Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

O inimigo do povo

A burguesia cerceia a liberdade de expressão porque seu modelo de democracia não inclui o povo

Logo que as redes sociais ganharam amplitude, quando o Facebook era a grande novidade, empresas jornalísticas impuseram a seus funcionários uma espécie de “dever ético” de não expressar nada que pudesse comprometê-las, alegando que a personalidade de um jornalista estaria naturalmente associada à empresa em que ele trabalha. O jornalista era estimulado, isto sim, a divulgar nas suas redes pessoais o material produzido para a empresa, mas jamais opiniões que confrontassem as do patrão. É fácil imaginar que a diretiva tenha atingido grandes companhias de todos os setores, sendo um primeiro desestímulo à expressão da opinião nas redes sociais por medo de perder o emprego.

Numa etapa posterior, se assim se pode dizer, a disseminação da política identitária como o novo “senso comum” cercearia a opinião e, mais que isso, o próprio vocabulário e o repertório cultural das pessoas. Um passo em falso e o incauto poderia perder o emprego, contratos de trabalho, oportunidades profissionais e, de quebra, os amigos. Nos moldes de um verdadeiro experimento, o boom do identitarismo racial levava a que uns corrigissem o vocabulário dos outros – o verbo latino “denegrir” se converteu em ofensa à população negra e até as “nuvens negras” viraram “nuvens cinzentas” para evitar ferir os sentimentos dos negros, definitivamente oprimidos pela língua portuguesa.

O mesmo aconteceria com o grupo LGBTQIA+, que radicalizou a coisa, inventando a tal “linguagem neutra”, mais uma prova de que a língua herdada do colonizador oculta, em sua voracidade patriarcal, o “gênero” fluido, aquele de quem não se define nem como homem nem como mulher (!). Muita gente intelectualizada se apresentou publicamente dizendo “todes” e “amigues”. E mais: houve teses na universidade que se propuseram a defender essas formas, concebidas não se sabe por quem, como um avanço social.

Na esteira desse movimento, marchinhas de Carnaval deixaram de ser entoadas na maior festa popular do país, Chico Buarque deixou de cantar uma de suas mais lindas canções, Monteiro Lobato teve a obra reeditada com correções de vocabulário, a ópera O Guarani sofreu uma adaptação enviesada, estátuas de escritores do antigo cânone, como Camões e Padre Vieira, foram pichadas ou queimadas, a crítica literária foi praticamente abolida, sendo substituída pelo elogio do autor segundo sua identidade – e vimos Ailton Krenak, sem nenhum livro de fato escrito, ser alçado à Academia Brasileira de Letras. Até aí – e são inúmeros os casos – não nos foi proibido criticar, embora a estratégia dos impulsionadores dessa política sempre tenha sido a de associar a não adesão a essas ideias ao grupo da extrema direita, os chamados “bolsonaristas”. Com isso, muitas vozes dissonantes da esquerda, com receio de serem tachadas de fascistas, optaram por se calar e deixar a banda passar.

Se fosse apenas um movimento cultural, o identitarismo não seria tão danoso. O fato, porém, é que estamos diante de uma política impulsionada pela burguesia, que estendeu seus tentáculos para a dimensão cultural, mas tem seu principal pilar no lobby das ONGs estrangeiras que aprova leis no país. O Judiciário brasileiro aderiu logo de início ao movimento – e o STF se permitiu extrapolar uma lei racial para homossexuais, transexuais, gordos etc. A própria lei racial aqui referida é nova (aprovada em 2023, no terceiro mandato do presidente Lula), com texto elaborado segundo a política identitária.

Convém lembrar que o Brasil já tinha várias leis antirracistas antes da que veio a tipificar como crime a “injúria racial”.  O diferencial dessa lei, que vem sendo extrapolada para outros grupos que nada têm a ver com os negros descendentes dos escravos, é, por um lado, a criminalização de declarações e, por outro, o rigor da punição. Foi graças a essa lei que humoristas passaram a ser vistos como criminosos, praticantes de “racismo recreativo”, a depender da interpretação que um juiz dê a uma anedota.

Hoje praticamente tudo o que se diz, caso não esteja afinado com o identitarismo ou com a ideologia da burguesia, que inclui simpatia pelo sionismo, pode ser criminalizado. Uma nova lei criminaliza a “misoginia”, que não é um ato nem mesmo uma declaração – a indefinição favorece a perseguição e a injustiça. Vivemos em um Estado em que a liberdade de expressão tem limites estabelecidos por grupos de poder que fazem lobby no Judiciário. Veja-se o projeto de lei apresentado por Tabata Amaral, que, servindo aos propósitos do lobby sionista, pretende criminalizar toda e qualquer crítica ao “Estado de Israel” e sua política. Por ora, a lei da injúria racial vem sendo usada com essa finalidade, na medida em que é usada para tipificar críticas políticas como “antissemitismo”, que seria um tipo de “racismo”.

Um recente decreto do presidente Lula deu plenos poderes às “big techs” para censurar opiniões de usuários das plataformas de redes sociais, numa privatização da Justiça. Antes, bem ou mal, havia a possibilidade de que o suposto infrator dos limites da liberdade de expressão se defendesse e até fosse julgado por um magistrado que o absolvesse. Agora, vão permanecer apenas as “boas opiniões”, que tornarão as redes sociais um ambiente “saudável”, como gostam de dizer. O lobby sionista vai deitar e rolar, se o decreto não for anulado.

De resto, os “especialistas” vêm alertando nas matérias jornalísticas da área de saúde sobre os prejuízos aos jovens ocasionados pelas redes sociais. O “excesso de telas”, por exemplo, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como prejudicial a crianças e a adolescentes no que se refere à saúde mental, ao sono, à visão e ao comportamento sedentário. Em nome da saúde, vários países já estudam a proibição de uso das redes sociais por jovens – e alguns, como a Austrália, já implementaram medidas nesse sentido.

O que se pode concluir é que a situação está piorando cada vez mais. A burguesia não se conforma com o poder da internet de dar voz a qualquer pessoa, transformando o espaço virtual em uma imensa e democrática praça pública. O seu tipo peculiar de “democracia” não comporta a liberdade de expressão, que, ao fim e ao cabo, é o que pode conduzir à sua queda enquanto classe dominante. É preciso lutar com todas as forças para salvaguardar o primeiro de todos os direitos, o da livre expressão do pensamento, sem dar margem a subterfúgios de qualquer espécie. O inimigo do povo, afinal, é a burguesia.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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