A divulgação de pesquisas para a disputa ao Senado em São Paulo trouxe novamente à tona um debate recorrente na política brasileira: até que ponto partidos identificados com a esquerda podem construir alianças com candidaturas que defendem posições conservadoras em temas ligados aos direitos das mulheres?
O levantamento Datafolha mostra que nomes como Marina Silva e Simone Tebet aparecem entre as principais pré-candidatas ao Senado. Embora pertençam ao campo que hoje dá sustentação política ao governo federal, ambas possuem histórico de posições reacionárias em relação à descriminalização do aborto, tema que permanece um dos principais pontos de divergência dentro da coalizão governista.
A situação evidencia o jogo permanente entre estratégia eleitoral e identidade programática quase inexistente na maioria da esquerda. Para setores do movimento feminista e organizações que defendem os direitos reprodutivos, o apoio a candidaturas contrárias à ampliação desses direitos representa uma contradição difícil de ignorar. Segundo essa avaliação, não basta defender políticas de combate à violência doméstica ou ampliar programas de proteção às mulheres se, ao mesmo tempo, permanece o apoio a lideranças que rejeitam mudanças na legislação sobre autonomia reprodutiva.
Os defensores da estratégia respondem que o sistema político brasileiro exige composições amplas. Argumentam que a disputa parlamentar não ocorre entre programas ideais, mas entre alianças capazes de formar maiorias em um Congresso fortemente conservador. Sob essa perspectiva, abrir mão de determinados pontos de convergências seria o preço para impedir o avanço de forças consideradas ainda mais resistentes à pauta dos direitos sociais.
Essa justificativa, entretanto, não elimina a contradição de setores ditos progressistas que veem a questão do aborto como parte integrante da agenda de saúde pública, igualdade de direitos e autonomia das mulheres. Para esses grupos, tratar o tema apenas como uma divergência secundária mostra a hipocrisia do discurso político apresentado durante as campanhas eleitorais.
O episódio demonstra como a política institucional exige escolhas que produzem desgaste junto às próprias bases de apoio, que esperam da esquerda a luta por direitos. Enquanto dirigentes enfatizam a necessidade de coerência e alinhamento entre o discurso e as práticas políticas.
O PT apoia esses nomes reacionários porque imagina que, em uma eventual reeleição, precisará de apoio para formar uma base no Congresso. No entanto, isso suscita uma pergunta que acompanha a esquerda brasileira há décadas: até onde o pragmatismo eleitoral pode avançar sem comprometer bandeiras históricas que ajudaram a construir sua identidade política?





