Polêmica

Palavra não estupra ninguém

Lacombe ataca novamente: uma piada é o começo do estupro

A fraude do “feminismo” identitário, do “antirracismo” identitário e do “antifascimo” de araque é que, dentro dessas ideias, cabe absolutamente qualquer coisa ou pessoa. Em uma análise mais cuidadosa, essas palavras não significam nada por si mesmas. O seu conteúdo real depende daquilo que faz a pessoa que se declara como tal.

É o caso de Milly Lacombe, a “antifascista”, “feminista” e “antirracista” da imprensa burguesa, colunista da Folha de S. Paulo. O problema é que só se pode analisar o que ela fala, pois, na prática, não faz absolutamente nada que possa ser remotamente classificado como de esquerda. Alguém pode ter esquecido, mas ser contratado pelos órgãos ideológicos da burguesia, os jornais, transforma a pessoa em agente do regime.

Lacombe exagera nos termos e nas “falas” porque esse é o máximo que consegue fazer para esconder sua própria adaptação ao sistema. Em publicação recente, apresentou a seguinte tese:

“Vc sabe quando o estpr começa? Vc sabe a estrutura da cadeia do estpr? Vem de cards.”

Segundo ela, o estupro começaria com “comentário sobre o corpo da mulher”, “piada que objetifica”, “fala racista que coisifica”.

Ou seja, qualquer comentário sobre o corpo de uma mulher seria indevido e deveria ser censurado. A piada transformaria automaticamente a mulher em objeto. A fala racista, por mágica, transformaria o negro em uma coisa. Tudo o que se pensa ou se diz passaria a produzir imediatamente a realidade. Com a devida licença para um comentário sobre as ideias de Lacombe, já que ninguém terá a menor vontade de comentar sobre seu corpo: é uma maluca.

No plano do pensamento e da expressão cabe qualquer coisa. Por isso, no passo seguinte, Lacombe afirma que o caminho para o estupro passa por frases como “não vai sair com essa roupa” ou “acho que você engordou”. Isso, para ela, seria uma forma de controle.

Pela lógica apresentada, esses dois comentários levariam ao estupro. Releiam as aspas acima: se algum dia você disse isso a alguma mulher, então você estuprou ou irá estuprar alguém. Basta pensar: “estuprador é você”. Pronto, passa a ser verdade.

No card seguinte, Lacombe afirma que o estupro “começa no silêncio. na interrupção da voz. na proteção do amigo abusador”.

O DOPS de esquerda da Folha de S. Paulo prossegue dizendo que piada machista, racista e homofóbica também seria parte do caminho para o estupro. É mentira, como todo mundo sabe. Piada é dizer algo. Se dizer fizesse automaticamente alguma coisa acontecer, todos teriam ótimos dias e ótimas noites com as dezenas de mensagens de bom dia e boa noite recebidas todos os dias. Fazer ou não piada não muda, por si só, a vida de um negro, de um homossexual ou de uma mulher.

No próximo slide, aparece a tese de que “o estupro começa na ridicularização do que é associado ao universo feminino”. Mas e se o chamado universo feminino for ridículo na opinião de alguém? Há gays que consideram ridículos certos aspectos da vida feminina, e há mulheres que fazem o mesmo em relação a homens ou gays. Isso seria o caminho do estupro? Caminho do estupro de quem? Não é nada disso. É apenas uma opinião.

“Estupro começa na piada sobre estupro”, diz Lacombe. Então, qualquer coisa começaria na piada sobre qualquer coisa. A luz elétrica teria começado na piada sobre a luz elétrica. Jesus Cristo voltaria na piada sobre Jesus Cristo.

Lacombe também afirma que o estupro começa na “fixação nos papéis de gênero”. Cita frases como “isso é coisa de menino” ou “isso é coisa de menina”. A solução, então, seria trocar os termos na hora de falar e, pronto, o estupro acabaria.

A coisa fica ainda mais absurda quando Lacombe diz que o estupro começa com a “invasão digital”, “No envio do nude não solicitado”. Alguém poderia perguntar que nude foi enviado para Lacombe, ou em que século isso aconteceu. Também caberia perguntar quem, de fato, se incomoda com isso em uma época em que a nudez total ou parcial está a um clique de distância. Hoje em dia, nem uma freira consegue passar ilesa por uma nudezinha na internet.

