O membro da Direção Nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro, Luan Monteiro, falou ao Diário Causa Operária, durante o XII Congresso Nacional do Partido, sobre o crescimento da influência do PCO na esquerda fluminense, a aproximação com organizações de luta e a situação política no estado.
O Congresso, realizado no Auditório Paraíso, em São Paulo, recebeu o nome de Congresso Natália Pimenta, em homenagem à militante do Partido que faleceu em novembro de 2025.
Segundo Monteiro, a campanha em defesa da Palestina teve papel central na aproximação do PCO com outros setores políticos no Rio de Janeiro. O dirigente destacou a atuação do Partido no Comitê da Palestina do Rio de Janeiro, a relação com setores da comunidade árabe e xiita e a participação de organizações que passaram a atuar em frentes contra o imperialismo.
“De quatro anos para cá, muita coisa aconteceu, teve toda a campanha da Palestina. Então, naturalmente, por conta disso, muita gente, muitas pessoas engajadas, preocupadas em levar a sério a luta da Palestina, se aproximaram. A gente tem uma participação importante lá no próprio Comitê da Palestina do Rio de Janeiro”, afirmou.
Monteiro citou ainda a aproximação com grupos que nem sempre estiveram ao lado do PCO, mas que participaram de atividades organizadas em defesa da Palestina, como ocorreu durante a campanha contra o G20.
“Os companheiros da comunidade xiita, da comunidade árabe também acabam sendo aliados importantíssimos nessa luta. E apareceram também muitos grupos, muitas iniciativas, muitas tentativas de se formar uma frente com a questão da luta contra o imperialismo. A campanha que a gente fez em relação à Palestina, como, por exemplo, o ato que a gente fez na campanha do G20, aproximou inclusive vários grupos que nem sempre estão aliados à gente. Grupos do PSOL, o PCBR esteve presente no nosso ato da Palestina. A gente conseguiu agrupar muita gente nesse sentido”, disse.
O dirigente também destacou a relação do PCO com a luta por moradia no Rio de Janeiro. Segundo ele, o Partido mantém há anos uma relação próxima com a Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST), que, além da luta por moradia, tem uma posição anti-imperialista firme.
“A Luta por Moradia a gente sempre teve um contato muito próximo com o pessoal da Frente Internacionalista dos Sem-Teto, com os companheiros da FIST. Não só pela questão da luta por moradia, mas eles são um grupo de luta por moradia que tem uma posição muito correta em vários pontos. Justamente por isso se chama Frente Internacionalista dos Sem-Teto”, afirmou.
Monteiro lembrou que a FIST orientou suas ocupações a hastear bandeiras da Palestina após o início da ofensiva sionista contra Gaza e também se posicionou em defesa da Venezuela e do Irã diante das agressões imperialistas.
“Uma das orientações deles era para que todas as ocupações, logo após 7 de outubro, hasteassem a bandeira da Palestina em cada ocupação. Teve agressão contra a Venezuela, no caso da sabotagem contra Maduro, então houve também uma orientação para defender a Venezuela, colocar bandeira de apoio. E a mesma coisa aconteceu com a questão do Irã”, declarou.
Segundo Luan Monteiro, a relação entre o PCO e a FIST ajudou a fortalecer esse posicionamento anti-imperialista. O dirigente citou como exemplo um ato em apoio ao Irã realizado no início da agressão imperialista contra o país.
“Eu diria, inclusive, que a influência do nosso Partido no movimento faz com que eles levem essa questão ainda mais a sério. O próprio grupo tem uma orientação política clara com relação a isso, de fato procura ter uma posição anti-imperialista muito firme. A nossa participação com eles já há vários anos, uns cinco, seis anos, certamente estreitou isso ainda mais”, disse.
“No dia 28 de fevereiro, dia em que teve o início das agressões do imperialismo contra o Irã, a gente já estava realizando um debate, ia fazer um ato de apoio ao Irã e calhou justamente no dia em que iniciou a guerra. Obviamente, eles estavam lá para poder fortalecer o movimento com a gente, como sempre estiveram, mantendo a firmeza dessa política”, afirmou.
