A esquerda petista está tão empenhada em impedir a vitória de Flávio Bolsonaro que já começa a considerar uma aliança com um político de extrema direita que defende um programa mais fascista que o do próprio bolsonarismo. O escolhido é Renan Santos, fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), organização que liderou a campanha pelo golpe de Estado contra Dilma Rousseff. Aparentemente, para certos setores da esquerda, qualquer um pode ser considerado um aliado para eleger Lula (e esse é o objetivo, não a luta contra o fascismo).
Nesta sexta-feira (9), Marco Damiani, editor especial do Brasil 247, publicou o artigo Renan quer apoiar Lula. Qual o problema em aceitar a oferta do candidato que teve 2.675.887 votos?. Nele, defende que o PT procure Santos, candidato derrotado à Presidência pelo Missão, para negociar seu apoio no segundo turno.
O argumento é exclusivamente eleitoral. Damiani observa que Renan recebeu 2.675.887 votos, enquanto a diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula no primeiro turno foi de 2.224.965. Com isso, conclui que o dirigente do MBL teria votos suficientes para alterar a situação eleitoral. Como se os eleitores de Renan fossem propriedade particular de seu candidato e pudessem ser entregues ao PT mediante uma negociação.
O articulista reclama que ninguém da campanha petista tomou a iniciativa de procurar o fundador do MBL. Chega a apresentar o eventual apoio como uma oportunidade política que Lula estaria desperdiçando. Para justificar a operação, escreve:
“Está na hora de o PT romper com antigos dogmas. Da cúpula à militância, o partido precisa entender, neste momento dramático e, de preferência, de uma vez por todas, que simplesmente não detém a hegemonia política sobre a sociedade brasileira. A importância de compor com quadros que, em tese, situam-se à direita da agremiação é vital.”
A formulação é reveladora. A resistência a incorporar um dirigente de extrema direita à campanha presidencial é tratada como um dogma ultrapassado. O que importa não são as ideias defendidas pelo candidato, mas a quantidade de votos que ele pode trazer.
Mas também é muita ingenuidade acreditar que o PT é um partido que não está disposto a fazer os negócios mais espúrios para vencer uma eleição. É exatamente o contrário: até Armínio Fraga e Pedro Malan estão na frente ampla do PT, eles que são os gurus intelectuais do MBL. Um partido que cogita Alckmin para o Ministério da Fazenda não tem nada contra se aliar com o MBL, o único empecilho seria perder votos com isso, pois o objetivo total do PT é vencer a eleição, custe o que custar.
Um neoliberal a serviço do grande capital
Renan Santos surgiu na política como um fantoche dos capitalistas. Sua carreira está diretamente ligada à formação de uma direita neoliberal, organizada para combater os direitos trabalhistas, defender privatizações e promover os interesses dos grandes empresários. Fundamentalmente, para destruir o próprio PT.
O MBL surgiu em 2014, no ambiente das organizações liberais ligadas à rede internacional Students for Liberty. Essa rede recebeu apoio financeiro de fundações vinculadas a grandes capitalistas norte-americanos, incluindo os irmãos Charles e David Koch, bilionários do setor petrolífero. A relação entre a formação do MBL e esses institutos mostra a influência do grande capital internacional sobre a organização política da direita brasileira.
O movimento ganhou projeção nacional durante a ofensiva contra Dilma Rousseff. Em 2015 e 2016, seus dirigentes organizaram manifestações pelo impeachment da presidente petista, ao lado do PSDB e outras organizações da direita, quase todas incorporadas à frente ampla de Lula. Após a derrubada de Dilma, o MBL continuou defendendo reformas neoliberais e ataques aos trabalhadores.
Renan Santos manteve essa orientação em sua campanha presidencial. Defendeu medidas de redução dos gastos públicos, flexibilização das relações de trabalho e ampliação da liberdade dos empresários de explorar os trabalhadores. Trata-se de um programa destinado a retirar obstáculos à exploração capitalista.
