José Álvaro Cardoso

Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Economia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Ciências Humanas pela UFSC. Trabalha no DIEESE.

Coluna

Os EUA cometem seu mais grave erro geopolítico. E não devem ser interrompidos

Um dos maiores trunfos do Irã na guerra, que está no centro da estratégia do governo persa, é a capacidade de pressão sobre a economia internacional

O cenário geopolítico global em 2026 reflete a sobreposição crítica de três teatros operacionais interdependentes: a conflagração direta entre os Estados Unidos e o Irã, as operações de alta intensidade de Israel contra o Líbano (e o eixo de resistência regional) e a guerra de atrito entre a Federação Russa e a Ucrânia no Leste Europeu. A dinâmica da guerra contemporânea não se caracteriza por episódios isolados, mas por um sistema articulado de desgaste mútuo, em que as decisões estratégicas em uma frente impõem restrições logísticas, econômicas e políticas imediatas às demais. Os EUA estão pagando um alto preço por ignorar, ou subestimar, esse fato.

No Irã, há um novo ciclo de escalada do conflito: em 30 de agosto, forças americanas bombardearam lançadores e infraestruturas da Guarda Revolucionária Islâmica, na Ilha de Larak; Teerã respondeu, no dia seguinte, com salvas de mísseis balísticos contra as bases aéreas de King Hussein e Muwaffaq Salti, na Jordânia (bases aéreas jordanianas que hospedam forças dos EUA sob acordos bilaterais), e instalações estratégicas nos Emirados Árabes Unidos. Em seguida, em 1º de setembro, os EUA conduziram bombardeios maciços, seguidos de novas retaliações iranianas nos dias subsequentes. Na Europa, a guerra entre a Federação Russa e a Ucrânia atinge a marca de 1.657 dias de combates contínuos, concentrando o núcleo operacional dos recursos terrestres na batalha final pela região de Donbas, coração industrial do país.

A evolução do posicionamento operacional de Teerã revela uma transição estrutural: a doutrina militar iraniana abandonou o padrão histórico de retaliação proporcional reativa para assumir uma postura de iniciativa ofensiva. No teatro jordaniano, a Base Aérea Muwaffaq Salti, principal polo de desdobramento e apoio tático da Força Aérea dos Estados Unidos na região, tornou-se alvo continuado de centenas de ataques saturantes por drones e mísseis guiados. Na barragem ofensiva executada entre 1º e 2 de setembro, as defesas aéreas jordanianas e ocidentais interceptaram 10 de um total de 13 mísseis balísticos lançados, ou seja, o ataque foi tão volumoso e rápido que sobrecarregou as defesas aéreas. Por isso, três mísseis conseguiram furar o sistema de defesa.

No Estreito de Ormuz, a campanha assimétrica iraniana comprometeu severamente a navegação comercial. Em 16 de abril de 2026, o fluxo comercial havia despencado para apenas dois petroleiros em trânsito diário, mantendo-se em patamares residuais, como no registro de apenas quatro navios mercantes em 4 de setembro de 2026. A campanha intensiva de 39 dias de bombardeios sustentados contra alvos iranianos consumiu parcelas desproporcionais de armamentos de precisão dos EUA. Levantamentos técnicos indicam que serão necessários, no mínimo, três anos de produção fabril ininterrupta para recompor os estoques de mísseis de cruzeiro Tomahawk (TLAM), interceptores Patriot (PAC-3) e munições guiadas de longo alcance. A cadência industrial americana de Tomahawk permanece em aproximadamente 60 mísseis anuais, tornando irrealista a meta declarada pelo Pentágono de elevar a capacidade de aquisição para mais de 1.000 unidades ao ano no curto prazo. Nesta guerra com o Irã, mais do que nunca, o que o governo norte-americano diz e escreve não merece crédito.

