Polêmica

Política não é autoajuda

Articulista de O Globo acha que a sociedade escolhe a polarização, não vê que esta é o resultado da luta de classes e é inevitável

A Dança II - Matisse (1910)

O artigo Não precisamos escolher entre a apatia e a polarização, de Pablo Ortellado, publicado em O Globo nesta sexta-feira (10), tenta fazer uma análise política ignorando completamente a luta de classes, o que só pode incorrer em erro. O início do texto faz um questionamento simplório, se “no Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia – ou se o país não precisa, ao contrário, reaprender o valor do desalinhamento”.

Como se viu, é uma colocação abstrata. Em que medida é possível acreditar que um país possa “reaprender” qualquer coisa? As tensões sociais resultam de choques concretos de interesses antagônicos. É o aumento dessas tensões que geram a polarização, trata-se de um processo social, não de um ato de vontade, como se amanhã “o país” decidisse acabar com essas contradições e tudo estaria resolvido.

Ortellado diz que “o alinhamento programático e ideológico tem sido tradicionalmente valorizado pela literatura da ciência política. Em primeiro lugar, ele organiza e simplifica debates amplos, cujos componentes variados e complexos passam a ser compreendidos à luz de princípios coerentes e estáveis, facilitando sua inteligibilidade”.

Em um partido marxista não é isso que acontece. Lembrando que a simplificação é necessária em qualquer tipo de debate quando se quer apresentar as linhas gerais de determinado assunto. Mas é o debate interno, o método de análise, aliado à prática política, que aumenta a conscientização dos militantes e que os faz compreender a realidade em maior profundidade e esta se torna mais inteligível.

O autor diz que “o alinhamento permite ao cidadão intuir que o feminismo e a defesa dos direitos dos trabalhadores fazem parte do mesmo pacote, de esquerda, que defende igualdade e direitos sociais, assim como permite intuir que lei e ordem e defesa da família fazem parte do pacote conservador”. No entanto, a “intuição” só funciona em um primeiro momento, pois é necessária a compreensão, saber o porquê de a emancipação feminina estar atrelada à emancipação da classe trabalhadora.

O mesmo serve para a questão da família, saber como ela se formou, o que é a família burguesa, que papel ela desempenha para a reprodução do capital etc. Tudo isso, no entanto, não pode ser um conhecimento estéril, mero diletantismo, deve ser mais uma ferramenta de luta política.

Não é verdade que “durante anos, a sociedade brasileira careceu de alinhamento. Era uma sociedade essencialmente amorfa e despolitizada. Depois dos protestos de junho de 2013 – e especialmente após as eleições de 2018 –, o Brasil passou da carência ao excesso. Vivemos hoje numa sociedade hiperpolitizada, com identidades hipertrofiadas e divisões ideológicas crescentes”.

As definições de Ortellado não têm base científica. Que régua estaria o autor utilizando para medir o que são carência e excesso? Além disso, o que está propondo seria uma espécie de “meio-termo” ideal. É uma abordagem totalmente confusa.

É completamente falsa a ideia de que “a sociedade [seria] essencialmente amorfa e despolitizada”, é exatamente o contrário, ou devemos acreditar que não havia divisão de classes? Muito antes de 2013, a classe trabalhadora se movimentou violentamente contra a ditadura militar.

As lutas populares é que romperam o dique de contenção da ditadura e as tendências políticas de esquerda puderam se concentrar e formar partidos. O regime militar não caiu de podre, a burguesia teve que ceder para evitar o pior.

Por desconsiderar a luta de classes, Ortellado acaba escrevendo que “o custo desse ganho de coerência tem sido a intolerância política e o risco cada vez maior de não conseguirmos conviver em respeito democrático”. Como pode haver “respeito democrático” quando a maioria da população vive na pobreza? Os interesses da classe trabalhadora e da burguesia são irreconciliáveis.

A solução que o autor propõe é ainda pior, diz que “a saída para isso pode ser o desalinhamento, o exercício crítico da moderação e da independência política”. Isso ão tem pé na realidade. O que está sendo proposto aí é justamente o que foi criticado antes, que nos tornemos uma sociedade amorfa. Ainda que ele diga que o “o desalinhamento não precisa ser a retomada da despolitização informe”.

Salada mista

O que Ortellado propõe é essencialmente idealismo misturado com conciliação de classes, movimento hippie e uma dose do pacifismo de Mahatma Gandhi. São as condições materiais que formam as ideias, não o contrário.

Uma pessoa que afirma que “o alinhamento nos torna reféns das respostas políticas dominantes no campo a que nos filiamos”, e que “o desalinhamento permite o convívio e a escuta — e o convívio modera”, só pode ser alguém que já está com a vida ganha, tem o pão garantido. Ou seja, sua ideologia tem base material.

Isso de que “ao conviver com gente dos dois campos políticos, passamos a entender suas perspectivas e moderamos as posições”, vai muito bem para livros de autoajuda, não para o mundo concreto, onde interesses de classes estão em choque. O burguês quer esfolar o trabalhador e este não quer ser esfolado. Como moderar isso?

“Pensar com independência” é uma fantasia, pois ninguém escapa da luta de classes e, portanto, defende determinados interesses. “Reconhecer razões em lados opostos e recusar a ortodoxia dos campos políticos não é debilidade”, é diletantismo, e esse tipo de atitude é típico da pequena burguesia que, em última instância, defende os valores burgueses, pois tentar amortecer a tensão entre explorados e exploradores serve apenas para fazer perdurar a exploração.

É inútil dizer que “não precisamos escolher entre a apatia e a polarização”. Não se trata de uma escolha, mas de uma imposição da realidade social.

Ortellado diz que “deve haver um ponto ótimo em que nos engajamos e nos responsabilizamos pela vida pública”. Mas, qual seria esse ponto? E erra ao sugerir que “o desalinhamento estratégico pode ser o caminho para esse engajamento crítico”. O pensamento crítico surge do embate de ideias, não do abandono de posições em favor de uma conciliação que em última análise, favorce apenas as classes dominantes.

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