Uma prisioneira palestina denunciou uma série de agressões contra mulheres mantidas nos cárceres de “Israel”. Shahd Muhammad Adi, de 23 anos, relatou invasões noturnas das celas, espancamentos, ameaças com armas, uso de cães, retirada forçada das vestimentas e negação de tratamento médico.
O depoimento foi transmitido pelo advogado Hasan Abbadi e publicado neste sábado (11) pelo Centro de Informações da Palestina. Formada em enfermagem e moradora de Beit Ummar, cidade da Cisjordânia ocupada, Adi está presa desde o fim de março.
Segundo a jovem, as agressões se tornaram mais frequentes e violentas desde sua chegada à prisão. As forças carcerárias invadem as alas femininas durante a madrugada, vendam as prisioneiras e obrigam as mulheres a permanecer no chão enquanto são ameaçadas e insultadas.
Adi afirmou que a invasão mais violenta ocorreu em 13 de maio, quando as prisioneiras realizavam as orações noturnas. Agentes israelenses lançaram granadas de efeito moral dentro das celas e entraram na ala acompanhados por cães.
As mulheres receberam ordens para deitar de bruços no chão. Os agentes apontaram armas em sua direção e iniciaram agressões físicas e verbais. Exemplares do Alcorão também foram retirados dos quartos.
De acordo com o relato, os agentes obrigam as palestinas a retirar suas vestimentas longas mesmo quando a temperatura está muito baixa. As prisioneiras permanecem expostas ao frio durante as operações, frequentemente vendadas e sem saber o que ocorrerá em seguida.
Os cães são levados para dentro das celas durante as invasões noturnas. Segundo Adi, os animais são usados para ameaçar e aterrorizar as prisioneiras.
O testemunho coincide com denúncias feitas por organizações palestinas de defesa dos prisioneiros. A Sociedade dos Prisioneiros Palestinos registrou dezenas de invasões às alas femininas nos três meses anteriores a julho.
As operações envolveram unidades carcerárias especializadas, cães, revistas íntimas humilhantes e agressões físicas. As organizações afirmam que a violência contra as mulheres aumentou desde o início da guerra israelense contra Gaza.
Especialistas da Organização das Nações Unidas também receberam denúncias de prisioneiros palestinos mantidos vendados por longos períodos, expostos ao frio, espancados e ameaçados por cães.
Em março, os especialistas advertiram que os relatos apontavam para grave abandono por parte das autoridades israelenses ou para uma política que permite e organiza a tortura e outras formas de tratamento cruel.
A proibição de visitas independentes impede uma verificação completa das condições. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha não recebe autorização para visitar os prisioneiros palestinos desde 7 de outubro de 2023.
A entidade pediu repetidamente que “Israel” informe o paradeiro dos presos, restabeleça as visitas e permita o contato com familiares.
Shahd Muhammad Adi denunciou ainda a redução da quantidade e da qualidade da alimentação fornecida às mulheres. Artigos de higiene, roupas adequadas e atendimento médico também são negados.
A falta de limpeza e de roupas provoca alergias e doenças de pele. O atendimento médico é limitado, mesmo entre as mulheres que já apresentavam problemas graves de saúde antes da prisão.
Um documento da ONU apontou superlotação, comida insuficiente, restrição ao acesso à água potável, falta de produtos de limpeza e atendimento médico inadequado nos cárceres israelenses.
O documento também mencionou a propagação de sarna e a perda acentuada de peso entre os prisioneiros. As más condições sanitárias favorecem a disseminação de doenças e agravam problemas já existentes.
O Comitê contra a Tortura da ONU recebeu denúncias de que mulheres palestinas são privadas de absorventes e de acompanhamento ginecológico. Visitas familiares e contatos telefônicos também permanecem severamente limitados.
Dados publicados em 1º de julho pela Sociedade dos Prisioneiros Palestinos indicam que “Israel” mantinha 99 mulheres palestinas presas. Entre elas estavam quatro menores de idade, três mulheres grávidas e duas diagnosticadas com câncer.
Mais de 40 eram mães. Muitas estavam presas por suposta “incitação” ou sob o regime de detenção administrativa, que permite o encarceramento sem acusação formal ou julgamento.
Desde o início da ofensiva contra Gaza, as forças israelenses prenderam mais de 770 mulheres na Cisjordânia ocupada e em al-Quds. Dezenas de palestinas também foram levadas da Faixa de Gaza, mas as organizações ainda não possuem um número completo.
As entidades palestinas afirmam que as invasões, a privação de alimentos, o abandono médico e as agressões físicas não são episódios isolados. São parte do tratamento imposto aos prisioneiros palestinos desde o início da guerra.
O relato de Shahd Muhammad Adi revela que as mulheres também estão submetidas a esse sistema. Nas prisões de “Israel”, a violência contra a população palestina prossegue longe das câmeras, sem visitas independentes e sem qualquer responsabilização dos agressores.





