Na terça-feira (7), o jornalista Mario Andrada publicou o artigo Argentina mágica e Suíça padrão, no qual apresenta a classificação argentina contra o Egito como uma lição para o futebol brasileiro. O problema é que o texto faz isso apagando o principal fato político da partida: a arbitragem que favoreceu a Argentina e prejudicou a seleção egípcia.
Andrada escreveu:
“Messi chorou. Uma imagem raríssima de um ídolo acostumado a falar menos e jogar mais do que a concorrência protagonista.”
A frase já indica o tom do artigo. Não há análise do jogo. Há uma peça de culto ao personagem. Messi aparece como figura moral, quase acima da disputa concreta. O que aconteceu em campo desaparece.
O artigo segue no mesmo caminho:
“Os egípcios nem ficaram tão tristes. A oportunidade de atuar como coadjuvantes em uma catarse épica acalmou os corações do time dos faraós.”
Esse trecho é o mais revelador. O Egito, que disputava uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo, é tratado como figurante. A seleção africana não aparece como equipe prejudicada, não aparece como adversária que teve direito de disputar a classificação em igualdade de condições. Aparece como “coadjuvante” da emoção argentina.
O artigo ignora o gol egípcio anulado, o pênalti não marcado em Salah e os protestos do técnico Hossam Hassan contra a arbitragem. Esses são os fatos que deveriam orientar qualquer análise séria da partida. Sem eles, a “Argentina mágica” é apenas uma fábula para encobrir o que houve em campo.
Andrada também escreveu:
“A vitória dramática dos argentinos pode ajudar os brasileiros a entender o fracasso da nossa seleção. É só olharmos para a intensidade e, sobretudo, a vontade de vencer.”
Aqui aparece a segunda falsificação. A vitória argentina, marcada por polêmica de arbitragem, vira argumento para humilhar o Brasil. A eliminação brasileira é apresentada como falta de “vontade de vencer”. É a explicação mais pobre possível, porque substitui análise por psicologia barata.
O Brasil perdeu para a Noruega porque não fez gols e porque Haaland decidiu para os noruegueses. Poderia ter vencido. Poderia ter perdido. Futebol não é uma prova moral. A comparação fica ainda pior quando Andrada afirma:
“Mesmo vendo a Argentina perdendo por 2 a 0 havia no ar a certeza de que em algum momento eles iriam reagir. Já no jogo de domingo, assim que Haaland fez o 1º gol, tivemos certeza de que estava tudo perdido.”
Quem teve certeza? A torcida brasileira inteira? A comissão técnica? Os jogadores? O autor transforma sua impressão pessoal em diagnóstico. A frase serve para reforçar a campanha contra a Seleção Brasileira: quando o Brasil sofre um gol, seria um time derrotado por natureza; quando a Argentina sofre dois, seria um time destinado à glória.
A diferença, para Andrada, não está na arbitragem, nas circunstâncias da partida ou nos fatos concretos. Está na aura. A Argentina teria uma força mística. O Brasil teria fraqueza moral. Isso não é análise esportiva. É propaganda contra o futebol brasileiro.
Esse tipo de texto cumpre uma função política dentro do futebol. A FIFA precisa de personagens globais. Precisa de ídolos fabricados como marcas universais. Precisa de partidas transformadas em capítulos emocionais. A imprensa burguesa entra nesse esquema ao escrever como se a Copa fosse uma produção montada para confirmar a grandeza de determinados jogadores.
A conclusão de Andrada é ainda mais explícita:
“Tempo para pensarmos melhor por qual das favoritas iremos torcer. Vai, Argentina!!!”
A derrota brasileira deve ser analisada a partir dos interesses que atacam o futebol nacional. Não a partir da fantasia de que faltou “vontade de vencer”. Essa explicação serve apenas para absolver a FIFA, absolver a imprensa burguesa e jogar sobre os jogadores brasileiros uma culpa moral que não explica nada.