Luan Monteiro também comentou a crise em Ilha Grande, em Angra dos Reis, provocada por tentativas de impor cobranças e restrições de acesso à população. Para o dirigente, o caso expressa a ofensiva privatista contra um dos principais patrimônios naturais do estado.
“O caso da Ilha Grande foi um grande escândalo, que inclusive teve uma repercussão muito grande. Já existiram várias tentativas de privatizar essa, que é uma das ilhas mais conhecidas do mundo, no Brasil. É uma ilha que recebe um turismo mundial gigantesco. Inclusive é uma das maravilhas do Brasil, com praias paradisíacas. Então tem um turismo muito forte”, afirmou.
Segundo Monteiro, a grande circulação de dinheiro, especialmente estrangeiro, fez com que a iniciativa privada tentasse avançar sobre Ilha Grande ao longo dos anos. O dirigente também denunciou a existência de áreas privadas em praias e ilhas de Angra dos Reis, inclusive nas mãos de figuras ligadas à Rede Globo.
“Justamente por ter uma circulação muito grande de dinheiro, e sobretudo estrangeiro, sempre foi de interesse muito grande das iniciativas privadas tomar aquilo. Inclusive tem praias lá que já são privatizadas, que ficaram na mão de gente que tem muito dinheiro. Figurões da Rede Globo têm áreas privadas, reservadas, que eles compraram, não só na Ilha Grande, mas em outras ilhas de Angra dos Reis”, disse.
O pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro denunciou a tentativa da prefeitura de Angra dos Reis, comandada pelo MDB, de impor uma taxa de acesso. Segundo ele, a medida atingiria moradores, comerciantes e trabalhadores que dependem da circulação na ilha.
“Dessa vez, teve uma iniciativa mais forte, inclusive por parte da própria prefeitura de Angra, de começar a cobrar uma taxa criminosa, que afetaria uma quantidade muito grande de pessoas. Os próprios moradores se posicionaram contrários porque aquilo ali afetaria o comércio, afetaria o próprio transporte que acontece”, afirmou.
Monteiro criticou a ausência da esquerda diante da mobilização dos moradores. Segundo ele, a reação contra a cobrança foi realizada principalmente pela própria população local.
“A posição da esquerda, eu pelo menos não vi absolutamente nada. Não vi nenhuma posição, não vi nenhum grupo se solidarizando. A prefeitura de lá está na mão dos criminosos e bandidos do MDB. A esquerda lá é praticamente inexistente. Para o nosso caso, a gente sempre tem uma política concreta, de ser totalmente contrário a qualquer tipo de limitação aos direitos de livre acesso das pessoas”, declarou.
O dirigente comparou a tentativa de cobrança em Ilha Grande a antigas propostas de privatização de praias no Rio de Janeiro, com instalação de catracas e restrições ao acesso popular.
“No Rio de Janeiro já teve vários debates, 20, 30 anos atrás, de privatizar praias, de colocar catracas para acesso a praias. Então, o que acontece na Ilha Grande é uma coisa parecida com isso. E, no geral, a esquerda não tem uma posição muito firme”, disse.
Segundo Monteiro, a revolta dos moradores contra a medida foi grande, com mobilizações durante vários dias e destruição de totens que seriam utilizados para a cobrança.
“Nesse caso da Ilha Grande, que é uma barbaridade absurda, a ação de defesa do ambiente, do local onde eles moram, foi feita totalmente por moradores, sem nenhum apoio da esquerda, até onde eu vi. Então a gente acha importante fazer uma denúncia, se possível fazer uma campanha também e demonstrar nosso apoio ao que os moradores colocam”, afirmou.
“Os moradores foram tão contrários que se viu até cenas que o pessoal chama de vandalismo: queimaram os totens onde seriam feitas essas cobranças. Você vê que há uma revolta muito grande. Cercaram o local por pelo menos uns dois dias, foram vários dias de grande mobilização. Então a gente procura se colocar contrário a isso também, denunciar o máximo que a gente puder”, disse.
