A ação movida pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, contra o TikTok revela, uma vez mais, a ideia da esquerda pequeno-burguesa de que a circulação da opinião pública deve ser policiada sempre que o conteúdo lhe é desfavorável. Segundo a representação apresentada ao TSE, o partido quer que a ByteDance forneça os dados do perfil “RehVerse IA”, que publicava vídeos de petistas sendo “exorcizados”, e pede ainda que Instagram, Facebook, YouTube e Kwai adotem medidas para impedir a circulação de conteúdos semelhantes. O material foi classificado pela federação como “violência política” e “violência política de gênero”.
O problema não é gostar ou não do conteúdo. O problema é outro: transformar sátira, provocação ou propaganda adversária em caso de tutela judicial e, mais do que isso, usar um episódio para pressionar várias plataformas a bloquear previamente materiais parecidos. Isso já não é simples reação a um perfil específico. É cerco político às redes sociais. O partido não quer apenas tirar um conteúdo do ar; quer estabelecer um padrão de vigilância e contenção sobre o debate público digital.
O dado mais revelador é precisamente esse salto. A representação não se limita a pedir a identificação dos responsáveis pelo perfil. Ela exige que outras plataformas “adotem medidas para impedir a circulação de conteúdos semelhantes”. Isto é, o PT não está tratando apenas de um caso concreto. Está tentando fazer das redes um ambiente previamente higienizado contra formas de comunicação que o incomodam.
Essa postura lembra um partido que ainda raciocina com a cabeça dos tempos em que bastava pressionar meia dúzia de redações, influenciar a grande imprensa amiga ou arbitrar o que era aceitável no debate público nacional. Daí o sentido do título. O PT ainda se comporta como se pudesse enquadrar a esfera da comunicação do mesmo modo que se tentava enquadrar o velho sistema centralizado de mídia. Só que a internet não é a Globo, e o debate nas redes não funciona segundo a lógica do velho monopólio da informação.
Também chama atenção o momento da ofensiva. A propaganda eleitoral ainda nem começou — ela se inicia em 16 de agosto —, mas o partido já atua para moldar o terreno digital por via judicial. Isso revela uma escolha política: em vez de disputar a linguagem das redes, responder ao adversário e enfrentar a circulação hostil com contraofensiva política, o PT prefere recorrer ao TSE e às plataformas para conter o fluxo da comunicação.
No fundo, o partido trata como “violência” aquilo que, em muitos casos, é disputa política dura, ambiente satírico, linguagem grotesca de internet e propaganda agressiva, elementos que hoje compõem, goste-se ou não, a esfera pública digital. Confundir tudo isso com categoria jurídica expansiva é um caminho perigoso. Porque abre espaço para que toda crítica visualmente ofensiva, toda montagem incômoda e toda peça de propaganda adversária sejam empurradas para o terreno da remoção, da identificação compulsória e da censura indireta.
O petismo deveria saber, melhor que muitos, onde esse caminho costuma levar. Instrumentos criados para “proteger a democracia” acabam quase sempre servindo para estreitar o espaço do dissenso e reforçar o poder de controle das plataformas, da Justiça e do aparato estatal sobre a circulação política. Hoje o alvo pode ser um perfil antipetista. Amanhã, o mesmo mecanismo pode ser usado contra qualquer outro setor.
O caso revela, portanto, um partido que continua com dificuldade de conviver com um ambiente público menos domesticado e mais hostil. Em vez de compreender a crise da sua comunicação como problema político e de linguagem, tenta resolvê-la pela via judicial. Em vez de enfrentar o debate, tenta administrar o debate. Em vez de disputar as redes, quer enquadrá-las.
É isso que está por trás da ação contra o TikTok. Não é apenas desconforto com um perfil de IA. É a persistência de uma mentalidade de controle. O PT ainda acha que pode tratar a comunicação pública como território administrável de cima para baixo. Ainda acha que pode decidir o que circula e o que deve ser contido. Ainda acha, em suma, que é dono da Globo — só que agora quer estender essa pretensão às redes sociais.





