O endereço da casa do procurador-geral da República, Paulo Gonet, estava nas conversas de Daniel Vorcaro. Em 10 de dezembro de 2024, Ciro Soares, advogado ligado ao antigo controlador do Banco Master, telefonou para o banqueiro e, logo depois, enviou a localização acompanhada da mensagem: “Endereço do PG”. Três meses mais tarde, o mesmo advogado relatou a Vorcaro que havia participado de um jantar na residência do chefe da Procuradoria-Geral da República (PGR).
As novas revelações ampliam uma série de contatos que já havia aparecido no material extraído do celular de Vorcaro pela Polícia Federal. Gonet havia negado possuir relação de amizade com o banqueiro e afirmado que estivera pessoalmente com ele apenas uma vez, durante um evento patrocinado pelo Master em Londres, em abril de 2024. A fotografia dessa ocasião mostra os dois à mesma mesa, Gonet com um charuto na mão e copos de uísque diante do grupo.
O envio do endereço residencial veio depois de outra tentativa explícita de contato. Em 8 de agosto de 2024, Soares escreveu a Vorcaro: “To com PGR. Me liga aqui. Gonet queria falar com vc”. O banqueiro só respondeu três horas depois: “Que pena. Não vi”.
Em março de 2025, a casa voltou a aparecer nas conversas. Soares disse ao banqueiro: “O jantar ontem foi fantástico na casa do PG. Falamos muito de vc. Que recepção!!! Ele e a família são demais”. Gonet confirmou que o advogado esteve em um evento social em sua residência, acompanhado por outras pessoas, mas negou que o encontro tivesse sido organizado para recebê-lo e reiterou que Vorcaro não estava presente.
O dado novo está no fato de que o endereço circulava entre seus interlocutores e de que Vorcaro era assunto de uma reunião na residência do procurador, segundo mensagem enviada pelo próprio advogado. Isso se soma a uma sequência de comunicações que já tornava difícil reduzir tudo ao encontro casual descrito inicialmente pela PGR.
Em 15 de março de 2025, Soares enviou ao banqueiro uma fotografia ao lado de Gonet e escreveu: “Liga aqui. Ele quer falar com você”. Quatro chamadas foram registradas em seguida. A última, feita do telefone do advogado, durou três minutos e 49 segundos. Duas semanas depois, Soares encaminhou mensagens que atribuiu ao procurador-geral: “Que bom! Estou na torcida por vocês!” e “Já com saudade de você!”. Vorcaro respondeu pedindo que agradecesse “muito o carinho” e acrescentou: “Saudades dele, vamos marcar estar juntos”.
As conversas ainda trataram de uma segunda viagem a Londres. Soares informou que Gonet iria com o grupo e repassou outra mensagem atribuída ao procurador: “Oba!!!! Tomara que tenha charuto e macalan”. Vorcaro respondeu que seria preciso ter “plantação de charuto e barril de macalan”. No dia seguinte, o advogado perguntou se o filho de Gonet também poderia viajar. “Óbvio né”, respondeu o banqueiro. O evento acabou não acontecendo.
A referência ao charuto ganhou outro peso quando apareceu a fotografia de Londres de abril de 2024. A PGR confirmou a autenticidade da imagem em que Gonet está ao lado de Vorcaro durante a confraternização patrocinada pelo Master. O procurador-geral sustentou que aquele foi seu único encontro presencial com o banqueiro e que a fotografia não demonstrava amizade entre os dois. Mas as novas revelações, sobre a tentativa de uma segunda viagem a Londres com seu filho, para nova farra regada a uísque e organizada por Vorcaro, jogam por terra as mentiras de Gonet.
O arquivo de Ciro Soares continha, ainda, diversas fotografias dele próprio com Gonet em encontros fora de Brasília. Em março de 2025, os dois estiveram em eventos durante uma passagem do procurador por Salvador. Outra imagem, de junho de 2024, mostra Gonet, Soares e o desembargador Newton Ramos durante o Fórum Jurídico de Lisboa, organizado por Gilmar Mendes. Segundo as reportagens que tiveram acesso às mensagens, Soares costumava encaminhar a Vorcaro fotografias com autoridades para mostrar a proximidade que mantinha com integrantes do mundo político e jurídico.
