O PT chega às eleições de 2026 com apenas 1.097 candidatos, o menor número desde 1994. Em 2018, eram 1.313; em 2022, 1.119. A queda ocorre pela quarta eleição geral consecutiva e expõe o resultado de uma política que a direção petista vem aprofundando: sacrificar o próprio partido para sustentar a chamada frente ampla.
A prioridade absoluta é a eleição de Lula. Em nome desse objetivo, o PT abre mão de candidaturas aos governos estaduais, compõe com o PSB e com partidos do centrão e aceita ocupar posições secundárias nas chapas. Espera receber, em troca, o apoio dessas legendas à disputa presidencial.
A direção petista poderia fazer exatamente o contrário. Lula é o principal candidato e dispõe de uma força eleitoral muito superior à dos partidos que procuram se beneficiar de sua candidatura. Seria possível exigir que esses aliados apoiassem candidatos do PT nos estados. Em vez disso, é o PT que entrega a cabeça das chapas e coloca sua militância a serviço de políticos de outras legendas.
A estratégia consiste em abrir mão de espaço nos estados e no Congresso para concentrar tudo na Presidência.
Mesmo do ponto de vista dos interesses eleitorais do PT, é uma política de uma enorme estupidez.
Se Lula vencer, terá de governar com o Congresso que sair das urnas eletrônicas. Quanto menos deputados e senadores o PT eleger, maior será a dependência de partidos que jamais ofereceram apoio verdadeiro aos governos petistas.
Essas legendas não formam uma base sólida. Negociam cada votação, cobram cargos, ministérios, verbas e concessões e abandonam o governo quando isso atende melhor aos seus interesses. Foi assim durante os governos anteriores do PT.
A direção partidária está, portanto, reduzindo sua própria bancada para aumentar o peso daqueles que depois terão melhores condições de chantagear Lula e colocar uma coleira em seu governo.
E nem sequer existe garantia de que as concessões feitas agora serão pagas com apoio eleitoral.
O próprio PSB, apresentado frequentemente como um aliado “progressista”, disputa espaço com o PT em diferentes regiões do País. Como o DCO vem mostrando, há conflitos em Minas Gerais e em estados do Nordeste, onde interesses locais dos partidos se chocam com as candidaturas petistas.
Isso mostra o caráter fantasioso da política adotada pela direção do PT. O partido entrega posições concretas hoje esperando receber amanhã uma fidelidade que seus aliados nunca prometeram realmente.
Cada um desses partidos possui seus próprios interesses. Apoiará Lula enquanto isso for conveniente e tentará extrair o máximo possível de sua força eleitoral.
O PSB é um caso particularmente importante. A legenda sionista procura ocupar uma faixa política semelhante à que durante décadas pertenceu ao PSDB: um partido plenamente aceitável para a burguesia, capaz de posar de moderado ou progressista quando necessário e de servir como alternativa ao PT.
A direção petista, em vez de combater essa tentativa, ajuda a promovê-la.
Ao apoiar candidaturas do PSB, oferece ao partido uma base eleitoral que ele não possui por conta própria. A popularidade de Lula é utilizada para eleger governadores, senadores e deputados de uma legenda que pretende ampliar sua influência justamente sobre o terreno abandonado pelo PT.
A chamada frente ampla funciona, nesse sentido, como uma operação de salvamento da direita tradicional.
O PT ainda conserva uma ligação importante com amplas parcelas dos trabalhadores. Em vez de utilizar essa força para ampliar sua presença política, coloca-a à disposição de partidos muito mais próximos da burguesia e do grande empresariado.
O resultado aparece no número de candidaturas.
Um partido não se fortalece apenas elegendo o presidente da República. Precisa apresentar seus candidatos, tornar seus dirigentes conhecidos, disputar governos estaduais, formar bancadas e defender sua política diante do eleitorado.
Quando o PT abandona uma candidatura própria para apoiar alguém do PSB, MDB, PSD ou de outra legenda, deixa de apresentar seu nome e seu programa naquela disputa. Sua militância passa a pedir votos para políticos alheios ao partido e, muitas vezes, à própria tradição de sua base.
O partido acaba aparecendo como um apêndice dos partidos com os quais se coliga.
Isso provoca também um desgaste diante dos trabalhadores. O eleitor que se aproxima do PT por causa de Lula é chamado, em seguida, a votar em bandidos que são inimigos mortais da população, que encabeçam governos da direita e não passam de prostitutas dos grandes capitalistas.
O partido empresta seu prestígio popular a essas figuras e recebe em troca uma promessa de governabilidade.
É exatamente assim que a frente ampla funciona.
A burguesia aceita Lula desde que seu governo esteja cercado por forças capazes de limitar suas ações. Quanto menor o PT no Congresso e nos estados, maior será o peso desses partidos sobre um eventual novo governo.
A direção petista apresenta esse arranjo como realismo político. Na prática, prepara as condições para que Lula seja ainda mais dependente do centrão e da direita depois da eleição.
Há também um problema partidário de longo prazo. O PT não apenas perde espaço imediato. Ajuda a criar e fortalecer seus próprios concorrentes.
É uma política suicida. Quanto mais o PT cede para obter apoio, mais fortes ficam os partidos dos quais dependerá. Quanto mais esses partidos crescem, maior será sua capacidade de pressionar o governo e passar a perna no PT.
A redução para 1.097 candidatos é uma expressão concreta desse processo.
A direção do PT está trocando sua presença nos estados, sua bancada parlamentar e seu desenvolvimento como partido pela expectativa de garantir a reeleição de Lula. Mesmo que consiga alcançar esse objetivo, poderá chegar a 2027 com um presidente eleito e uma organização mais fraca, cercada por aliados cuja lealdade dura apenas enquanto seus interesses forem atendidos.
A frente ampla permite que partidos desgastados da direita tradicional se recuperem utilizando justamente a força popular que ainda existe em torno do PT. Enquanto essas legendas acumulam posições, o partido reduz sua presença e apresenta esse recuo como uma grande estratégia eleitoral.




