O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou que o fracasso de Lula no primeiro turno das eleições presidenciais é resultado do esgotamento da política do PT, que abandonou as reivindicações dos trabalhadores para governar em aliança com a direita. Em entrevista ao jornalista Leandro Fortes, no Canal do Galo Preto, no YouTube, na terça-feira (6), Pimenta analisou o avanço do bolsonarismo, a crise do Supremo Tribunal Federal (STF), os resultados eleitorais do PCO e as perspectivas para o segundo turno.
Fortes abriu a entrevista perguntando quem seria o responsável pelo desempenho de Lula, que terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro. Pimenta atribuiu a responsabilidade ao próprio governo. Recordou que, desde o início do mandato, advertia sobre a fraqueza política de Lula, a necessidade de mobilizar os trabalhadores e os efeitos desastrosos da política fiscal adotada pelo governo.
Para o dirigente, o problema não se resume às decisões tomadas durante a campanha. O PT chegou ao limite de uma política que não oferece nenhuma perspectiva de transformação das condições de vida da população.
“O neoliberalismo destruiu a economia nacional. E o PT entrou para fazer uma política de compensação paliativa dessa destruição. Mas o PT nunca se colocou a questão de reverter o quadro geral. Então, por exemplo, o pessoal fala: Bolsa Família. Tudo bem, é um programa necessário, não acho nem que dá para algum governo acabar com esse programa sem gerar uma crise política muito grande, mas é um programa paliativo, não resolve nada. Não é emprego, não é recuperação da economia.”
Pimenta contestou a propaganda de que os governos petistas teriam representado um período de grandes conquistas trabalhistas. Segundo ele, desde o governo Sarney, a classe operária sofreu sucessivas derrotas, com a destruição de direitos previdenciários e trabalhistas. O PT não reverteu essa ofensiva, limitando-se a administrar suas consequências por meio de programas sociais incapazes de substituir empregos e salários.
Essa política, explicou, produziu uma rejeição crescente ao governo. Milhões de eleitores passaram a procurar uma mudança e encontraram no bolsonarismo uma alternativa aparente. Pimenta considera equivocada essa expectativa, mas ressalta que o PT não pode responsabilizar a população por uma situação criada por sua própria política.
A política econômica foi apontada como uma das causas principais do desgaste. O dirigente criticou o arcabouço fiscal, a cobrança de impostos sobre pequenas compras internacionais e a proibição das apostas eletrônicas. Segundo ele, Lula demonstrou insensibilidade diante das dificuldades materiais da população. O aumento do Bolsa Família às vésperas da votação, depois de três anos sem reajuste, tampouco conseguiu recuperar a confiança dos eleitores.
“Ele começou o governo mal, ele não se deu conta. Eu acho que, quando ele foi eleito, ele falou: ‘eu sou todo-poderoso, eu ganho’ e tal. Era um governo difícil e ele tratou como se estivesse na situação mais favorável possível. Eu acho que o grande responsável pelo desastre é o próprio Lula.”
Um dos principais assuntos da entrevista foi a proposta de anunciar Geraldo Alckmin como futuro ministro da Fazenda, caso Lula vença o segundo turno. A medida seria uma tentativa de tranquilizar o grande capital e conquistar setores conservadores. Pimenta considerou a ideia uma demonstração de que o PT continua procurando uma saída pela direita. Para ele, Alckmin representa uma política econômica ainda mais conservadora que a de Fernando Haddad, responsável pela aplicação do arcabouço fiscal.
O dirigente apontou o fracasso eleitoral de representantes da frente ampla, como Simone Tebet e Marina Silva, derrotadas nas eleições para o Senado em São Paulo. Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, também sofreu um revés ao terminar o primeiro turno atrás do candidato bolsonarista. Recorrendo à análise de Leon Trótski sobre a Frente Popular espanhola, Pimenta afirmou que o PT procurou apoio em políticos burgueses que já não possuem o respaldo decisivo da própria burguesia.
“O PT criou uma ficção, que é que ele precisava fazer uma aliança com a burguesia. Então ele formou essa chamada frente ampla. […] Na Revolução Espanhola, Trótski usou uma expressão que é muito marcante. Ele fala o seguinte: a frente popular espanhola é uma frente popular com a sombra da burguesia. […] O PT montou a frente ampla com a sombra da burguesia, porque a burguesia mesmo não quer formar aliança com o PT.”