Se tivesse uma base eleitoral mais ampla, um político com esse programa seria um candidato perfeitamente aceitável para importantes setores do capital financeiro. Ele é um sugar baby de banqueiro. O problema de Renan, do ponto de vista desses interesses, não está em suas propostas econômicas, mas em sua reduzida força eleitoral diante das candidaturas maiores.
Sua política para a segurança pública é particularmente significativa. No lançamento da candidatura, Renan declarou: “nós vamos matar quem roubar”. A promessa de resolver a criminalidade por meio da eliminação física de criminosos foi uma das expressões de sua campanha.
O candidato procurou conquistar apoio do eleitorado bolsonarista por meio de uma política de repressão policial aberta, dirigida principalmente contra a população pobre, que já sofre com a violência sistemática das forças de segurança. Em vez de enfrentar as condições sociais que produzem a criminalidade, apresentou a violência estatal como solução.
Em julho, Renan Santos publicou um vídeo cujo título era Foi assim que o Lula e o PT destruíram a minha vida. “Eu quero não apenas derrotar o PT nas ruas. Eu quero derrotar o PT nas urnas. Eu quero eliminar o PT da história do Brasil”, disse na peça. No mesmo vídeo, Renan afirmou que o PT havia destruído sua vida três vezes e apresentou a derrota do partido como uma vingança pessoal.
Outras declarações documentadas de Renan incluem chamar Lula de “cachaceiro senil”, em 1º de agosto, e de “maldito” e “bêbado”, em 16 de agosto. Também chamou os participantes de um ato petista de “zumbis”.
No entanto, o fascismo explícito de Renan Santos aparentemente deixou de ser um problema para os objetivos eleitoreiros dos craqueiros do PT. O mesmo político que defendeu uma repressão ainda mais brutal e é abertamente antipetista pode ser recebido como integrante da frente “democrática”.
A esquerda procura sinais até nas cortinas
A procura petista pelo apoio do MBL produziu situações que beiram o cômico. Na terça-feira (6), Renan Santos publicou um vídeo mostrando as cortinas vermelhas que havia instalado em seu apartamento. Explicou que escolhera a cor para bloquear a luz do sol e conseguir dormir até mais tarde.
O esclarecimento não impediu que internautas começassem a procurar sinais de uma possível adesão à candidatura petista. No dia seguinte, o ex-candidato exibiu um tapete vermelho comprado em um antiquário. Segundo ele, a peça havia sido fabricada em 1822.
A data também foi transformada em mensagem eleitoral. Um internauta somou 1, 8, 2 e 2, chegando ao número 13, o número de Lula. A especulação foi noticiada pelo Congresso em Foco, que reuniu as interpretações mais bizarras feitas nas redes sociais.
Renan respondeu que sua posição sobre o segundo turno não havia mudado. Declarou estar acompanhando os esforços do bolsonarismo e do petismo para conquistar seus eleitores e afirmou considerar toda a movimentação divertida. Em outra manifestação, chegou a dizer que odiava o PT.
Mesmo sem qualquer anúncio de apoio, começaram a circular peças de propaganda destinadas a convencer os eleitores do Missão/MBL a votar em Lula.
Uma publicação no Instagram apresentou o lema Quem escolheu 14, vota 13!. Em uma sequência de imagens, os responsáveis compararam propostas dos programas de Renan e Lula para defender a existência de pontos em comum entre os dois candidatos, o que revela o nível de direitização da campanha do PT.
Na educação, aproximaram as propostas para melhorar o ensino de português e matemática e enfrentar os problemas da aprendizagem. Na saúde, compararam os planos de informatização dos prontuários dos pacientes. Também apresentaram propostas sobre desenvolvimento industrial do Nordeste, fiscalização das fronteiras, combate ao financiamento do crime organizado e aproveitamento dos recursos minerais brasileiros.
A última comparação chega a apresentar os dois candidatos como adversários da entrega das riquezas nacionais aos Estados Unidos. O MBL, que foi criado pelos grandes capitalistas norte-americanos para entregar a economia brasileira ao imperialismo, seria nacionalista!
