O presidente nacional do Partido da Causa Operária e candidato à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, concedeu entrevista ao canal David Ágape e falou sobre a operação da Polícia Filial contra o PCO, a situação eleitoral do Partido, a censura, as condenações pelo 8 de Janeiro e a política adotada pelo governo Lula.
Rui Costa Pimenta relacionou a ofensiva contra o Partido ao crescimento de sua influência política nos últimos anos, sobretudo pela Internet. Lembrou que o PCO se diferenciou da maior parte da esquerda ao denunciar a Operação Lava Jato, as medidas de Alexandre de Moraes e a perseguição contra organizações e militantes que defendem a resistência palestina.
“Nós somos um grupo político que atua desde o final da década de 1970. Nós tivemos um crescimento da nossa influência política e isso, obviamente, vem acompanhado de um processo de perseguição. Me parece uma coisa natural, pelas posições políticas que nós temos. Nós fomos, eu acho que com certeza, como partido, o único partido de esquerda que contestou as coisas que Alexandre de Moraes vinha fazendo. Antes disso, nós tínhamos sido muito críticos da Operação Lava Jato, da perseguição ao PT. Nós tivemos aí uma posição de destaque na defesa da Palestina, em particular da resistência palestina. Nós fomos colecionando nesse percurso inúmeros inimigos, e inimigos poderosos.”
O dirigente citou a suspensão das contas do PCO nas redes sociais durante a eleição de 2022, as dificuldades enfrentadas para receber recursos eleitorais e a inclusão do Partido no inquérito das falsas notícias. Também lembrou os processos relacionados à atuação do PCO em defesa da Palestina, movidos pelo lóbi sionista.
Sobre a investigação atual da Polícia Filial, Rui Costa Pimenta disse que as operações realizadas pelo Partido com recursos eleitorais obedecem às normas existentes e rejeitou a interpretação de que a contratação de empresas ligadas a militantes constitua, por si só, irregularidade.
“Fizeram um processo que é uma farsa, uma farsa total. Nós somos acusados de fazer uma coisa que explicitamente é permitida. O partido político pode contratar empresas de pessoas do seu próprio partido. É explícito isso aí na regulamentação do TSE, porque se fosse proibido a gente não faria. Nós não somos um bando de malucos. Se tivesse lá escrito que você não pode contratar empresa do partido, a gente faria outra coisa. Por exemplo, nós somos acusados de ter contratado o advogado do Partido para defender o Partido na eleição. Eu não consigo nem imaginar como é que isso daí constitui um motivo de suspeita.”
Como exemplo, citou um valor devolvido pelo Facebook após o PCO não utilizar integralmente uma contratação de impulsionamento eleitoral. De acordo com seu relato, a devolução foi registrada pela investigação como entrada irregular de recursos.
“No relatório da Polícia Federal aparece: o PCO recebeu financiamento ilegal do Facebook. Dá para acreditar que um partido político como o nosso está recebendo financiamento ilegal do Mark Zuckerberg? Não faz o menor sentido. Fui lá perguntar para os companheiros que sabiam o que estava acontecendo. Me falaram que foi o seguinte: a gente comprou do Facebook impulsionamento para a campanha eleitoral, que era permitido, logicamente, só que nós não usamos todo o impulsionamento. Então, no final da campanha, eles fizeram um estorno e devolveram uma parte do dinheiro para a conta do Partido. No relatório aparece como financiamento ilegal de campanha.”
Rui Costa Pimenta afirmou não possuir elementos para dizer quem estaria por trás da operação da PF, mas considerou que a ação prejudica objetivamente a campanha e a atividade cotidiana do Partido.
“Eu não saberia dizer para você exatamente o que eles estão buscando, mas que eles estão querendo atrapalhar isso aí não tem a menor dúvida. Quando nós vimos a operação, nós pensamos que isso estivesse relacionado com a eleição, quer dizer, dificultar a propaganda do Partido. Provavelmente não seria um problema de voto, porque nós não temos muito voto. Nós chegamos aparecendo na pesquisa com 1%, às vezes aparece zero, às vezes aparece 1%. Pode ter alguma incidência na eleição, pode, mas seria pequena. Eu diria mais que é uma tentativa de dificultar a vida do Partido em geral, dificultar nossa luta.”
Ao comparar o tratamento recebido pelo PCO com as suspeitas que hoje atingem Alexandre de Moraes, fez uma crítica direta à diferença de rigor aplicada pelas instituições.
“Se o critério que foi usado com o PCO fosse usado nesse escândalo que nós estamos vivendo aqui com o STF, Alexandre de Moraes devia estar na cadeia já. Porque o negócio dele é muito escandaloso. E o nosso negócio é uma suspeita gratuita.”
A entrevista também tratou do apoio dado pelo PCO a Lula nas eleições anteriores. Rui Costa Pimenta lembrou que o Partido teve candidatura própria em diferentes eleições e que retomou o apoio a Lula quando o petista estava preso, durante a campanha contra o golpe de 2016 e pela anulação das perseguições da Lava Jato.
