O jornalista Felipe Pena encontrou uma explicação para a derrota de Lula no primeiro turno e uma fórmula para sua vitória no segundo. Na verdade, encontrou várias. Em vídeo publicado pela revista Fórum, o professor apresenta uma coleção de argumentos que vão desde a suposta falta de campanha do presidente até uma mudança de sorte que começaria no dia de Nossa Senhora Aparecida. Depois de errar suas previsões para 4 de outubro, continua convencido de que Lula vencerá Flávio Bolsonaro no próximo dia 25.
A análise absolutamente irreal chama atenção porque o primeiro turno não deixou dúvidas sobre o tamanho do problema. Flávio recebeu 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos válidos. Lula ficou com 53,9 milhões, correspondentes a 45,16%. São mais de 2,2 milhões de votos de diferença. Comparado com 2022, o presidente perdeu 3,38 milhões de eleitores depois de quatro anos de governo. O resultado, porém, parece ter provocado em seus defensores uma necessidade ainda maior do cachimbo da paz.
Felipe Pena começa explicando por que errou. O Datafolha indicava um empate em São Paulo e uma vitória de Lula em Minas Gerais. O jornalista chegou a imaginar que o presidente poderia liquidar a disputa já no primeiro turno. Aconteceu o contrário: Flávio venceu nos dois estados, abriu 14 pontos de vantagem em São Paulo e terminou nacionalmente à frente. Segundo Pena, o erro decorreu de uma migração antecipada dos eleitores de outros candidatos para o bolsonarismo.
A conclusão que tira daí é extraordinária:
“Então, se a migração de votos já aconteceu, não tem mais voto para chegar até ele.”
Como demonstração, cita Renan Santos, candidato do Missão que declarou não votar em Flávio Bolsonaro. Mas Renan não é dono dos votos que recebeu, assim como nenhum candidato é. Os demais concorrentes também tiveram milhões de votos, que não desapareceram na apuração de domingo. Para piorar a tese do jornalista, Augusto Cury, terceiro colocado, com aproximadamente 3,4 milhões de votos, anunciou em 8 de outubro apoio a Flávio. Nada assegura que esse eleitorado seguirá sua indicação, mas o acontecimento desmente a ideia de que o candidato do PL já teria esgotado suas possibilidades de receber novos apoios.
A segunda explicação é que Lula teria perdido porque, segundo Pena, “não houve campanha”. Flávio Bolsonaro teria conseguido impor os assuntos debatidos pela população, especialmente a crise do Supremo Tribunal Federal desencadeada pelas revelações do ministro André Mendonça sobre o caso Banco Master. O presidente, afirma, só recuperou a iniciativa quando propôs proibir as apostas eletrônicas, o que na verdade tirou votos de Lula.
É uma maneira engenhosa de absolver o governo. Lula dispõe da Presidência da República, da máquina federal, de ministros, de alianças com grandes empresários e de uma extensa rede de organizações políticas. Passou quatro anos governando com Geraldo Alckmin e negociando com os partidos da direita. Mas, para Pena, o problema teria sido a habilidade do adversário em escolher os temas discutidos na campanha. A política do governo praticamente desaparece da explicação.
A esperança seguinte está nos debates televisivos, nos quais Flávio seria obrigado a responder a acusações envolvendo rachadinhas, imóveis e outros assuntos. Pena acrescenta que seria necessário denunciar o perigo de uma ditadura fascista, comparando o momento atual com a crise capitalista que antecedeu a ascensão de Hitler. É a conhecida chantagem eleitoral: se o governo não consegue conquistar os trabalhadores pelo que fez, deve convencê-los de que a vitória adversária representará o fim do mundo.
O professor ainda apresenta um calendário bastante preciso para a recuperação petista. A mudança começaria em 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, e ganharia impulso em 19 de outubro, quando os beneficiários do Bolsa Família começariam a receber o reajuste anunciado pelo governo. Pena não demonstra por que a data religiosa produziria uma alteração na disputa. Quanto ao benefício, Lula o manteve sem reajuste do valor básico durante três anos e só anunciou o aumento às vésperas das eleições. É nessa medida eleitoreira que seus defensores depositam agora uma parte importante de suas esperanças, comprando voto dos pobres e os tratando como gado.
O curioso é que Pena não está sozinho. A derrota desencadeou uma verdadeira corrida entre comentaristas e militantes petistas para chegar ao seu Eldorado, a Cracolândia eleitoral. Cada pesquisa é examinada como se escondesse algum segredo que, uma vez revelado, garantisse a reeleição do presidente. É uma viagem completa.
Um comentarista apresentou a pesquisa PoderData/Aya, divulgada em 8 de outubro, que mostrou Flávio com 53% dos votos válidos e Lula com 47%. Admitiu a dificuldade, mas imediatamente tranquilizou os seguidores:
“Se tivesse aparecido o resultado de 55 a 45, aí dava para assustar.”
Depois comparou a eleição com uma partida de futebol em que um time perde por 2 a 0, mas ainda pode virar. O placar desfavorável se transformou em combustível para o entusiasmo. O argumento político foi substituído pela lembrança de que, no futebol, algumas equipes conseguem recuperar uma desvantagem.
A matemática eleitoral também virou uma indústria de descobertas. Um dos vídeos apresenta uma conta: a vantagem de pouco mais de 2,2 milhões de votos de Flávio, dividida pelas quase 500 mil urnas brasileiras, equivale a menos de cinco votos por urna. O narrador trata o resultado como se tivesse descoberto uma maneira de reduzir a derrota petista.
