Bahia

Polícia transforma bairros pobres de Salvador em campos de extermínio

Das 20 chacinas registradas até julho, 19 ocorreram em ações policiais; nelas morreram 65 das 68 vítimas do período

As operações policiais tiveram participação em praticamente todas as chacinas registradas em Salvador e região metropolitana nos sete primeiros meses de 2026. Os dados do Instituto Fogo Cruzado mostram que, mesmo com uma redução no número total de chacinas em comparação com o ano passado, a presença da polícia nesses episódios aumentou de maneira expressiva.

Somente em julho, Salvador e sua região metropolitana registraram 118 tiroteios. Ao todo, 120 pessoas foram baleadas: 93 morreram e 27 ficaram feridas. Desses 118 episódios, 62 ocorreram durante ações ou operações policiais, correspondendo a 52% do total. As ocorrências com participação da polícia deixaram 49 mortos e 12 feridos.

O quadro das chacinas é ainda mais grave. Foram seis em julho, todas durante ações policiais e todas na capital baiana. Os casos ocorreram na Capelinha, Castelo Branco, Cosme de Farias, Barreiras, Nordeste de Amaralina e Beiru/Tancredo Neves. Juntas, essas chacinas deixaram 16 mortos.

No mesmo mês de 2025, haviam sido registradas quatro chacinas, com 14 vítimas. Assim, de um julho para o outro, o número de chacinas aumentou 50%, enquanto a quantidade de mortos nesses episódios passou de 14 para 16, uma alta de 14%.

O acumulado do ano apresenta uma situação diferente e precisa ser observado separadamente. Entre janeiro e julho de 2025, foram registradas 24 chacinas em Salvador e região metropolitana. No mesmo período de 2026, foram 20, uma redução de 17%.

Essa queda, porém, não ocorreu nas chacinas ligadas às operações policiais. Em 2025, 16 das 24 chacinas aconteceram durante ações da polícia, ou 67% do total. Neste ano, foram 19 das 20, chegando a 95%. Portanto, enquanto caiu o número geral de chacinas, aumentou o número de episódios ocorridos durante operações policiais.

A concentração das mortes é igualmente reveladora. De janeiro a julho de 2025, as chacinas deixaram 89 mortos, dos quais 65 morreram em episódios ocorridos durante operações policiais. Em 2026, o total de vítimas caiu para 68, mas as chacinas ocorridas durante ações policiais voltaram a deixar 65 mortos. Assim, a participação desses episódios passou de 73% para 96% das mortes registradas em chacinas.

Os números deixam claro que a redução geral das chacinas não significou uma redução das mortes associadas às operações da polícia. Foram 65 vítimas no período de janeiro a julho de 2025 e outras 65 no mesmo intervalo deste ano. O que mudou foi o peso cada vez maior da ação policial no conjunto das chacinas registradas.

A coordenadora regional do Fogo Cruzado, Tailane Muniz, destacou justamente essa concentração. Segundo ela, a repetição de episódios com múltiplas mortes nos mesmos locais não deve ser tratada como coincidência. O levantamento aponta para uma concentração da letalidade em determinados territórios e durante determinadas ações policiais.

Esses dados expõem o caráter da política de segurança aplicada na Bahia. A quase totalidade das chacinas registradas neste ano ocorreu durante operações das forças de repressão do Estado. Não se trata, portanto, de alguns episódios excepcionais dentro de uma política que estaria funcionando normalmente.

A situação ocorre sob o governo de Jerônimo Rodrigues, do PT, responsável pelo Poder Executivo estadual ao qual estão subordinadas as forças estaduais de segurança. O próprio governo baiano continua ampliando os meios materiais dessas forças; em junho, por exemplo, anunciou a entrega de três helicópteros para a Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros.

Os números do Fogo Cruzado mostram o resultado concreto dessa política nos bairros populares de Salvador. Em julho, todas as chacinas registradas na capital aconteceram durante ações policiais. No acumulado do ano, 19 de 20 ocorreram da mesma maneira. A política apresentada como combate à violência transformou as próprias operações policiais em elemento predominante das chacinas registradas na cidade e em sua região metropolitana.

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