Monteiro também tratou da repressão nas favelas do Rio de Janeiro. Questionado sobre a operação que deixou mais de 130 mortos no Alemão e na Penha, o dirigente afirmou que nada mudou no combate ao chamado crime organizado e que a violência policial segue atingindo a população pobre.
“Obviamente, nada mudou. A polícia segue sendo truculenta, o crime organizado continua funcionando normalmente, porque essas iniciativas do Estado utilizam o braço armado da Polícia Militar, da Polícia Civil, todos os órgãos da repressão. É uma medida para reprimir a população, um regime de terror nesses lugares onde o Estado simplesmente não existe”, afirmou.
Segundo o dirigente, no Rio de Janeiro, as favelas estão presentes em praticamente todos os bairros, inclusive nas regiões de classe média. Para ele, a política de segurança serve principalmente para impor terror sobre a população pobre.
“No Rio de Janeiro, é conhecido que há muitas e muitas favelas. Quase não tem um bairro onde não tem uma favela do lado. Então, tem uma mistura. Até nos bairros de classe média, você vê a presença de sempre ter uma favela no meio. E é um mecanismo de simplesmente reprimir”, disse.
Luan Monteiro criticou ainda a política repressiva defendida pelo governo Lula, citando medidas apresentadas como combate às facções. Segundo ele, esse tipo de política tende a atingir também os movimentos sociais.
“A gente, inclusive, aproveita a oportunidade para criticar também as posições que foram tomadas pelo próprio governo Lula, de ampliar a repressão, fechar aquela conversa com Trump, a PEC antifacção, essas coisas de tentar perseguir, inclusive algo que vai chegar aos movimentos sociais. Aumentar a repressão, diminuir os direitos básicos para poder se defender desse tipo de coisa, aumenta a chance de que aconteça ainda mais”, declarou.
Para Monteiro, as operações policiais seguem acontecendo e produzindo mortes, mesmo quando não alcançam grande repercussão. O dirigente afirmou que o problema central não é o chamado crime organizado, mas a repressão do Estado contra a população.
“Ao longo desses seis meses, já teve várias outras operações policiais, com vários mortos, mas que não tiveram essa repercussão toda. Isso não significa que o negócio vai deixar de existir. A gente sempre procura reforçar também que o crime organizado não é o maior dos problemas. O problema é o fato de o Estado estar reprimindo a população e não oferecer os serviços mais elementares”, disse.
O dirigente afirmou que o problema das drogas está ligado a um sistema internacional controlado por interesses que vão além do Brasil. Segundo ele, a política de repressão não resolve o problema e serve como justificativa para assassinatos em massa.
“O crime organizado existe porque é um sistema muito maior do que isso. É um sistema que inclusive vem do imperialismo, ao utilizar a questão das drogas como mais um mecanismo para aumentar a crise nesses países. Esse dinheiro não fica no País, não fica na mão dos traficantes, fica na mão de pessoas que muitas vezes estão fora do País”, afirmou.
“Não é que é enxugar gelo, é uma coisa mais perigosa ainda. É um meio de assassinar centenas de pessoas sem você de fato saber se essas pessoas cometeram algum crime na vida delas. Você não tem como aferir isso com tranquilidade. E, nesse caso, foi um assassinato extremamente cruel. As pessoas degolaram pessoas, deram tiro pelas costas. Não foi nem meramente uma questão de guerra, foi um assassinato generalizado”, declarou.
Ao final, Monteiro defendeu que o problema das drogas seja tratado como questão de saúde, e não como caso de repressão policial.
“Isso não tem nada a ver com o combate ao crime organizado, o combate às drogas. O problema das drogas, inclusive, não tem nada a ver com a questão do crime. O Partido da Causa Operária defende que todas as drogas sejam totalmente liberadas. A gente não acha que o meio para resolver o problema das drogas é pela repressão. É uma questão de saúde. O Estado tem que oferecer meios de ajudar a pessoa a se livrar dos problemas das drogas, não de reprimi-la por conta disso”, afirmou.




