Uma reportagem publicada pelo jornalista Kaique Dalapola no Instagram analisou as propostas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelos 198 candidatos aos governos dos 26 estados e do Distrito Federal. Entre todos eles, somente os postulantes do Partido da Causa Operária (PCO) citam diretamente as “torcidas organizadas” em seus planos.
O resultado é significativo diante da perseguição sofrida pelos torcedores nos estádios. Reconhecimento facial, torcida única, violência policial, proibição de instrumentos, ingressos cada vez mais caros e outras restrições avançam pelo País. Mesmo assim, praticamente toda a política eleitoral ignora aqueles que estão diretamente submetidos a essas medidas.
O PCO apresenta uma posição oposta: exige o fim da perseguição às organizadas e propõe o controle dos clubes pelos próprios torcedores e trabalhadores do setor.
Dalapola entrevistou Izadora Dias, candidata ao governo de São Paulo, e Henrique Áreas, candidato ao governo de Minas Gerais.
Henrique destacou o preço dos ingressos como uma das formas de expulsar o público trabalhador dos estádios:
“Ingressos caros são criminosos, e parte da política de deixar o povo de fora dos estádios”.
Para o candidato mineiro, a redução dos preços é necessária para devolver as arquibancadas ao público popular, progressivamente afastado pela transformação do futebol em um negócio voltado para consumidores de maior renda.
Izadora chamou a atenção para a repressão:
“O PCO defende o fim da polícia e a sua substituição por órgãos de segurança eleitos pelo povo”.
A candidata explicou que a segurança deve ficar sob controle da própria população organizada, inclusive dos torcedores, em vez de permanecer nas mãos de corporações que atuam constantemente contra eles.
A reportagem comparou essas posições com as dos demais candidatos.
Em Pernambuco, Renan Hallais, do Missão, propõe utilizar câmeras e sistemas de inteligência nos transportes e nos trajetos de acesso aos estádios. Ou seja, diante do problema das arquibancadas, sua resposta é ampliar a vigilância sobre o público.
Há propostas pontuais em outros partidos. No Rio de Janeiro, William Siri, do PSOL, defende recuperar setores populares sem cadeiras atrás dos gols. Na Bahia, Ronaldo Mansur, também do PSOL, inclui em seu plano a adoção do ingresso social.
Nenhum deles, porém, coloca a defesa das organizações dos torcedores.
O ponto aparece explicitamente no programa eleitoral do PCO, como se lê:
Em defesa do futebol, do carnaval e de todas as manifestações da cultura popular
Para a burguesia e a direita e seus partidos, o povo não tem direito à festa, não tem direito à confraternização. Só ao trabalho e à opressão pela corja capitalista.
- Contra a política da direita de atacar sistematicamente todas as manifestações culturais do povo, como o carnaval, o samba e o futebol, garantir os recursos públicos necessários para o acesso à cultura e ao esporte, pondo fim aos monopólios do setor
- Fim da perseguição às torcidas organizadas. Controle dos clubes pelos torcedores e pelos trabalhadores do setor
- Pesados investimentos na cultura popular, patrocínio público das festas populares, sob o controle das organizações populares e dos trabalhadores do setor.
A política inclui ainda o fim da violência policial e do reconhecimento facial, o combate à torcida única, ingressos a preços populares, venda de bebidas nos estádios e liberdade de organização.
Não se trata apenas de uma menção registrada para as eleições. O partido mantém semanalmente, na Causa Operária TV, um programa dedicado ao futebol em que a situação das arquibancadas ocupa lugar permanente. Nele são discutidos a repressão policial, a elitização dos estádios, o preço dos ingressos, as medidas contra as organizadas e o controle dos clubes pelos grandes capitalistas. O nome do programa é “Na Zona do Agrião” e um dos seus apresentadores, há anos, é justamente Henrique Áreas.
O PCO também tem um coletivo que se reuniu em torno do programa e que atualmente edita a revista homônima, da qual Áreas é um dos responsáveis.
Os demais partidos normalmente tratam as organizadas apenas quando querem apresentar seus integrantes como um problema de segurança pública. Quando há uma briga, uma operação policial ou alguma nova proibição, surgem propostas para aumentar câmeras, cadastros, punições e restrições.
O PCO parte do princípio contrário: as organizadas são associações populares e devem possuir plena liberdade para funcionar.
O caso recente da Guarda Popular, do Internacional, mostra a importância desse problema. A torcida foi punida depois de desobedecer à proibição de um cântico contra a Brigada Militar e ficou impedida de utilizar instrumentos no Gre-Nal seguinte. É justamente esse tipo de intervenção que torna insuficiente falar genericamente em direitos do “torcedor” sem defender suas organizações.
O aburguesamento do futebol e a repressão caminham juntas. Os altos preços retiram o trabalhador das arquibancadas, enquanto a polícia e as autoridades procuram controlar aqueles que permanecem organizados.
Daí a relação entre a reivindicação de Henrique Áreas por ingressos baratos e a defesa, feita por Izadora Dias, de acabar com o atual aparato policial.
Entre os 198 candidatos analisados por Dalapola, os do PCO foram os únicos a registrar uma reivindicação direta: “Fim da perseguição às torcidas organizadas”.
A diferença também aparece fora do período eleitoral. Enquanto os demais partidos deixam as torcidas entregues à repressão, o PCO mantém sua defesa como parte de sua política para o futebol e para a cultura popular.