Quem pensa essas coisas, como já dito nesta polêmica, é meio maluco. Lacombe, naturalmente, acha que chamar uma mulher de louca é parte do caminho para o estupro. Mas, quando a mulher é realmente maluca, o que fazer? Quando mulheres brigam, não é raro uma chamar a outra de louca. Nesse caso, quem irá estuprar quem?

No slide seguinte, o estupro, segundo Lacombe, começa “nos espaços de poder. quando as mulheres são sexualizadas”. O sexo pode ser algo esquecido na mente de algumas pessoas, algo empoeirado e broxado. Para o restante da humanidade, no entanto, é algo comum. Em ambientes de trabalho, homens pensam em sexo, e mulheres também. Quantos relacionamentos não começaram no trabalho? Todos resultaram em estupro? Evidentemente que não.

Talvez um dos cards esteja parcialmente certo: “Estupro é invadir o corpo de uma outra pessoa sem consentimento”. Parcialmente porque “invadir o corpo” parece uma expressão alienígena ou sobrenatural. O Código Penal define estupro nos seguintes termos:

“Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.”

Note-se que a lei fala em “alguém”, e não exatamente em “a mulher”. Já em 1940, portanto, o crime não era tratado como um problema exclusivamente feminino, como de fato não é.

O card seguinte, em tom de Guerra dos Mundos, diz que “estupro é tomar o corpo da outra pessoa como território a ser ocupado”. Apesar do tom dramático e bélico, a satisfação em uma relação sexual comum, descrita por ela como “ocupação de território”, tende a ser recíproca.

Depois, vem a fórmula: “Estupro não é sobre sexo, é gesto de poder. Não tem a ver com tesão. É sempre sobre dominação”. Ora, estupro é uma relação de força. Se não fosse, seria consensual. Não há grande descoberta nisso.

Depois de toda essa sequência, Lacombe chega à conclusão que pretendia desde o início: “mais crimes sexuais. Estupros coletivos. Feminicídios”. Em seguida, lança a chantagem: “Essa é a cadeia do estupro. Você faz parte dela?”

Mas é evidente que nada do que ela listou leva necessariamente a feminicídios ou crimes sexuais. A conclusão é idiota, no sentido clássico da palavra: não tem lógica, nem o menor rastro de racionalidade. Ao final, ainda aparece a chantagem rasteira do “você faz parte dela?”, uma tentativa fracassada e vergonhosa de impor uma culpa artificial a quem fez uma piada ou comentário.

O que Lacombe não diz expressamente precisa ser dito: ela quer combater o estupro por meio da censura. É só isso. Em sua cabeça, como tudo seria fruto do poder da mente, bastaria impedir que certas ideias fossem expressas para que o estupro acabasse. Bastaria não falar.

A censura viria do Estado, como toda censura. Com o tempo, ela se transformaria em autocensura. É o mesmo método dos militares. A diferença é que a censura da ditadura não impediu o regime militar de ruir, assim como a censura do bem de Lacombe não acabará com o estupro.

O problema real está em outro lugar. A situação social da mulher é que dá vazão ao estupro e à violência: suas condições de vida, seus direitos, seu poder de compra, seu salário, a proibição do aborto e a opressão cotidiana. São essas condições concretas, materiais, que resultam na violência contra as mulheres.

Todo o falatório de Lacombe, por outro lado, é apenas subjetivismo. É uma reflexão diante do espelho, feita para agradar a si própria. Lacombe é militante de si mesma, defende apenas seus próprios interesses.

Em sua fala, não há uma única proposta de luta para as mulheres. Não há proposta de organização, mobilização ou enfrentamento real. Na prática, seu discurso é dirigido aos homens: eles é que deveriam tomar consciência, vigiar a linguagem, controlar as piadas, policiar os comentários. As mulheres, na tese lacombiana, ficam reduzidas a um papel passivo em sua própria libertação. Nesses termos, é claro que essa libertação nunca virá.

A violência não termina com a simples consciência da violência. A violência termina com outra violência ou com a ameaça concreta de seu exercício. Os palestinos e o Hamas colocaram essa tese em prática, e ela está dando certo. A mulher precisa ter meios para se defender e para exercer, ela mesma, a força diante de qualquer ameaça. Esse é o debate colocado: o armamento do povo, o direito de autodefesa e a organização independente dos explorados e oprimidos. É justamente essa discussão que os identitários rejeitam.

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