“O nosso apoio ao Lula não é um apoio histórico. Nós apoiamos o Lula na primeira eleição, nós estávamos dentro do PT. Em 2002 nós lançamos candidato. Em 2006, eu acho que a nossa candidatura presidencial foi impugnada, mas nós não apoiamos o Lula. Não apoiamos a Dilma, nem na primeira eleição, nem na segunda, nem no primeiro, nem no segundo turno. Nós só voltamos a apoiar o Lula quando ele estava preso. Nós fizemos uma campanha contra o golpe de Estado de 2016 e nós estávamos fazendo uma campanha pela libertação do Lula, então nós achávamos que seria correto apoiar a candidatura da pessoa que estava na prisão. Nós entendemos na última eleição que a candidatura do Lula ainda expressava essa situação.”
A chegada do PT novamente ao governo, afirmou, modificou a posição do PCO. Para Rui Costa Pimenta, o Partido que havia sido alvo das arbitrariedades do Judiciário passou a apoiar medidas semelhantes quando dirigidas contra o bolsonarismo.
“Só que, à medida em que o PT chegou ao governo, o PT passou de ser um partido que era perseguido para ser um partido perseguidor dos outros. Então, nesse sentido, nós tomamos a decisão de que não é possível apoiar o Lula nessa eleição. Nós condenamos absolutamente tudo que foi feito aí. Nós não somos favoráveis à arbitrariedade judicial. Não adianta falar que isso daí é para salvar o País do fascismo, que para nós não vale nada. Isso aí é uma forma de ditadura, o tipo de arbitrariedade que nós estamos enfrentando.”
Rui Costa Pimenta ressaltou que a oposição às medidas tomadas contra os bolsonaristas não representa apoio à direita, mas uma defesa dos direitos democráticos independentemente de quem seja atingido.
“Eu não tenho nenhuma simpatia pelos bolsonaristas, não tenho nada a ver com eles, mas o que fizeram com eles é uma coisa aberrante. Eu sei que essa opinião é muito malvista no meio da esquerda, mas uma característica que eu acho que é muito positiva no PCO é o seguinte: aquilo que nós consideramos como sendo verdadeiro, nós vamos defender. Nós não fazemos questão de ser populares a todo momento, não.”
O presidente do Partido relatou ainda como ocorreu a busca da Polícia Filial em sua residência, realizada poucos dias depois do lançamento de sua candidatura. Segundo ele, os agentes chegaram às seis horas da manhã e entraram armados.
“Nós tínhamos acabado de lançar a candidatura presidencial, nós fizemos um ato público em São Paulo, isso foi no sábado, e na terça-feira, de surpresa, porque o método da Polícia Federal é um método tipo Gestapo, você é pego de surpresa. Eu, por exemplo, sou uma pessoa cuja residência é conhecida, sou uma pessoa pública, não tem motivo nenhum para me encurralar lá na minha própria casa. Eles arrebentaram o portão de casa e estavam lá a ponto de arrebentar a porta. Isso aí era seis horas da manhã em ponto. Aí abri a porta, falei: ‘o que está acontecendo?’. Me entregaram um papel de busca e apreensão. Eles entraram armados, de arma em punho. Vasculharam a casa, pegaram o meu computador, o computador da minha esposa, devolveram os computadores e confiscaram o meu celular.”
Ainda sobre a operação, contou que um dos policiais falou sobre a intenção de observar o padrão de vida dos investigados. Rui Costa Pimenta afirmou que nada de relevante foi apreendido além do telefone celular.
“O policial falou que eles querem pegar o pessoal de surpresa mesmo e que vêm também porque querem ver onde é que a pessoa mora, se a pessoa está morando numa mansão etc. Depois ele falou: ‘mas vocês aqui estão no padrão’. Óbvio. Eu moro no Jabaquara, levo uma vida de classe média, não tem nada de suntuoso na minha vida. Não sei se eles pensavam que iam encontrar uma mala cheia de dinheiro, se iam encontrar coisas caríssimas. Não encontraram absolutamente nada.”
Perguntado sobre o financiamento público dos partidos, defendeu outro modelo para assegurar condições mais iguais de participação eleitoral. Citou como possibilidades tempo equivalente de televisão, presença nos debates e estrutura pública para a produção da propaganda.
“O partido que tem uma atividade real deve conseguir dinheiro dos apoiadores. Agora, nós temos que considerar o seguinte: seria bem melhor do que o Fundo Partidário um sistema que desse aos partidos condições iguais para as eleições. Então, por exemplo, o mesmo tempo na televisão, participação no debate, que deveria ser organizada pelo poder público. Esse tipo de coisa eu acharia melhor do que o Fundo Partidário. A ideia original é sempre boa, mas na hora que você coloca em prática vira uma monstruosidade. A desigualdade é gigantesca. Nós e outros partidos menores recebemos R$3,4 milhões para fazer a campanha nacional. Ao passo que há partidos que recebem quase R$1 bilhão.”
Rui Costa Pimenta reconheceu também problemas no trabalho burocrático do PCO e nas prestações de contas, mas afirmou que as dificuldades foram agravadas pela postura da Justiça Eleitoral.
