Editorial

O isolamento de Lula

Empate com Flávio Bolsonaro nas pesquisas e derrota na indicação de Jorge Messias ao STF expõem governo sem alianças, sem trunfos e sem o que apresentar ao eleitorado

Lula sofreu, na semana passada, a maior derrota política de seu terceiro mandato. O Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF), fato que não ocorria havia mais de um século com um indicado da Presidência da República. Ao mesmo tempo, a nova pesquisa Real Time Big Data, divulgada nesta terça-feira (5), mostrou o tamanho do desgaste do governo: no segundo turno, Lula aparece tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Ciro Gomes.

A pesquisa ainda registra vantagem de Lula no primeiro turno. O dado, no entanto, não altera o quadro central: o presidente chega ao ano eleitoral isolado, depois de ter confiado sua sustentação política a setores da direita que agora se voltam contra o governo.

A derrota de Messias expressou a desmoralização do governo diante das instituições que o próprio PT apresentou como base de sustentação. O nome escolhido por Lula não era nenhum radical. Evangélico, Messias declarou na sabatina ser contrário ao aborto e apresentou posições que poderiam ser aceitas por amplo setor conservador do Senado. Mesmo assim, foi derrotado.

Davi Alcolumbre e a bancada do Centrão, que até então eram tratados pelo governo como aliados fundamentais, impuseram uma derrota total ao Palácio do Planalto. Após a votação, circularam ainda informações sobre a participação de Alexandre de Moraes na articulação contra Messias. Até Jaques Wagner, líder do governo no Senado, foi apontado por setores petistas como responsável pela derrota e, consequentemente, um traidor.

A rede de alianças montada pelo PT desde o início do mandato ruiu em poucas horas. Restaram ao governo os aliados tradicionais, como PCdoB, PSOL, Rede e o PSB de Geraldo Alckmin. Os mesmos setores com os quais Lula chegou ao Planalto, mas cujo peso parlamentar é insuficiente para garantir uma reeleição ou mesmo uma maioria sólida no Congresso Nacional.

O PT entra no ano eleitoral sem força política própria. Parte da burguesia que apostava na reeleição de Lula começa a abandonar o governo. Rodrigo Pacheco, que era tratado como o nome de Lula para a disputa ao governo de Minas Gerais, anunciou depois da votação que não será candidato.

O próprio governo já percebeu o tamanho do problema. Até pouco tempo atrás, a propaganda oficial insistia na ideia de que a economia atravessava um período de crescimento e prosperidade. Agora, a campanha do governo passou a destacar programas de renegociação de dívidas da população, como o novo Desenrola.

A mudança é uma admissão de que os trabalhadores seguem endividados e sem condições de vida adequadas. O governo que prometia apresentar uma economia em recuperação precisa agora reconhecer que milhões de pessoas não conseguem pagar suas contas. Isso mostra uma direção política acuada, obrigada a abandonar a propaganda otimista diante da realidade.

O empate técnico com Flávio Bolsonaro tem peso próprio. O senador nunca teve a mesma força política de Jair Bolsonaro. Foi alçado à condição de possível candidato após a inelegibilidade do pai e pela ausência de uma alternativa mais consolidada dentro da extrema direita. Que Lula, presidente da República e com a máquina federal nas mãos, apareça empatado com esse nome, dentro da margem de erro, é um sinal claro do desgaste do governo.

A situação no Congresso torna o quadro ainda mais grave. Lula chega ao ano eleitoral dependendo da boa vontade de Davi Alcolumbre, do Centrão e, indiretamente, do bolsonarismo para aprovar os programas que pretende usar na campanha. Essa boa vontade dificilmente virá. Projetos que poderiam servir de vitrine eleitoral podem simplesmente ficar parados ou ser aprovados apenas nos termos impostos pela direita.

Um presidente refém do Centrão e da direita não tem como se apresentar como força de mudança. A tentativa recente de Lula de aparecer como candidato contra o “sistema” esbarra no fato de que seu governo foi organizado justamente por meio de acordos permanentes com os partidos, os banqueiros, o Congresso e o Judiciário.

Esse é o resultado direto do método político do PT. O partido apresentou durante anos o chamado “pragmatismo” como virtude. Cedeu ministérios, aceitou a política econômica ditada pelo capital financeiro, buscou conciliação com o Congresso, acomodou-se diante do Judiciário e abandonou progressivamente as bandeiras que poderiam mobilizar os trabalhadores.

Depois de quase um quarto de século somando seus mandatos no Planalto, o PT chega a 2026 sem uma realização estrutural para apresentar. Não fez reforma agrária, não enfrentou os bancos, não reverteu as privatizações fundamentais, não organizou os trabalhadores contra a direita. O governo fez concessões sucessivas e agora colhe o resultado dessa política.

A rejeição de Messias e o empate técnico nas pesquisas mostram que a direita já não vê motivo para sustentar Lula. Ao mesmo tempo, o governo não organizou uma base independente nos trabalhadores capaz de enfrentar essa ofensiva. Sem o STF, sem o Congresso e sem mobilização popular, o PT entra no ano eleitoral nas mãos dos mesmos setores que tentou agradar durante todo o mandato.

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