O setor da burguesia disposto a sustentar Lula já o apoiou no primeiro turno, observou Pimenta. Os capitalistas que preferem Flávio Bolsonaro não mudariam de posição simplesmente porque o presidente anunciou um ministro ainda mais direitista. Ao mesmo tempo, a escolha de Alckmin desanimaria os trabalhadores que o PT pretende convocar às ruas.
Fortes perguntou como os escândalos envolvendo o STF, especialmente Alexandre de Moraes e suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, prejudicaram a candidatura de Lula. Pimenta considerou que a defesa incondicional de Moraes por parte da esquerda contribuiu para fortalecer o discurso bolsonarista. O dirigente afirmou que as denúncias envolvendo o ministro são particularmente graves e que tentar desviar a atenção para acusações contra André Mendonça ou outros ministros não resolve o problema.
O presidente do PCO também comentou decisões recentes do Judiciário favoráveis a figuras ligadas ao bolsonarismo, entre elas a concessão de prisão domiciliar a Débora Rodrigues, conhecida como Débora do Batom. Interpretou essas medidas como possíveis movimentos de aproximação entre setores do tribunal e Flávio Bolsonaro. Segundo sua avaliação, ministros como Gilmar Mendes precisarão procurar um acordo com a direita caso o candidato bolsonarista vença a eleição.
Pimenta afirmou que o PT cometeu um erro decisivo ao tentar eliminar Jair Bolsonaro pela via judicial, em vez de combatê-lo politicamente. Para ele, o principal vitorioso do primeiro turno foi justamente o ex-presidente, que conseguiu fortalecer seu movimento apesar de estar preso e impedido de disputar a eleição.
“O grande vitorioso da eleição é o Bolsonaro, Jair Bolsonaro. Não é o Flávio Bolsonaro. Ele ganhou a eleição condenado, inelegível, incomunicável e preso. É uma coisa assim que colocaram, o pessoal ainda não percebeu, mas colocaram esse homem no trono do Brasil. Vai depender dele se ele vai transformar isso daí numa coisa durável ou se ele vai jogar tudo na lata do lixo. Mas agora depende dele. É um resultado devastador.”
Pimenta também rejeitou a ideia de que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro significaria necessariamente uma passagem imediata para uma repressão generalizada contra a esquerda. Ressaltou que uma parte importante da base bolsonarista está mobilizada em torno da liberdade de expressão e do combate aos poderes do Judiciário, o que poderia gerar contradições caso um novo governo adotasse uma política abertamente repressiva.
Outro assunto discutido foi a hostilidade de setores da esquerda contra os eleitores de Flávio Bolsonaro. Pimenta criticou publicações nas redes sociais nas quais pessoas identificadas com o PT passaram a desejar a perda de benefícios e direitos sociais dos trabalhadores que não votaram em Lula. Mencionou mensagens de pessoas que prometiam deixar de dar gorjetas a entregadores de aplicativos e defendiam punições econômicas contra eleitores bolsonaristas.
“Você não pode chegar e falar que metade do País é composta de criminosos porque eles não votam em você. Tem que ter um pouco mais de capacidade crítica. O PT parece que perdeu essa capacidade crítica.”
O dirigente comparou esse comportamento à mentalidade da antiga União Democrática Nacional (UDN) e do PSDB. Segundo ele, parte da esquerda petista se transformou numa camada da pequena burguesia que despreza a população pobre quando ela não acompanha suas preferências políticas.
Pimenta também criticou o crescimento do identitarismo e sua transformação numa das principais preocupações eleitorais da esquerda. Para ele, o avanço de candidatos que se apresentam como adversários do feminismo e da política identitária indica uma reação que poderá beneficiar setores ainda mais direitistas.
Ao discutir a possibilidade de o PT convocar manifestações capazes de modificar o resultado eleitoral no segundo turno, Pimenta afirmou que o governo passou quatro anos desmobilizando sua própria base. Os grandes atos da campanha de Lula dependeram principalmente de estruturas governamentais e partidárias, sem a participação de um movimento popular combativo.
“O PT cria esse clima de desmobilização. O Lula acredita no aparato estatal. Para ele, o trabalhador é um eleitor. Ele não quer, não é a política dele colocar o trabalhador na rua. Você viu que ele não chamou o pessoal para se mobilizar nem quando ele estava preso.”
O dirigente lembrou que os atos de Primeiro de Maio foram particularmente fracos durante o governo Lula. Para ele, não é possível organizar em três semanas uma mobilização que o PT não procurou desenvolver ao longo de todo o mandato.