O impacto dessas limitações materiais já ressoa na arquitetura da Aliança Atlântica. Chancelarias europeias debatem abertamente o risco iminente de incapacidade industrial e logística dos Estados Unidos de fornecer garantias de reabastecimento militar aos países-membros da OTAN. Em contraste com as deficiências ocidentais de suprimento, o complexo militar-industrial russo expandiu significativamente sua produção: a Federação Russa triplicou a cadência mensal de lançamentos de mísseis balísticos no teatro ucraniano entre abril e julho de 2026 e cumpriu a meta anual de produção dos sistemas hipersônicos Zirkon e dos mísseis Onyx já em agosto de 2026.

Noutra frente, o Estado de Israel opera sob um duplo vetor de pressão: a instabilidade política interna e a condução de campanhas militares simultâneas no front norte. A marcação das eleições legislativas nacionais para 27 de outubro de 2026 constitui o primeiro escrutínio popular desde os ataques de 7 de outubro de 2023, configurando um plebiscito direto sobre a permanência política e o legado de Benjamin Netanyahu. Pesquisas eleitorais consolidadas no início de setembro apontam um empate técnico entre governo e oposição. Em caso de derrota, um dos riscos que Netanyahu corre é o de prisão, já que seu julgamento por acusações de corrupção só não avançou até a sentença porque ele é primeiro-ministro. A guerra é usada, inclusive, como pretexto para não julgar o primeiro-ministro.

No Líbano, as Forças de Defesa de Israel (FDI) intensificaram bombardeios sobre Beirute em ciclos sucessivos ao longo de março, maio e junho de 2026, atingindo bairros densamente povoados e áreas centrais antes tidas como zonas de exclusão tática. As operações geraram atritos públicos com a administração Trump, que demandou expressamente a suspensão de incursões aéreas diretas à capital libanesa para evitar uma deflagração regional incontrolável que atraísse forças norte-americanas de modo definitivo. Esse comportamento reforça a interpretação de que os ataques a Beirute são manobras de provocação calculada pelo gabinete israelense para forçar o engajamento pleno do poder aéreo dos EUA no conflito.

Subjacente à instabilidade convencional, permanece o fator da dissuasão atômica. Estimativas independentes atribuem a Israel um arsenal não declarado de aproximadamente 90 ogivas nucleares operacionais. O país mantém-se à margem do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), o acordo de 1968 que obriga os signatários não nucleares a abrir suas instalações a salvaguardas internacionais. Trata-se de uma doutrina formal de ambiguidade deliberada. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) só tem jurisdição de inspeção sobre países que assinaram o TNP, e Israel é o único país do Oriente Médio fora do tratado. A existência dessa capacidade estratégica exclusiva no Oriente Médio subsidia as avaliações de analistas internacionais quanto ao risco de recurso a medidas de coação extrema caso a liderança israelense enfrente o colapso simultâneo de suas frentes convencionais de defesa e de sua coalizão doméstica. É chocante que um dos pretextos dos EUA para o criminoso ataque ao Irã tenha sido a existência de enriquecimento atômico no país. Mas é compreensível: a hipocrisia não é um acidente de percurso na guerra imperialista, e sim sua condição estrutural.

Na Ucrânia, o centro de gravidade da campanha militar russa convergiu quase integralmente para o controle dos centros industriais e logísticos de Kramatorsk e Sloviansk, os dois últimos grandes centros urbanos sob domínio ucraniano em Donetsk. Estimativas de inteligência de fontes abertas indicam que mais de 50% de todas as forças de manobra ativas da Federação Russa em território ucraniano estão empenhadas na manobra de cerco a essas cidades. Apesar da concentração maciça de poder de fogo, o ritmo operacional russo permanece marcado pelo desgaste lento de atrito, estimando-se que a conclusão do cerco sobre Kramatorsk e Sloviansk demandará prazos dilatados. Em resposta às dinâmicas diplomáticas de bastidores, a liderança ucraniana estabeleceu um cessar-fogo tático de três dias, com vigência a partir de 5 de setembro de 2026, coincidindo com a chegada de emissários diplomáticos dos Estados Unidos a Moscou para sondagens preliminares.

