Universidade Marxista

O Xá e o partido único

Em 1975, o regime declarou que qualquer opositor seria considerado traidor

Em 1975, o Xá Mohamed Reza Pahlavi anunciou a instauração do sistema de partido único no Irã. A medida representou a confissão aberta do caráter ditatorial do regime, que até aquele momento mantinha uma aparência formal de pluralismo político por meio de partidos satélites. A declaração feita pelo monarca para justificar a medida foi de uma franqueza brutal. Qualquer opositor político, declarou o Xá, deveria ser preso ou expulso do País. Eram tratados pelo regime como traidores que não pertenciam ao Irã.

A Universidade Marxista realizará entre os dias 27 de junho e 5 de julho o curso A história do Irã e da República Islâmica, parte da Universidade de Férias de inverno da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). O período final da ditadura e a cumplicidade do imperialismo com o regime serão objeto de debate em aula pelo ministrante do curso, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República.

A declaração do Xá foi pública e está documentada. “Uma pessoa que não se filie ao novo partido político e não acredite nos três princípios fundamentais a que me referi terá apenas duas opções. Ou é um indivíduo que pertence a uma organização ilegal, ou está relacionado com o Partido Tudeh, considerado fora da lei, ou, em outras palavras, é um traidor. Tal indivíduo deve ser preso numa prisão iraniana ou, se assim o desejar, pode deixar o país amanhã, sem sequer pagar taxas de saída, e ir para onde quiser, porque não é iraniano, não tem pátria e as suas atividades são ilegais e puníveis por lei”.

O partido único como confissão de fraqueza

A instauração do partido único, batizado de Rastakhiz (“Ressurgimento”), foi simultaneamente um endurecimento do regime e uma confissão de sua fraqueza política. Um regime estável não precisa proibir formalmente toda a oposição. Faz isso na prática, mantendo as aparências legais. A medida de 1975 revelou que o Xá já não conseguia mais manter sequer a aparência. A oposição se acumulava em todos os setores. A crise econômica internacional iniciada em 1974 atingia em cheio a economia iraniana. A repressão da SAVAK já não dava conta.

O partido único pretendia organizar politicamente o conjunto da população em torno do regime. Funcionários públicos eram pressionados a se filiar. Trabalhadores eram empurrados para dentro da estrutura partidária do Estado. O resultado foi o oposto do pretendido. A obrigação de filiação aprofundou a alienação política da população em relação ao regime e abriu novos canais de organização da oposição, agora estruturada em torno das mesquitas, dos bazares e das universidades, espaços que o partido único não conseguiu absorver.

A cumplicidade do imperialismo

Apesar das denúncias dos relatórios da Anistia Internacional e da Comissão Internacional de Juristas, apesar dos relatos publicados na imprensa imperialista sobre as torturas da SAVAK, não havia oposição real entre as chamadas “democracias” imperialistas e o regime do Xá. A ditadura iraniana era um regime aliado, instaurado e mantido pela atuação conjunta da CIA e do MI6 britânico, com armamento norte-americano, treinamento sionista e financiamento europeu.

As denúncias feitas pelos órgãos da própria imprensa imperialista cumpriam função distinta da que se pretendia aparentar. Eram em parte autênticas, no sentido de que descreviam fatos reais. Mas seu efeito político era duplo. Por um lado, isolavam a SAVAK como suposto “excesso” do regime, separando-a da estrutura geral da ditadura. Por outro, ocultavam os reais mandantes do regime e a cumplicidade do imperialismo com tudo o que estava sendo denunciado.

A justificativa acadêmica da SAVAK

A produção acadêmica imperialista chegou a justificar diretamente a existência e atuação da SAVAK. Artigos publicados em revistas universitárias apresentavam a polícia política do Xá como um órgão de “contrainteligência” necessário para a estabilidade regional, sem sequer mencionar a prática generalizada de tortura, censura e execuções.

Um oficial não identificado da própria SAVAK declarou à revista Time, em 19 de fevereiro de 1979, dias após a vitória da revolução iraniana: “sobre as acusações contra a SAVAK: admitimos que houve alguns erros no passado. Mas eles foram distorcidos. Diz-se que a SAVAK tem sido brutal. Se a SAVAK recebe informações sobre um grupo terrorista e vamos prender esse grupo, você acha que eles não vão resistir? Claro que vão. A resistência traz violência, e você deve esperar uma resposta semelhante da nossa parte. Somos como a CIA. Se tivermos 10 atividades e nove delas forem bem-sucedidas, apenas o fracasso recebe atenção mundial. Você nunca ouve falar das coisas boas que fazemos. Algumas pessoas acham que, para melhorar o país, precisam de um bode expiatório. Para elas, a SAVAK é o bode expiatório”.

‘Somos como a CIA’

A frase do oficial da Savak é a melhor síntese possível do regime. “Somos como a CIA”. O órgão repressivo iraniano se identificava abertamente com a agência norte-americana, pela qual havia sido treinado. Reivindicava como modelo a mesma agência que, naquele mesmo momento, mantinha ditaduras na América Latina, financiava esquadrões da morte em El Salvador e apoiava o apartheid na África do Sul.

A revolução como resposta histórica

A Revolução Iraniana de 1979 foi a resposta histórica do povo iraniano a esse regime e a seus mandantes imperialistas. Quando os trabalhadores iranianos foram às ruas em 1978 e 1979, não derrubaram apenas um monarca. Derrubaram um sistema orquestrado pela CIA e pelo MI6, treinado pelo Mossad, sustentado pelo capital imperialista, defendido por uma operação ideológica internacional que ia do New York Times às universidades.

A tentativa atual de reabilitar a memória do Xá repete a operação que falhou em 1979. Bandeiras do Irã monarquista hasteadas ao lado das de “Israel” em supostos protestos pelo mundo no início de 2026, propaganda sobre a “democracia” do regime nas redes sociais, declarações abertas de infiltração da CIA e do Mossad em mobilizações dentro do Irã. É a mesma operação de meio século atrás, agora desnudada pelas próprias autoridades imperialistas que admitem participar dela. O fracasso da operação anterior aponta para o destino provável da atual.

O curso a história do Irã e da República Islâmica será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO. As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.

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