A tentativa de investigar a atuação de Gonet no caso Master foi barrada dentro do próprio Ministério Público. Em setembro, o Conselho Superior do MPF rejeitou, por cinco votos a quatro, a abertura de investigação criminal sobre o procurador-geral. A decisão foi tomada antes da divulgação do endereço de sua residência e do relato do jantar. A conselheira Janice Ascari, uma das que votaram pela apuração, defendeu justamente o exame do conjunto de mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro. O voto de minerva, que safou Gonet, foi dado por Nicolao Dino, irmão de Flávio Dino (que é comparsa de Gilmar Mendes, que por sua vez amigão de Gonet há 40 anos).
Desde que o nome de Gonet apareceu no material da Polícia Federal, Gilmar Mendes tomou a frente de sua defesa pública. A relação entre os dois, no entanto, é antiga. Gonet foi sócio de Gilmar no Instituto Brasiliense de Direito Público, atual IDP; ambos são coautores do Curso de Direito Constitucional, cuja 21ª edição saiu em 2026; e Gilmar esteve entre os principais apoiadores da indicação de Gonet para comandar a PGR em 2023. A imprensa registrou à época que o ministro atuou junto ao Palácio do Planalto pela escolha do procurador.
A defesa feita por Gilmar tornou-se mais problemática quando o próprio ministro passou a aparecer nas mensagens do círculo de Vorcaro. Gilmar confirmou que recebeu o banqueiro e advogados do Master em seu gabinete no Supremo em 11 de abril de 2024 para tratar de uma causa bilionária ligada a precatórios do setor sucroalcooleiro.
Outras mensagens mostram Ciro Soares tentando aproximar Vorcaro de Gilmar. Em janeiro de 2024, o advogado orientou o banqueiro a procurar o ministro durante um almoço em homenagem justamente a Gonet: “Procure ele. No meu nome e do Chiquinho Feitosa. GM já está ciente da sua ida”. Meses depois, Soares relatou encontros com Gilmar e Francisco “Chiquinho” Feitosa. Em junho, escreveu a Vorcaro: “O GM queria que vc fosse jantar com ele. Aí fomos só nós quatro”.
Chiquinho Feitosa, então cunhado de Gilmar Mendes, também aparece nas conversas. Mensagens indicam que ele foi contratado por uma empresa ligada a Vorcaro por R$ 500 mil mensais, além de R$ 800 mil no primeiro pagamento, enquanto mantinha conversas com o banqueiro sobre diferentes interesses empresariais.
A situação impede que a defesa de Gonet feita por Gilmar seja apresentada como a palavra de uma autoridade distante do caso. O ministro protege um antigo amigo e ex-sócio, cuja indicação à PGR ajudou a promover, ao mesmo tempo em que ele próprio aparece no conjunto de relações mantidas por Vorcaro e seus intermediários.
A trajetória de Gonet também deixa claro que trata-se de um lavajatista que foi inserido no governo Lula, com apoio de Gilmar Mendes e aceitação total do PT. Como integrante do Ministério Público, ele atuou em processos da Operação Lava Jato no Supremo. Em 2016, defendeu o recebimento da denúncia contra Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo, posteriormente absolvidos, e também sustentou posições da PGR favoráveis à manutenção de prisões preventivas de investigados da operação. Mais tarde, já como procurador-geral do governo Lula, recorreu contra decisões que anulavam ou derrubavam resultados produzidos pela Lava Jato.
O contraste político é direto. O procurador que participou da ofensiva lavajatista agora enfrenta questionamentos baseados em material extraído de um celular apreendido pela Polícia Federal.
Sua defesa procurou reduzir a relação com Vorcaro a um único encontro social em Londres. Depois vieram a fotografia do charuto, as ligações, as mensagens de “saudade”, o convite para outra viagem, o pedido envolvendo seu filho, o endereço de sua casa e o relato de um jantar em que, segundo Ciro Soares, Daniel Vorcaro foi longamente discutido.
É esse conjunto — e não uma fotografia isolada — que torna necessária a apuração das relações entre o procurador-geral e o círculo do Banco Master, mas que, pelo volume de informações, não deixa dúvida sobre a promiscuidade de Gonet com o banqueiro corruptor da República. Em que país do mundo alguém acharia normal o PGR tendo uma relação tão próxima com o banqueiro que comprou a maioria do alto escalão do Estado? Gonet, assim como Moraes, Gilmar Mendes e o STF, deve sair imediatamente. A própria burguesia aponta isso, pois sabe que a manutenção desses indivíduos pode aumentar a crise nos poderes antidemocráticos que são o STF e a PGR, e deslegitimá-los ainda mais.