Outra publicação, de Jorge Vinício, procura convencer eleitores de direita de que não precisam apoiar a família Bolsonaro. Recorda que José Alencar, vice-presidente do primeiro governo Lula, pertencia ao PL e que a Bolsa de Valores alcançou níveis elevados durante os governos petistas. Ou seja, o que importa é se eleger, mesmo que se entregue o governo à Bolsa.
Nesse caso, o argumento em favor de Lula é ainda mais significativo: apresenta-se o presidente como um governante capaz de oferecer bons negócios aos capitalistas. A campanha, que deveria representar os interesses dos trabalhadores, procura conquistar a direita garantindo a ela que Lula vai entregar o País aos capitalistas.
A frente ampla não tem limites
A disposição de fazer alianças com a direita não é uma novidade. Em 2022, Lula escolheu Geraldo Alckmin como vice-presidente, apesar de toda a trajetória do antigo dirigente do PSDB. Alckmin havia governado São Paulo por anos a fio, privatizado a Eletropaulo, rodovias, parques e serviços, reprimido greves do funcionalismo, atacado os pobres moradores do Pinheirinho e descido a lenha nos manifestantes de 2013, possibilitando que a direita tomasse conta do movimento que deu origem ao próprio MBL e ao golpe contra Dilma.
A escolha foi justificada pela necessidade de derrotar Jair Bolsonaro. Depois da eleição, Alckmin tornou-se vice-presidente e ministro, enquanto representantes de outros partidos burgueses receberam cargos importantes no governo.
Agora, a mesma justificativa começa a ser aplicada ao MBL, uma organização que se destacou justamente por sua participação na derrubada de Dilma Rousseff.
O mais extraordinário é que Renan Santos não precisou renunciar a suas posições políticas. Sua oposição ao bolsonarismo é uma disputa entre setores da direita, interessados em conquistar o mesmo eleitorado. O MBL pretende ocupar o espaço político controlado pela família Bolsonaro, apresentando-se como uma alternativa dentro do próprio campo conservador.
Em declarações recentes, Renan admitiu conversar com pessoas da esquerda dispostas a reconsiderar posições que ele considera exageradas. Não anunciou uma mudança de programa, tampouco uma adesão ao PT. A possibilidade de aproximação, por enquanto, parte principalmente dos setores que desejam atrair seus eleitores.
É justamente isso que torna a situação reveladora. Os defensores da frente ampla estão dispostos a se entregar nos braços do MBL.
A política chamada de antifascista transforma-se em uma disputa para reunir a maior quantidade possível do pior banditismo político nacional contra Flávio Bolsonaro. Se um representante da extrema direita está contra Flávio, pode ser aceito. Se amanhã Jair Bolsonaro rompesse com o filho, a mesma argumentação poderia ser utilizada para justificar até uma aliança com o próprio ex-presidente.
A preservação dos cargos substitui qualquer princípio
O comportamento desses setores da esquerda é inseparável de sua adaptação ao Estado burguês. A disputa eleitoral deixou de ser um meio de apresentar um programa político e passou a girar em torno da ocupação de ministérios, secretarias, gabinetes e demais posições dentro da máquina estatal.
Para os dirigentes que fizeram carreira nesse sistema, uma derrota eleitoral significa perder acesso a cargos, recursos e influência. É essa dependência que ajuda a explicar a disposição de aceitar praticamente qualquer aliança em nome da vitória.
A política da frente ampla também tem consequências sobre o governo. Quanto mais representantes da direita são incorporados, maior é o peso dos interesses capitalistas sobre suas decisões. O resultado aparece nas concessões aos bancos, na contenção dos gastos sociais e nas dificuldades para atender às reivindicações da população trabalhadora.
O que deveria distinguir uma organização de esquerda não é simplesmente sua disposição de derrotar determinado candidato, mas o programa que apresenta e os interesses sociais que defende. Se qualquer representante da burguesia pode participar da mesma aliança, desde que contribua com votos, o programa dos trabalhadores acaba subordinado às necessidades eleitorais de seus adversários.