Questionado sobre sua própria votação e os objetivos eleitorais do PCO, Pimenta explicou que a participação nas eleições é subordinada à luta política e à organização dos trabalhadores. O Partido utiliza a campanha para divulgar seu programa, conquistar novos militantes e ampliar sua influência política.
“Eu acho que a eleição para nós é, antes de qualquer coisa, uma tribuna para propaganda política. Em segundo lugar, é um tipo de mobilização que você faz, quer dizer, você mobiliza as pessoas para manifestarem um apoio ao Partido. E também, se for possível, se a gente tiver condições, podemos eleger algum deputado para aumentar essa tribuna no Congresso Nacional.”
Pimenta destacou o crescimento da votação do PCO para os governos estaduais, que, segundo o levantamento apresentado pelo Partido, foi de aproximadamente 130% em relação a 2022. Mencionou ainda o resultado de Izadora Dias em São Paulo, cujos votos precisaram ser contabilizados diretamente a partir dos boletins de urna, em razão do indeferimento de sua candidatura. Para o Senado, o Partido alcançou cerca de 60 mil votos.
O resultado presidencial, entretanto, foi considerado estranho pelo dirigente. Pimenta recebeu aproximadamente 15 mil votos, número próximo ao obtido em 2014, apesar do crescimento da organização e de sua própria projeção nacional.
“Eu não posso provar nada, mas eu acho estranho, acho ilógico. Pode falar: ‘não, foi o voto útil’. Tudo bem que tem o voto útil. O voto útil não ia reduzir você a praticamente a mesma votação que você teve 12 anos atrás, quando ninguém me conhecia.”
Pimenta afirmou que a discrepância merece investigação. Também destacou que os votos de candidatos indeferidos precisam ser verificados diretamente nos boletins de urna, pois nem sempre aparecem nos resultados convencionais divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Fortes perguntou ainda sobre as derrotas de dirigentes históricos do PT e o crescimento de figuras ligadas às redes sociais, como Jones Manoel, eleito deputado federal por Pernambuco. Pimenta contestou a apresentação de Jones como o primeiro comunista eleito para o Congresso em 50 anos e classificou seu comunismo como retórico. Questionou também a ideia de que uma grande audiência nas redes sociais, sozinha, explique votações expressivas.
Segundo o dirigente, o PT atravessa uma mudança profunda em sua composição política. Militantes ligados ao sindicalismo e aos movimentos populares estão perdendo espaço para uma esquerda universitária, vinculada às organizações não governamentais e à política identitária. Pimenta comparou essa tendência à transformação de partidos social-democratas europeus, que perderam grande parte de sua influência entre os trabalhadores.
Ao falar sobre a trajetória do PCO, recordou que o crescimento nacional do Partido ocorreu principalmente durante as grandes greves operárias. A ofensiva neoliberal contra o movimento sindical dificultou esse processo, mas não modificou a orientação fundamental da organização.
“Nós tivemos um bom momento como Partido na época em que tinha muitas greves no País, porque a nossa base real é a classe operária. Quando as greves começaram, nós passamos de ser um grupo que estava em São Paulo e Brasília, basicamente, para ser uma organização nacional, com o movimento grevista. Tivemos uma participação muito grande. Depois veio a política neoliberal, que quebrou as pernas do movimento operário, aí nós tivemos muita dificuldade. Nós estamos nos erguendo lentamente, num momento de paralisia da classe operária, o que para nós é muito difícil.”
Sobre a posição do PCO no segundo turno, Pimenta informou que o Partido realizará uma Conferência Nacional no domingo (11), quando a militância discutirá o resultado eleitoral e decidirá coletivamente a orientação diante da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. A tendência predominante entre os militantes é favorável ao voto nulo, mas nenhuma decisão definitiva havia sido tomada.
“Nós não temos a política do voto útil. Ou a gente vota ou a gente não vota por algum motivo político. O mal menor não é a nossa política. Até porque nós não acreditamos que a eleição mude alguma coisa. […] A burguesia vai tomar conta do governo do Flávio Bolsonaro, como tomou conta do governo do Lula também. Então, o problema é você ter um voto que seja uma orientação política. É isso que nós vamos discutir no domingo, por isso nós fazemos uma conferência.”
Pimenta explicou que o PCO não condicionará sua orientação à simples rejeição de um dos concorrentes. A decisão dependerá de uma avaliação da situação política e dos interesses da classe operária. Acrescentou que a crise do PT poderá abrir uma discussão sobre a reorganização da esquerda, especialmente se setores do movimento sindical romperem com a política da direção petista.





