Segundo turno

O Hamas votaria em Lula?

O Hamas combate os amigos do PT na Palestina, enquanto Lula chama de terroristas as ações da resistência

Tão desesperados para vencer a eleição, como se fosse a coisa mais importante do mundo e como se ela fosse realmente decisiva para derrotar o bolsonarismo, os craqueiros eleitorais do PT agora buscam chantagear todos aqueles que decidiram pelo voto nulo no segundo turno dentro da esquerda. 

Um dos muitos artifícios é dizer que os que apoiam a resistência palestina devem votar em Lula porque o Hamas apoia Lula e votaria em Lula se estivesse no Brasil.

As declarações do próprio presidente tornam a invenção ainda mais grotesca. Em novembro de 2023, Lula afirmou que o Hamas havia cometido um ato de terrorismo. Na Assembleia Geral da ONU de 2024, descreveu a operação de 7 de outubro como “ação terrorista de fanáticos”. Voltou à ONU no ano seguinte e declarou que “os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo”. Lula denunciou também o genocídio cometido por “Israel” em Gaza; isso não retira as palavras que dirigiu contra a resistência. 

Lula deu claros sinais para o imperialismo e para o sionismo de que ele é um inimigo do Hamas e não esconde isso.

Não se trata de adivinhar os sentimentos dos dirigentes palestinos diante de Lula. Trata-se de ler o que ele disse. A acusação de terrorismo é uma das principais armas políticas de “Israel” e do imperialismo contra o Hamas. Ela permite apresentar a luta de um povo ocupado como origem da guerra e relegar décadas de expulsões, cerco e repressão ao papel de detalhe. Um presidente que repete essa acusação não pode ser apresentado, sem mais nem menos, como o candidato da organização acusada.

A direção petista deixou igualmente claro a quem reconhece como interlocutor na Palestina. Em resolução de outubro de 2023, o PT afirmou manter relações partidárias unicamente com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e com a Autoridade Palestina (AP), sediada em Ramalá. Gleisi Hoffmann declarou expressamente que o partido não mantém relações com o Hamas, mostrando ao imperialismo e ao sionismo que repudia a vanguarda da revolução palestina.

A OLP é dominada pelo Fatá, partido de Mahmoud Abás, que também preside a Autoridade Palestina. Essa relação não representa uma simples preferência entre dirigentes palestinos. Hamas e Fatá protagonizaram a maior disputa pela direção política do povo palestino nas últimas décadas. De um lado, a resistência à ocupação; do outro, uma direção que, depois de dirigir uma luta de libertação, se rendeu ao ocupante e passou a administrar partes do território sob seu controle, como um verdadeiro interventor a mando do sionismo.

O Hamas nasceu na primeira Intifada, em 1987. Já existia, portanto, quando a direção da OLP assinou os Acordos de Oslo, em 1993. A capitulação de Oslo aprofundou a divisão: a OLP reconheceu “Israel” sem obter a libertação palestina, e a Autoridade Palestina criada pelos acordos passou a exercer o papel de polícia do sionismo contra o próprio povo.

Foi contra essa política que o Hamas cresceu. Não concordou em trocar a libertação da Palestina por uma administração precária sob a vigilância de “Israel”. A oposição ao Fatá não nasceu de alguma rivalidade pessoal com Abás, mas da experiência concreta dos palestinos: enquanto a ocupação avançava, seus representantes oficiais prometiam que novas negociações trariam um Estado que nunca chegava.

O Hamas sempre foi oposição ao Fatá, recusando dar um apoio eleitoral a uma organização que já não representava mais as aspirações e necessidades do povo palestino e que passava a trabalhar contra os interesses da nação palestina.

Em 2006, os palestinos puderam escolher entre essas direções nas eleições para o Conselho Legislativo. O Hamas derrotou o Fatá e conquistou a maioria parlamentar. A votação ocorreu em Gaza e na Cisjordânia. Ismail Hanié assumiu a chefia do governo, mas a vitória nas urnas não bastou para que o deixassem governar.

“Israel” reteve receitas pertencentes aos palestinos. Estados Unidos e União Europeia suspenderam recursos destinados ao governo eleito e fortaleceram Abás. O Fatá, derrotado nas eleições, recebeu o apoio externo necessário para enfrentar os vencedores do Hamas. O conflito entre Hamas e Fatá terminou, em 2007, com o primeiro no controle de Gaza e o segundo à frente da AP na Cisjordânia. Quando os palestinos votaram contra a política de conciliação, as potências imperialistas que hoje fazem sermões sobre democracia trabalharam para fraudar o resultado.

Na Cisjordânia, a Autoridade Palestina manteve-se como capitão do mato de “Israel” e perseguiu integrantes da resistência e dos movimentos de luta. Esse é o partido-irmão do PT na Palestina. Enquanto o Hamas enfrentava o bloqueio de Gaza e a máquina militar sionista, a AP se beneficiava dos privilégios de ser uma marionete do sionismo.

A direção de Abás tampouco demonstra grande entusiasmo por uma nova disputa eleitoral. No sábado (10), adiou as eleições legislativas previstas para 28 de novembro e marcou a votação para 11 de setembro de 2027, junto com uma eleição presidencial. Os palestinos não elegem presidente desde 2005 nem votam para o Conselho Legislativo desde a vitória do Hamas em 2006. Terminado seu mandato, Abás permaneceu no cargo e passou a governar por decretos desde 2009. É um verdadeiro ditador a serviço de “Israel”.

Pesquisa do Centro Palestino de Pesquisas Políticas e de Opinião, divulgada em agosto, apontou que 79% dos palestinos entrevistados queriam a renúncia de Abás. Na Cisjordânia, administrada por sua direção, o índice chegava a 82%. Ele continua no poder sem se submeter a uma nova eleição presidencial, enquanto seu partido conserva o comando da AP depois da derrota legislativa de 2006.

Lula, no discurso de 2025 em que condenou o Hamas como autor de atentados terroristas, lamentou que Abás tivesse sido impedido de ocupar a bancada palestina na ONU. Suas palavras e os vínculos declarados pelo PT mostram a posição dos petistas na disputa entre as direções palestinas. O apoio eleitoral do Hamas a Lula, em compensação, só existe na imaginação de quem o usa para constranger a esquerda brasileira.

Não é preciso afirmar que o Hamas votaria nulo no Brasil. Ninguém tem autorização para escolher seu voto hipotético. É possível afirmar algo verificável: na Palestina, o Hamas sempre disputou eleições contra o PT local, venceu-o em 2006 e não abandonou sua oposição quando a direção derrotada se manteve na AP com o apoio de “Israel” e do imperialismo. A tentativa de convertê-lo em partidário do “voto útil” brasileiro ignora precisamente a história que tornou a organização uma força nacional.

O PCO decidiu votar nulo no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Não pede votos para o candidato da direita; recusa dar apoio à frente ampla encabeçada por Lula e Geraldo Alckmin. Os petistas podem discordar e defender sua candidatura. Terão, nesse caso, de responder por seu governo e suas alianças. O que não podem é pôr o Hamas na fila de votação do PT enquanto seu presidente chama de terroristas as ações da organização e seu partido-irmão é inimigo da resistência palestina.

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