O atual impasse retoma o histórico frustrado de iniciativas negociadoras. As conversações diretas iniciadas em Istambul, em 29 de março de 2022, chegaram a produzir um documento preliminar contemplando a neutralidade geopolítica de Kiev, o compromisso formal de não adesão à OTAN e garantias mútuas de segurança multilateral com cessar-fogo, mas foram posteriormente abortadas diante da pressão de potências ocidentais e de divergências intransponíveis sobre integridade territorial. De forma similar, os Acordos de Minsk de 2014 e 2015 apenas congelaram a intensidade dos combates na bacia do Donbas sem solucionar as causas estruturais da disputa de segurança europeia, servindo de prelúdio para a conflagração generalizada.

O esforço de sustentar múltiplos compromissos militares externos intensificou as distorções estruturais da economia norte-americana. O orçamento de defesa dos Estados Unidos para o ano fiscal de 2026 (que termina em 30 de setembro) atingiu US$ 1,05 trilhão, montante sem precedentes. No plano internacional, os gastos militares globais alcançaram o recorde histórico de US$ 2,887 trilhões em 2025, marcando o 11º ano consecutivo de expansão. Somente o orçamento dos EUA responde por 36,37% do total de gastos militares globais. É um orçamento surreal, considerando que os EUA estão perdendo em todas as frentes. A Rússia, que está vencendo a guerra na Europa contra a OTAN, tem um orçamento militar de US$ 190 bilhões, apenas cerca de 6,6% do total global. O Irã, que também está ganhando a guerra, tem um orçamento militar equivalente a menos de 2,5% do orçamento de seu agressor. O bloco composto por Estados Unidos, China e Rússia respondeu por 51% dos gastos militares globais em 2025, somando US$ 1,480 trilhão.

Recentemente, o periódico Jerusalém Post defendeu que a guerra com o Irã não poderia ser decidida exclusivamente por bombardeios aéreos, apontando a necessidade de grandes contingentes terrestres e sugerindo a concessão de perdão integral de dívidas a jovens norte-americanos como atrativo para o alistamento. Esse tipo de proposta surge em um momento no qual, segundo o próprio artigo citado, o americano médio entre 18 e 34 anos carrega mais de US$ 40 mil em dívidas não hipotecárias (estudantil + cartão + auto + pessoal). É essa fatia da população que a proposta de “perdão de dívidas em troca de alistamento” miraria. Pela proposta, o alistamento do jovem quitaria saldos devedores de empréstimos educacionais, faturas de cartão de crédito e financiamentos veiculares em troca do serviço militar em zonas de combate ativo.

A agressão ao Irã, um país que nunca atacou um vizinho e vem suportando um bloqueio de 47 anos, talvez tenha sido o maior erro geopolítico dos EUA — que já cometeram muitos. A agressão ao país acelerou a integração logística, energética e financeira entre Teerã, Pequim e Moscou, neutralizando a eficácia de regimes de sanções secundárias impostos pelo Tesouro dos EUA. No plano de cooperação material e bélica, relatórios de inteligência confirmam que empresas e entidades estatais russas e chinesas fornecem assistência direta à indústria de defesa iraniana. Esse fluxo compreende componentes de sensoriamento, microeletrônica, guiagem de mísseis balísticos e suporte de imagens de satélite táticas em tempo real, viabilizando a continuidade da produção militar de Teerã apesar do bloqueio naval ocidental.

Um dos maiores trunfos do Irã na guerra, que está no centro da estratégia do governo persa, é a capacidade de pressão sobre a economia internacional. A combinação entre interrupções na navegação do Estreito de Ormuz e os gastos militares exponenciais transmitiu choques severos para a economia produtiva internacional. O Fundo Monetário Internacional (FMI) rebaixou as projeções para o Produto Interno Bruto global em 2026, alertando formalmente que a persistência do conflito regional e o encarecimento dos transportes marítimos podem desencadear a quinta recessão global generalizada desde 1980.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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