Na primeira parte desta polêmica mostramos que Eric Toussaint transforma uma divergência real entre Putin e Lênin numa explicação para a guerra atual. Para isso, coloca em segundo plano a expansão da OTAN, o Euromaidan e a transformação da Ucrânia numa bucha de canhão do imperialismo contra a Rússia.
Há outra contradição igualmente importante. Toussaint termina Vladimir Putin contra Vladimir Lênin afirmando que “reconhecer o direito dos povos à autodeterminação não significa aderir a todas as políticas levadas a cabo pelos seus governos”.
O problema é que no artigo esse princípio possui uma direção muito determinada. Vale para a Ucrânia diante da Rússia. Quando chegamos às populações do Donbas ou à possibilidade de o imperialismo utilizar conflitos nacionais para fragmentar a própria Rússia, a autodeterminação desaparece.
E o Donbas?
Se esse é o princípio decisivo para compreender a guerra, onde estão Donetsk e Lugansk? Depois do Euromaidan e da derrubada do governo de Viktor Ianucóvitch, uma parte importante da população do leste da Ucrânia se rebelou. A guerra no Donbas começou oito anos antes da intervenção russa de fevereiro de 2022, e forças nazistas cometeram todo tipo de atrocidades contra civis.
O autor escreve uma longa defesa da autodeterminação nacional e simplesmente defende eliminar populações inteiras que se rebelaram contra o Euromaidan, como a Crimeia, que tem uma população com história e relações particulares com o Estado russo.
Por que a fronteira da Ucrânia de 1991 seria absolutamente sagrada, enquanto as fronteiras da Rússia e da antiga União Soviética poderiam ser fragmentadas em nome da autodeterminação? Toussaint não responde.
Dividir também é uma política imperialista
Há um motivo adicional para não tratar todo separatismo como automaticamente progressista. O imperialismo utilizou repetidamente divisões nacionais, religiosas e territoriais para dominar seus adversários. As potências europeias repartiram a África segundo seus próprios interesses, criando países artificiais subordinados às necessidades coloniais. No Oriente Médio, a destruição do Império Otomano foi seguida pela divisão da região entre as potências vencedoras.
Iugoslávia e Líbia
A Iugoslávia oferece um exemplo mais próximo. Sua fragmentação foi apresentada como uma sucessão de movimentos nacionais independentes. As grandes potências europeias e os Estados Unidos interferiram diretamente no processo, reconheceram novos Estados, aplicaram sanções e finalmente bombardearam o país de maneira criminosa.
O resultado foi a destruição de um Estado relativamente poderoso dos Bálcãs e sua substituição por vários países menores, muito mais dependentes das grandes potências.
Em 2011, Estados Unidos, França, Inglaterra e seus aliados intervieram militarmente sob a desculpa de proteger a população da Líbia. Muamar Kadafi foi derrubado e assassinado. O Estado líbio foi destruído, o país mergulhou numa guerra prolongada e acabou dividido entre poderes rivais no leste e no oeste.
Estão tentando separar Taiuã e Xijiang da China e não é segredo que o imperialismo também tem interesse em fragmentar a Rússia. Mas quando Putin denuncia o perigo de desintegração do país, Toussaint trata essa preocupação quase como manifestação de uma ideologia imperial russa, ou uma fantasia inventada por Putin. E não como parte da história recente das intervenções imperialistas.
Quem está cercando quem?
Toussaint apresenta Putin como dirigente de um Estado que ameaça a existência política de seus vizinhos.
Porém, desde a dissolução da URSS, a OTAN avançou sistematicamente para o leste. A Ucrânia foi armada e integrada de maneira crescente às estruturas militares ocidentais. Sanções de enorme alcance foram impostas à Rússia. Reservas e propriedades russas foram congeladas. A Rússia não criou uma aliança militar no México e no Canadá para cercar os Estados Unidos. Foram os Estados Unidos que dirigiram uma aliança que avançou até as fronteiras russas.
Esse método não aparece apenas na questão russa. Setores da esquerda procuram frequentemente alguma característica que consideram reacionária do governo de um país atacado pelo imperialismo para justificar uma posição de “neutralidade” ou hostilidade diante desse país.
O governo iraniano não é socialista. Putin também não é e Kadafi não era marxista. Nada disso tem importância quando um país está sendo atacado pelo imperialismo. Quando uma corrente de esquerda escolhe concentrar sua denúncia justamente no país que Estados Unidos e seus aliados procuram esmagar, termina objetivamente do lado do principal inimigo internacional da classe trabalhadora.
É o que acontece com Toussaint que cita Lênin durante páginas, mas, quando chega ao mundo atual, a principal potência imperialista desaparece do centro da análise e seu principal adversário passa a ocupar o lugar de opressor fundamental.




