A reta final da campanha presidencial de 2026 revela um impasse político construído ao longo de todo o governo Lula. O PT chegou ao segundo turno contra Flávio Bolsonaro sem conseguir transformar a disputa numa discussão sobre emprego, salário, soberania nacional e direitos democráticos. No lugar de um programa, predominam ataques pessoais, acusações de corrupção e peças publicitárias destinadas a explorar a rejeição ao adversário.
De um lado, Lula insiste na imagem negativa de Flávio Bolsonaro e nas denúncias contra sua família. Do outro, o candidato do PL e seus apoiadores exploram o desgaste do presidente e divulgam as dificuldades enfrentadas pela população. São estratégias diferentes, mas que mantêm o debate longe das medidas necessárias para enfrentar os problemas nacionais. O resultado é uma campanha marcada mais pela disputa de imagens do que pelo confronto de projetos.
Os atos de rua têm sido subordinados ao calendário eleitoral, enquanto vídeos, provocações e acusações nas redes sociais substituem a defesa de uma política independente para os trabalhadores.
Essa orientação não é apenas uma questão de técnica eleitoral. Decorre da política adotada pelo PT. Em vez de confrontar os interesses do grande capital, o governo procurou acomodá-los; em vez de organizar sua base social para enfrentar a direita, apostou na negociação parlamentar e na estabilidade institucional. Quando a disputa eleitoral se tornou mais difícil, restou recorrer ao argumento de que seria preciso manter Lula para impedir a vitória do bolsonarismo.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos no primeiro turno, contra 45,16% de Lula. As pesquisas desta semana mostram uma disputa apertada, ainda sem resultado definido. Mas o PT precisa responder: como um partido que governou durante tantos anos permitiu que o bolsonarismo chegasse a essa posição?
A explicação não pode se resumir à propaganda adversária ou às redes sociais. A falta de discussão programática na campanha reflete os limites da própria política de governo.
O problema se torna ainda mais grave quando se observa a composição do Congresso eleito para 2027. O PL, sozinho, conquistou 121 cadeiras na Câmara, tornando-se a maior bancada, enquanto a federação PT-PCdoB-PV obteve 88, das quais 70 são do PT. O resultado amplia a dependência de negociações parlamentares para qualquer governo e, no caso de uma reeleição de Lula, torna evidente a pressão por novas concessões.
A direção petista chama isso de realismo político. Mas a cada crise, novas concessões são feitas, enquanto a burguesia amplia suas exigências. O PT apresenta a permanência no poder como garantia contra a direita, mas aceita os limites estabelecidos por ela.
A questão das concessões ao capital privado ajuda a medir essa contradição. O próprio Ministério de Portos e Aeroportos informou que, de 2023 até dezembro de 2025, o governo havia realizado 26 leilões no setor portuário, envolvendo R$ 15,5 bilhões em investimentos previstos. Para 2026, a pasta anunciou mais leilões de portos e aeroportos. Não se deve confundir automaticamente concessão, arrendamento e venda definitiva de uma estatal, mas são medidas que ampliam a participação empresarial privada na exploração de infraestrutura estratégica.
O governo diz que essas operações atraem investimentos. Isso, contudo, não resolve a discussão sobre controle público da infraestrutura, energia e demais recursos estratégicos.
Na área mineral, a disputa sobre as terras raras tornou ainda mais evidente a relevância de uma política nacional de controle dos recursos estratégicos. A entrada de empresas estrangeiras nesse mercado levanta questões sobre quem controla a exploração, a tecnologia e o destino da produção. Não basta proclamar compromisso com a soberania enquanto decisões econômicas centrais continuam subordinadas à atração de investidores.
É preciso rejeitar, igualmente, a falsa conclusão de que essas críticas representem apoio ao bolsonarismo. Flávio Bolsonaro anunciou, em junho, a intenção de transferir a embaixada brasileira em “Israel” para Jerusalém caso chegue ao governo, além de estreitar os vínculos diplomáticos com o Estado israelense. Sua candidatura apresenta, portanto, posições reacionárias próprias que precisam ser examinadas e criticadas independentemente dos erros do PT.
O fato de o bolsonarismo oferecer uma alternativa eleitoral aos descontentes não significa que possua uma alternativa política favorável aos trabalhadores. Criticar o governo não exige aceitar o programa de seu adversário. Da mesma forma, combater a direita não obriga ninguém a abandonar a crítica ao governo nem a silenciar sobre as medidas que considera contrárias aos interesses populares.
É nesse quadro que se insere a posição do PCO pelo voto nulo. Trata-se de uma posição política de independência diante das duas candidaturas, e não de apoio a uma delas. Seus críticos podem discordar dessa orientação, mas não substituem o debate sobre privatizações, direitos trabalhistas e soberania nacional pela acusação automática de colaboração com Flávio Bolsonaro.
O PCO não dirigiu o governo, não definiu a política fiscal nem negociou os acordos com o Congresso. Essas escolhas pertencem à direção petista, que deve responder por seus resultados.
Durante anos, dirigentes e simpatizantes do governo confiaram que decisões judiciais, investigações e restrições impostas ao bolsonarismo seriam suficientes para neutralizá-lo. Essa aposta deixou em segundo plano a necessidade de disputar politicamente a população. A força que o bolsonarismo preservou nas eleições demonstra, no mínimo, que uma estratégia concentrada na ação das instituições não suprimiu sua base social.
A trajetória recente do PT coloca uma questão que permanecerá depois de 25 de outubro, independentemente do vencedor: será possível reconstruir uma política de esquerda mantendo a subordinação aos acordos com a burguesia e reduzindo a organização dos trabalhadores a campanhas eleitorais? Sem enfrentar essa contradição, a crise que hoje atinge a candidatura de Lula continuará sem resposta.
O PT não foi colocado nessa situação pelo PCO, pela crítica de outros setores da esquerda ou simplesmente por uma campanha eficiente de seus adversários. A situação resulta sobretudo das escolhas que fez ao governar. Seus dirigentes preferem responsabilizar quem aponta os problemas, mas continuam sem apresentar um balanço convincente do caminho percorrido. A sepultura é a imagem do esgotamento de uma orientação que, ao procurar acomodar-se à direita, enfraqueceu sua própria razão de existir.




