Tecnologia

Proibição de celulares nas escolas só piora o ensino

Banir os aparelhos significa ignorar que os jovens devem ser educados digitalmente até para o mercado de trabalho

celular censurado

O Estadão, jornal da ditadura e da burguesia, publicou nesta segunda-feira (6) um editorial intitulado “Veto a celular dá resultado”, que não passa de uma farsa, a começar pelo fato de que não apresenta nenhuma evidência de melhora da acadêmica, justamente o principal objetivo. Além, é claro da suposta proteção aos jovens contra a pedofilia, o que é estranho, pois os casos desses tipos de crimes ocorrem exatamente em ambiente doméstico.

Segundo o texto, “uma pesquisa com mais de 3,5 mil gestores escolares das redes pública e privada de todo o Brasil apresentou resultados animadores sobre o primeiro ano de vigência da lei que restringe o uso dos celulares nas unidades de ensino. Segundo o levantamento coordenado pelo Ministério da Educação (MEC), 92% dos gestores ouvidos disseram que já implementaram a legislação em suas escolas.”

As medidas restritivas, que impacta diretamente sobre o direito das crianças e adolescentes, apenas estabelecem um ambiente policialesco e repressor, que em nada podem contribuir para o desenvolvimento dos jovens.

“Num país conhecido por ter leis que pegam e que não pegam”, continua o editorial, “esse dado indica que a Lei 15.100, de 2025, está vigente e é eficaz. Como bem afirmou a secretária de Educação Básica, Kátia Schweickardt, ao anunciar os resultados da pesquisa, se a lei pegou, é porque havia um ambiente de preocupação na sociedade com o uso nocivo dos celulares por crianças e adolescentes.”

A verdade é que essa lei ainda não “pegou”. Além das crianças e adolescentes serem majoritariamente contra, um terço das escolas têm dificuldade em fiscalizar o uso de aparelhos.

Os celulares, ao contrário da imagem que tentam vender, não são entidades malignas. Quem não reconhece que é preciso garantir a inclusão digital, e a necessidade de acesso à tecnologia para alunos que não têm computador em casa?

Banir os aparelhos significa ignorar que os jovens devem ser educados digitalmente até para o mercado de trabalho. Além disso, os celulares permitem pesquisas rápidas, uso de dicionários, calculadoras e aplicativos educativos.

No ambiente escolar, é plenamente possível que os professores e alunos façam um acordo de como utilizar os aparelhos, o que promove uma interação democrática em vez de simplesmente impor uma proibição.

É inegável, além do que já foi dito, que os celulares aumentam a segurança. Muitos pais se sentem mais confortáveis sabendo que podem rapidamente se comunicar com os filhos em emergências.

Nada de ganhos acadêmicos

O editorial diz que “por ora, não foi possível aferir os efeitos acadêmicos da restrição. Novas pesquisas poderão dizer se os estudantes aprenderam mais ou menos. Mas já há estudos da Unesco que atestam os benefícios da medida, haja vista que o celular, ao tirar a atenção dos alunos da aprendizagem, afeta a memória e a compreensão.” Recorrer “estudos da Unesco” é uma forma muito evasiva de tratar a questão. E ninguém deve acreditar em pesquisas quando é feito pela parte interessada em determinadas respostas.

O Estadão é contra a escola pública, defende o teto de gastos e prefere que se pague juros abusivos a bancos do que se investir na educação. Portanto, as escolas brasileiras continuam sem equipamentos pedagógicos, sem professores remunerados adequadamente.

Sobrecarga para os professores

Segundo se noticiou, o Brasil enfrenta um cenário crítico conhecido como “apagão docente”, no qual milhares de escolas não conseguem contratar professores formados nas disciplinas que precisam. Como a lei exige que as aulas aconteçam, o problema se manifesta de duas formas: turmas sem aulas por longos períodos ou, mais frequentemente, professores lecionando matérias fora de sua área de formação. Estimasse que até 2040 o País poderá atingir um déficit de 235 mil professores na educação básica.

A escassez atinge principalmente o Ensino Médio e os anos finais do Ensino Fundamental. As maiores lacunas de profissionais com a titulação correta ocorrem em Física, que é historicamente a área com o pior cenário. Apenas 27% dos professores que lecionam essa matéria possuem formação específica na área.

Química e Matemática, que exigem alta qualificação técnica, tem graduados que frequentemente migram para o setor privado ou mercado financeiro devido aos salários mais atraentes.

Artes e Literatura registram déficits de profissionais habilitados acima de 50% em várias redes de ensino.

Como consequências, as escolas, para mitigar a ausência de profissionais, as secretarias de educação e diretores recorrem a soluções improvisadas e distorcem a atuação dos professores. Um professor formado em Matemática, por exemplo, assume as aulas de Física, ou um graduado em Biologia leciona Química, etc.

Dados do Anuário da Educação Básica revelam que 1 em cada 3 professores do Ensino Médio não é formado na disciplina que leciona.

Existe ainda o uso massivo e abusivo de contratos precários e temporários sem concurso público para tapar buracos na grade.

Estudantes de regiões periféricas ou do interior do País passam meses sem professores de determinadas matérias, ampliando a desigualdade educacional.

A carreira docente é extremamente desvalorizada. Os salários iniciais estão abaixo de outras profissões que exigem ensino superior.e, em decorrência disso, cerca de 58% dos estudantes que ingressam em licenciaturas desistem do curso antes de se formar. Nas exatas, a desistência em cursos como Física chega a passar de 70%.

Outro fantasma que ronda a carreira de professor são os problemas de saúde mental causados por salas superlotadas e jornadas duplas ou triplas.

As leis de restrição ao uso de celulares vai aumentar a pressão sobre o professorado, que terá que agir como polícia dentro da sala de aula, o que só pode criar um clima de hostilidade e até de violência.

A grande imprensa é a favor da censura, ignora a decadência da educação no Brasil em virtude do parasitismo do sistema financeiro, mas tem coragem de vir a público para dizer que “gestores relataram uma nova realidade nas escolas. Nada menos do que 97% deles afirmaram que a restrição de celulares, com uso liberado apenas em atividades pedagógicas, contribuiu para aumentar a participação dos estudantes; 95% disseram que aumentou a socialização presencial; 88% afirmaram que a medida reduziu conflitos, agressões digitais e cyberbullying; e 86% apontaram a queda da ansiedade dos estudantes.”

Isso é uma fraude. A burguesia não tem nada para apresentar e fica inventando números para tentar justificar repressão. O que é bem natural para quem sustentou golpes e ditadura militar.

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