Eleições 2026

Oportunismo sem fim

Marco Damiani propõe uma aliança de Lula com Renan Santos, a quem seu próprio jornal chamou de candidato a ditador. O fundador do MBL nem sequer ofereceu apoio ao PT

Tudo por um voto

Uma cortina vermelha bastou para fazer Marco Damiani esquecer o que o próprio Brasil 247 publicou sobre Renan Santos. Em artigo de 9 de outubro, o jornalista defendeu que a campanha de Lula procurasse o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) para negociar seu apoio no segundo turno. O mesmo jornal denunciou propostas autoritárias e divulgou acusações contra o MBL. Renan obteve 2.675.887 votos. Para Damiani, o número resolve o problema.

O título da coluna publicanda nesta sexta-feira (9) é uma pergunta: Renan quer apoiar Lula. Qual o problema em aceitar a oferta do candidato que teve 2.675.887 votos? A resposta começa com uma pequena confissão: “‘outsider’, arrivista, oportunista, classifique-se como se queira.” Damiani dispensa a discussão porque os votos seriam “a questão central deste momento”. O programa e os antecedentes? Deixa para lá, importa apenas somar votos.

Damiani informa que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno 2.224.965 votos à frente de Lula e calcula apressado que Renan teria uma sobra de 405.922 votos sobre essa diferença. A subtração correta é 450.922. O colunista trata o eleitorado do Missão como propriedade de Renan, que poderia transferi-lo ao PT com uma simples declaração. A realidade é bem outra.

O problema é que Renan Santos não ofereceu o apoio que Damiani quer aceitar. A história nasceu de fotografias de cortinas vermelhas no apartamento do candidato, interpretadas como um aceno ao PT. Mas Renan já havia desmentido a especulação. Segundo reportagem do Estado de Minas publicada em 6 de outubro, declarou: “Eu odeio o PT, eu jamais vou votar no Lula. Isso é só uma cortina.” O fundador do MBL dizia que não apoiaria Lula; três dias depois, Damiani lamentava que a direção petista ainda não tivesse enviado alguém para conversar com ele.

O colunista parece estar em contradição com o próprio jornal. Em 27 de agosto, o Brasil 247 publicou a reportagem Thomas Traumann diz que Renan Santos se apresenta como candidato a ditador: propõe banho de sangue no Brasil. O jornalista criticava a entrevista de Renan ao Jornal Nacional, na qual o candidato defendia medidas extremas de repressão e posições sobre o estado de defesa e o cumprimento de decisões judiciais. Traumann afirmou que Renan se colocara “não a presidente, mas como candidato a ditador”.

No mesmo 27 de agosto, o Brasil 247 publicou Tabata Amaral desmonta Renan Santos: ‘despreza as mulheres’. A deputada direitista denunciava o programa político do MBL e a atuação de Kim Kataguiri. Em outra reportagem, de 18 de agosto, o jornal noticiou que o Ministério Público Federal pedira uma indenização de R$ 500 mil a Renan e ao MBL por declarações ofensivas contra povos índios do Baixo Tapajós.

Em 22 de setembro, o 247 ainda noticiou um documento juntado a inquérito policial que sugeria ligação entre um perfil de apologia ao nazismo e o MBL. Hoje, nenhuma dessas denúncias parece impedir a defesa de um acordo com o dirigente do movimento.

O próprio Damiani, em 3 de agosto, no artigo Chapa Lula-Alckmin baliza a eleição,  incluía Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema entre os “apêndices da extrema-direita”. Como Lula aparecia à frente nas pesquisas daquela ocasião, não existia necessidade de disfarçar a classificação. Depois do resultado do primeiro turno, o apêndice da extrema direita virou possível reforço democrático. O programa de Renan mudou, ou mudou a necessidade eleitoral de Damiani?

Renan é um dos fundadores do MBL, organização que se destacou nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Participou da campanha contra o PT e sustentou a política de ataques aos direitos trabalhistas da direita liberal. Renan não  abandonou essa política. Continua defendendo repressão policial e ataques às garantias trabalhistas. Que acordo programático poderia resultar daí? Damiani não pergunta. Quer apenas que alguém da campanha procure o candidato e lhe ofereça um papel.

A justificativa, segundo Damiani, é que “está na hora de o PT romper com antigos dogmas” e admitir que a composição com quadros à sua direita é “vital para a democracia brasileira”. O articulista chega a reclamar que as portas petistas já se abriram para grupos de esquerda que considera confusos, enquanto representantes da direita enfrentariam desprezo. Em sua concepção, a esquerda própria constitui um incômodo; enquant apresenta o fundador do MBL como uma oportunidade que não pode ser desperdiçada.

Mas qual é exatamente a porta que ainda precisa ser aberta? Lula governa com Geraldo Alckmin, adversário histórico do PT e apoiador da abertura do processo de impeachment de Dilma. Damiani festeja também o apoio de Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido que serviu de base à derrubada da presidente. A frente ampla já incorporou políticos ligados ao golpe de 2016. O que falta agora seria trazer um de seus mais conhecidos agitadores de rua. Para Damiani, a porta está escancarada, mas ainda cabe mais.

Quanto aos trabalhadores, que se virem. Não há no artigo uma exigência de aumento dos salários, de defesa das aposentadorias ou de revogação da reforma trabalhista. Nenhuma condição política é apresentada a Renan. A única pergunta é quantos votos ele poderia acrescentar à candidatura de Lula. Ao transformar eleições numa soma de chefes partidários, Damiani dispensa a discussão sobre o que o governo fez e deixou de fazer para a população que depende de salário e benefícios sociais.

Em vez de atacar as posições liberais de Renan Santos para conseguir mais votos pela esquerda, Damiani prefere o caminho oposto, o de se aproximar do candidato e esperar que o eleitorado o acompanhe. A proposta é se render antes mesmo de saber se receberá algum voto em troca.

A ameaça da vitória de Flávio Bolsonaro faz muita gente rasgar a fantasia. Quem ontem era denunciado como candidato a ditador pode hoje ser tratado como reserva da democracia.

Que tipo de combate ao fascismo é esse que propõe aliança com um suposto fascista? É algo difícil de entender, mas fácil de explicar: a falência da política da esquerda democratizante.

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