O “vira voto” não sai da cabeça alucinada desses petistas. Parecem zumbis sonhando com os esquemas mais irreais que ajudariam a burocracia do PT e da frente ampla a se manter em seus cargos governamentais.
A conta deu origem à divulgação da plataforma Dá pra virar, que reúne mapas, simulações, informações eleitorais e orientações para militantes. Uma de suas propostas é a chamada “regra dos três”: cada apoiador deve procurar três pessoas que deixaram de votar, escolheram outros candidatos ou estariam dispostas a conversar sobre a eleição. A iniciativa organiza uma atividade real de campanha, mas seus divulgadores apresentam a operação como se a simples multiplicação desses contatos fosse capaz de resolver a crise eleitoral do PT.
O Brasil de Fato publicou em 8 de outubro uma reportagem sobre outro instrumento, elaborado pela Estel Tecnologia, que aponta 1.592 municípios com maior potencial de conquista de votos para Lula. O estudo utiliza dados eleitorais, informações demográficas e pesquisas para estimar onde o trabalho de campanha exigiria menor esforço. São projeções estatísticas, não votos já conquistados. O próprio Rafael da Guia, responsável pelo levantamento, reconheceu que a simples mobilização dos eleitores, sem considerar suas preferências, poderia até produzir um resultado contrário ao desejado.
Há ainda os 33,4 milhões de eleitores que não compareceram às urnas, número destacado pela BBC News Brasil em reportagem de 7 de outubro. Os petistas tratam frequentemente essa população como uma espécie de reserva eleitoral escondida. Bastaria tirá-la de casa para recuperar os milhões de votos perdidos. Mas a abstenção não constitui um partido político. Entre os ausentes há pessoas com preferências muito diferentes, inclusive adversários do governo e trabalhadores descontentes com ambos os candidatos. Não existe razão para considerar que pertencem antecipadamente a Lula.
O deputado André Janones também entrou na operação de salvamento. Em reportagem publicada pelo Política Livre, a partir de informações da Folha de S.Paulo, anunciou ter reunido mais de 1 milhão de integrantes em seu canal de WhatsApp, denominado Exército do Lula. Pretende chegar a 2 milhões ou 3 milhões, distribuindo tarefas e coordenando a publicação de mensagens. É uma tentativa de compensar com propaganda digital a perda de apoio registrada nas urnas, tocando o berrante para a militância da pequena burguesia segui-lo na tentativa de ampliar a compra de votos dos pobres.
Janones acredita que o presidente precisa mudar sua apresentação ao público. Em lugar de aparecer chegando de helicóptero a compromissos políticos, deveria ser filmado tomando café, visitando moradores e sentado na calçada, com vídeos produzidos até por um celular velho. Uma boa solução para um problema de fotografia. Resta explicar como a substituição do helicóptero pela cadeira de plástico alteraria os salários, as aposentadorias, o endividamento e as condições de vida dos trabalhadores.
A mesma dificuldade aparece numa publicação do perfil @dougxmorais, que reproduz uma análise de @chapfabio. A proposta é tirar os eleitores petistas da “melancolia”, mobilizando-os não apenas pelo medo do bolsonarismo, mas pelo entusiasmo diante de um suposto projeto de transformação estrutural da sociedade. A recomendação seria compreensível se viesse acompanhada da explicação de qual transformação Lula pretende realizar depois de quatro anos subordinando seu governo às alianças com a direita e aos interesses do grande capital e dando claros indícios de que se for reeleito essa política será ampliada.
Em todos esses casos, aparece uma preocupação obsessiva com os mecanismos da eleição. A propaganda deve ser mais agressiva, o presidente precisa parecer mais próximo do povo, as pesquisas devem ser interpretadas com otimismo, os ausentes precisam ser procurados e cada militante deve multiplicar os contatos. A pergunta sobre o que o governo ofereceu concretamente à classe trabalhadora é substituída por uma discussão interminável sobre métodos de manipulação do eleitorado.
É essa a Cracolândia que os petistas parecem ter invadido. São os craqueiros eleitorais, intoxicados pela disputa por cargos. A eleição virou um vício que não conseguem abandonar. Se uma pesquisa contraria suas expectativas, procuram outra; se a votação mostra uma derrota, recorrem à calculadora; se falta entusiasmo, inventam uma corrente; se o governo perde apoio popular, basta trocar o helicóptero por uma conversa na calçada.
O desespero tem uma explicação política. Para os setores da esquerda completamente adaptados ao regime político, vencer eleições tornou-se mais importante que organizar os trabalhadores. Aceitam alianças com a direita, abandonam reivindicações populares, apoiam a repressão contra adversários e subordinam toda a atividade política à conquista de mandatos. Quando essa orientação fracassa, não procuram uma política diferente. Intensificam a propaganda para tentar vender novamente o mesmo produto.
O PT passou quatro anos no governo e perdeu milhões de votos. A política de frente ampla não impediu o fortalecimento do bolsonarismo, que terminou o primeiro turno à frente do presidente. Os craqueiros eleitorais procuram agora a próxima dose de esperança nas pesquisas, nas redes sociais e nas promessas dos especialistas. Enquanto discutem quantos votos cabem em cada urna, deixam de lado a questão que explica a situação do governo: o afastamento de milhões de trabalhadores após quatro anos de colaboração total com a burguesia.





