O professor Bruno Hendler realizou uma palestra sobre o Oriente Médio no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) nesta terça-feira (14). Na ocasião, ele abordou a atuação do Estado de “Israel”, na presença de estudantes, participantes do ciclo de extensão (Cext) e interessados pelo assunto em geral. A atividade integrou uma série de debates acadêmicos e políticos sobre a crise internacional.
O evento, intitulado Crise atual: o Oriente Médio como espaço de projeção estratégica dos EUA e da China, reuniu estudantes, pesquisadores e interessados em compreender o conflito a partir de uma perspectiva crítica. A fala do professor destacou elementos históricos e políticos do desenvolvimento da situação na região, bem como explicou a história do genocídio contra os palestinos desde a Nakba. A palestra foi relatada por participantes ouvidos por este Diário como tendo tido boa adesão do público da universidade.

Durante a exposição, Hendler apresentou uma análise dividida em três momentos principais da política do Estado de “Israel”: o período de antes de 1967, marcado pela Nakba e seus efeitos, o período posterior a 1967, marcado por medidas de segregação; a consolidação de correntes de extrema direita no interior do regime; e, mais recentemente, a escalada do genocídio contra a população palestina, especialmente a partir de 2023 na Faixa de Gaza. Segundo ele, esses processos devem ser compreendidos como parte de uma trajetória contínua de intensificação da opressão:
“A gente pode ir para essas três fases. Que eu até notei aqui em algum momento. Do apartheid, a partir de 67, a fascistização do Likud pós-66 e a ascensão do Netanyahu e o genocídio a partir de 2023 em Gaza”.
O professor também abordou a formação ideológica dentro do próprio Estado de “Israel”, destacando como é feita a propaganda para fazer os israelenses defenderem tamanha atrocidade. Ele explicou que existe um pânico colocado sobre os judeus constantemente, de que a perseguição vai voltar e a única salvação seria “Israel”:
“Como vocês crescem, a gente cresce aprendendo português, eu cresço aprendendo português e tendo noção não só muito menos da religião judaica, mas muito mais ‘Israel’. Isso que é muito louco. Essa noção de que a qualquer momento vão caçar os judeus e aí a solução é esta”.
Outro ponto importante da palestra foi a menção a grupos de oposição interna em “Israel”, como movimentos que se colocam contra a política oficial do governo e buscam romper o bloqueio imposto à Faixa de Gaza. O palestrante citou Alon-Lee Green e o movimento Standing Together como forças contrárias ao genocídio dentro da própria sociedade israelense. Segundo Hendler, esses grupos enfrentam forte isolamento político e social, mas demonstram que há resistência dentro do próprio país:
“E por outro lado sim, eu sigo o Alon-Lee, o Standing Together, tem vários grupos muito bons dentro de ‘Israel’ que são marginalizados. E é muito difícil torcer para eles. Você só fica torcendo para eles e eles tentaram romper o bloqueio que os religiosos fizeram para os mantimentos da ONU para a Gaza, sabe?”
A atividade também contou com intervenções do público. Um dos participantes mencionou casos de ativistas que tentaram entrar em Gaza como forma de protesto político e foram detidos, evidenciando o nível de repressão existente na região:
“Teve um que entrou na Faixa de Gaza como um movimento político e foi preso por causa disso. Cruzou a fronteira.”
Hendler também criticou a chamada Lei Tabata, que busca censurar críticas ao Estado israelense, classificando tais propostas como tentativas de impor limites ao pensamento e ao debate político. Para ele, a singularidade histórica do caso palestino exige uma análise própria, sem equiparações artificiais com outros países, como faz o projeto de lei de Tabata Amaral, que diz que deve ser censurado e preso quem criticar “Israel” mais do que critica outros países:
“Tem um trecho lá que diz assim. ‘Toda crítica a Israel é permitida desde que seja feita em igual medida a outros países’. Só que, cara, a história de Israel é uma história excepcional para o bem e para o mal”.
Ao tratar da situação no Brasil, o professor destacou que a comunidade judaica não se encontra, de modo geral, em condição de perseguição no país, apontando que há uma integração significativa em diversos setores sociais.
“Nós não somos mais, os judeus não são mais um grupo perseguido no Brasil. Não somos assim. Ninguém deixa de ter um emprego porque tem sobrenome judeu”.
O professor Hendler relatou ter recebido inclusive ameaças de pessoas de seu próprio círculo social ao começar a defender a Palestina:
“E pessoas que se dirigiram a mim me mandaram mensagens pra mim, tipo, me passa o endereço em Porto Alegre, a gente vai ter uma conversinha, eu não sei o quê, pessoas com quem eu convivi, sabe?”
Um estudante que esteve presente na atividade e foi ouvido por este Diário afirmou que a palestra contribuiu para ampliar a compreensão sobre o tema. O participante destacou a parte em que o professor comentou sobre nunca ter ouvido falar da Nakba até a idade adulta, quando passou a questionar o sionismo e as ideias com que cresceu. Ele também pontuou sobre a relevância da explicação do professor que detalha o processo como o genocídio é, em suas palavras, normalizado entre a população israelense.