“Eu sou obrigado a reconhecer que o nosso trabalho burocrático tem falhas, não vou negar isso. Agora, nós fizemos o esforço de corrigir esses problemas e nós nos defrontamos com uma extraordinária má vontade da parte do TSE. O nosso trabalho burocrático não é muito bom, não. Custa caro também isso. Se a gente tivesse dinheiro, contratava meia dúzia de profissionais, pagava bem o pessoal e o pessoal faria nossas contas. Nós não temos condição de fazer isso.”
A liberdade de expressão ocupou uma parte extensa da conversa. O candidato defendeu a revogação das leis de censura e argumentou que a expansão dos meios de comunicação sempre acompanhou grandes avanços históricos.
“Nós somos favoráveis a fazer tábula rasa de toda a legislação de censura, toda. Nós não acreditamos que haja nenhum benefício na censura. A informação é uma das coisas mais importantes que o ser humano tem. Se a gente olhar a história do mundo, nós vamos ver que o progresso da humanidade sempre foi acompanhado de um desenvolvimento da comunicação. Hoje praticamente cada pessoa é repórter do que está acontecendo no mundo. Você tira foto, você faz um filme, você faz uma declaração. Então é uma expansão da comunicação impressionante, uma conquista enorme da humanidade. E isso daí, como sempre aconteceu no passado, vem acompanhado da tentativa de censurar. Os poderosos não conseguem conviver. Eles têm que controlar o fluxo de informação. Para você oprimir as pessoas, você precisa controlar a informação.”
Para Rui Costa Pimenta, o apoio de uma parte da esquerda à censura rompe com a tradição histórica dos movimentos democráticos, socialistas e comunistas.
“Eu acho que isso é uma coisa absurda, que uma parte significativa da esquerda apoie a censura. Não sei de onde eles tiraram isso também, porque não faz parte da tradição nem dos democratas nem dos socialistas e comunistas apoiar a censura. A tradição sempre foi a tradição oposta. As revoluções se fizeram sempre com um grande esforço de comunicação. A Revolução Francesa, a Revolução Russa. Não sei onde é que a esquerda, inclusive aquela que se diz revolucionária, foi chegar com a censura, porque isso é o oposto daquilo que deveria ser defendido.”
O 8 de Janeiro entrou na conversa quando Rui Costa Pimenta foi perguntado sobre a anistia. Ele se declarou favorável e considerou as penas aplicadas incompatíveis com os atos que presenciou pelas transmissões daquele dia.
“Eu sou a favor porque eu acho que aquelas condenações são extremamente abusivas. Aquilo lá era uma manifestação política. De direita, de direita, tudo bem. Você pode condenar o conteúdo de qualquer manifestação, mas manifestação é manifestação. Aí quebraram as portas dos prédios. Tudo bem, a lei não permite, mas isso é um ato de vandalismo. Agora, você ser condenado por associação criminosa, por levante armado, sendo que ninguém estava armado… Como é que você pode ter um levante armado onde ninguém tinha uma arma? Não faz o menor sentido. Aí foram condenados por tentativa de golpe de Estado. Como assim? Você vai dar um golpe de Estado com todo mundo desarmado?”
Ao tratar especificamente da condenação de Débora Rodrigues dos Santos, que escreveu com batom numa estátua diante do STF, classificou a pena como absolutamente desproporcional.
“Aí você vê aquela mulher do batom lá que ficou como símbolo do problema. A mulher pichou uma estátua, condenaram ela a 14 anos de prisão. Eu acho isso uma coisa inacreditavelmente absurda, ditatorial, repressiva. Não posso conceber isso.”
Também foi perguntado sobre qual posição o PCO adotaria num eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Rui Costa Pimenta afirmou que a decisão dependerá de uma conferência do Partido, mas indicou qual é a disposição predominante neste momento.
“A gente vai convocar uma conferência, vamos analisar a situação estadual, vamos analisar a eleição nacional e vamos assumir uma posição. Eu diria que, com o clima que está se criando, a tendência do Partido seria pelo voto nulo, mas eu não posso garantir que vai ser. Eu estou expressando o que os companheiros comentam. É uma indisposição grande do Partido contra a candidatura do Lula e, logicamente, nós não vamos votar no Flávio Bolsonaro, não tem sentido.”
No final da entrevista, Rui Costa Pimenta explicou sua adesão a uma carta pública contra novas medidas de censura. A liberdade de expressão, afirmou, condiciona o exercício dos demais direitos políticos.
“A liberdade de expressão é a pedra angular dos direitos políticos. Porque, se você não pode falar, o resto meio que não faz sentido. Você tem o direito de se organizar, mas vai se organizar para fazer o quê? Em geral, para expressar alguma coisa. Então é um ataque muito sério contra as liberdades políticas de todo mundo no Brasil. Nós somos censurados bastante, mas não é nosso, é contra todo mundo. Eu acho um erro da esquerda não adotar essa posição. Estão deixando para a direita, que não tem esse sentimento todo de democracia, uma bandeira política da importância que é a liberdade de expressão.”





