2º turno

PT decide continuar tratando o povo como idiota

Derrotado no primeiro turno, partido não propõe mudar sua política direitista: quer apenas aperfeiçoar a manipulação dos eleitores

A campanha de Lula divulgou nessa quarta-feira (7) uma orientação para tentar reverter no segundo turno a derrota sofrida no domingo. O documento determina que militantes e dirigentes concentrem esforços nos 33 milhões de eleitores que não foram às urnas e em parte dos 9 milhões que votaram em outros candidatos. Recomenda ainda abordar essas pessoas com “humildade” e reconhecer o desejo de mudança expresso nas urnas.

O PT parece ter descoberto que existe insatisfação no País. O problema é o que pretende fazer com essa descoberta. A nova orientação não apresenta uma mudança de política para conquistar os trabalhadores. Trata a derrota fundamentalmente como uma dificuldade de comunicação. É preciso escolher melhor o público, ajustar o discurso, organizar ações de “conversão de votos” e convencer o eleitor de que Flávio Bolsonaro representa um perigo maior.

Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Diante de um resultado dessa dimensão, uma direção política séria deveria perguntar por que milhões de trabalhadores pobres, assalariados e explorados preferiram votar no candidato da direita. A resposta do PT é muito mais simples: é preciso falar melhor com eles.

É a continuação, com uma embalagem diferente, do tratamento dispensado ao povo durante o primeiro turno.

Uma parte da esquerda passou meses tratando o eleitor da direita como ignorante, manipulado, fascista ou simplesmente burro. Chegou-se ao ponto de publicar artigo chamando-o de “adestrado”. É uma política particularmente grotesca quando aplicada a trabalhadores pobres. Um operário que vota em Flávio Bolsonaro não deixa de ser operário por causa disso. Continua sendo explorado, pagando aluguel, comprando comida cara, entregando boa parte de sua renda aos bancos e sofrendo com salário baixo.

Se a esquerda considera que esse trabalhador está votando contra seus próprios interesses, sua obrigação política seria demonstrar isso. Explicar quais interesses estão por trás da direita, apresentar um programa para melhorar concretamente sua vida e tentar organizá-lo em torno desse programa. Xingá-lo equivale a abandonar a disputa política e depois culpá-lo por não votar como se desejava.

Na reta final do primeiro turno, o método desceu mais um degrau com a mentira envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Espalhou-se que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do Brasil. A história utilizava como base um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, rejeitado e arquivado em 2008. Flávio não apresentou essa proposta nem anunciou intenção semelhante.

O episódio foi especialmente revelador porque a esquerda passou anos exigindo censura, remoção de publicações e punições judiciais em nome do combate às chamadas fake news. Quando uma mentira apareceu como instrumento útil contra o candidato da direita, porém, a preocupação com a desinformação desapareceu.

O caso mostrou o caráter oportunista da política de censura apresentada como combate às notícias falsas: o problema nunca foi simplesmente a falsidade de uma informação, mas quem dispõe do poder para decidir o que pode circular e utilizar o aparelho judicial contra os adversários.

Ao mesmo tempo em que procurava assustar o eleitor com a direita, o governo resolveu abrir a carteira para comprar votos.

O piso do Bolsa Família permanecia em R600desdemarçode2023.Somenteem17desetembrode2026,apoucosdiasdaeleição,ogovernoanuncioureajustede15,04%,elevandoomínimoparaR691. O próprio Ministério do Desenvolvimento Social informou que aquela era a primeira atualização dos valores pela inflação desde a retomada do programa, mais de três anos antes.

O calendário não é um detalhe. Durante praticamente todo o mandato, o benefício perdeu valor diante da inflação. Quando a eleição chegou e a situação do governo se apertou, apareceu o aumento. Essas medidas foram uma clara tentativa de compra de votos.

A nova cartilha petista não rompe com nenhum desses métodos. Apenas recomenda aplicá-los com mais cuidado.

O documento manda a militância conversar com “humildade”, concentrar-se em públicos considerados conquistáveis e não “gastar tempo e energia” com bolsonaristas consolidados. Entre os argumentos propostos estão ameaças atribuídas a um eventual governo Flávio Bolsonaro, como privatização da Petrobrás, manutenção da escala 6×1 e ataques a benefícios sociais.

Se essas questões são realmente decisivas, o caminho seria apresentar uma política capaz de mobilizar os trabalhadores em torno delas. Não basta informar ao eleitor que Flávio Bolsonaro pode privatizar a Petrobrás. É preciso defender abertamente a reversão das privatizações e a manutenção dos setores fundamentais da economia sob controle estatal. Não basta dizer que a direita atacará os salários. É preciso lutar por um aumento substancial da remuneração dos trabalhadores. Caso contrário, isso é apenas a campanha do medo e a favor de um “mal menor”, que é justamente o que o PT está fazendo.

O programa apresentado pelo PCO nestas eleições parte justamente desse terreno. O Partido defende reposição integral das perdas salariais, aumento emergencial de 50% dos salários e aposentadorias, redução da jornada sem redução salarial, cancelamento das dívidas dos trabalhadores com os bancos, estatização do sistema financeiro e reversão das privatizações.

Essas são propostas básica e tradicionais de qualquer organização que se pretenda de esquerda. Colocam diante do trabalhador uma disputa política concreta: salário contra lucro patronal, emprego contra exploração, patrimônio público contra privatização, renda dos trabalhadores contra o parasitismo financeiro.

Esse é o debate que o PT abandonou.

Uma política de esquerda deveria procurar elevar a consciência dos trabalhadores, explicar os conflitos de classe existentes por trás das eleições e apresentar uma saída para seus problemas materiais. O trabalhador precisa ser convencido politicamente, não conduzido por truques publicitários como se fosse consumidor diante de uma campanha de sabão em pó.

A própria expressão utilizada na orientação petista — “conversão de votos” — mostra o rebaixamento. O eleitor aparece como um número a ser deslocado de uma coluna para outra por meio da mensagem correta. Se o argumento anterior não funcionou, muda-se a frase. Se o medo não bastou, aumenta-se a dose. Se a política não convenceu, procura-se um propagandista melhor.

O primeiro turno mostrou que esse método chegou a um limite. Mesmo com a máquina do governo, medidas anunciadas às vésperas da votação e uma campanha centrada em apresentar a direita como ameaça absoluta, Lula terminou atrás de Flávio Bolsonaro.

A direção petista poderia retirar daí uma conclusão política. Poderia perguntar por que um partido que nasceu ligado ao movimento operário perdeu a capacidade de entusiasmar a classe trabalhadora. Poderia romper com a política de conciliação com os grandes capitalistas, enfrentar os bancos e apresentar reivindicações capazes de melhorar de maneira imediata a vida da população.

Preferiu encomendar uma nova propaganda.

Depois de passar o primeiro turno tratando o povo como gado, o PT entrou no segundo decidido a provar que o problema não era tratá-lo como gado. Era não ter encontrado ainda o berrante correto.

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