Bolsonaro.
Isso aconteceu poucas semanas antes da eleição. Logo, como fazer uma campanha “quente”, se o aumento só foi feito com vistas em conseguir votos quando o governo percebeu que a coisa não andava muito bem nas pesquisas?
O mesmo raciocínio vale para salários, juros, Saúde, Educação e serviços públicos. Se uma parcela do eleitorado considera que sua situação melhorou pouco, nenhuma campanha publicitária conseguirá elimina essa percepção.
A verdade é que a esquerda pequeno-burguesa não quer reconhecer o fracasso de sua política de Frente Ampla e de apoio às instituições do Estado burguês, isso que é ser reacionário. Mas é muito mais fácil criticar o eleitor do que fazer uma correção de rumo.





