O chamado “politicamente correto” abriu o processo que o identitarismo consolidou na esquerda pequeno-burguesa: a substituição da política por um policiamento dos costumes. Isso aparece no artigo A Copa, o VAR e o fantasma do supremacismo branco, de Érika Andreassy, publicado no sítio Opinião Socialista na sexta-feira (19).
Ao adotar essa política, esses setores expressam o abandono do socialismo e sua adaptação ao campo da democracia liberal, que procura conter a extrema direita por meio da censura, de punições e do controle do comportamento.
“Bastaram poucos segundos de uma transmissão da cabine do VAR”, inicia a articulista, “para que uma nova polêmica tomasse conta da Copa de 2026. O árbitro australiano Shaun Evans apareceu fazendo um gesto que muitos identificaram imediatamente como uma referência ao símbolo da ‘supremacia branca’, apropriado nas últimas décadas por organizações supremacistas brancas e grupos da extrema direita.”
Por esse critério, no Brasil, quem vestir a camisa da Seleção também poderia ser tratado como bolsonarista ou militante da extrema direita.
O árbitro afirmou, em entrevista, que o gesto foi involuntário. A explicação, no entanto, não basta para a política identitária, que parte da suspeita e exige punição.
Em junho de 2020, Emmanuel Cafferty, trabalhador de origem mexicana nos EUA, foi demitido da empresa San Diego Gas & Electric (SDG&E). Ele foi fotografado fazendo um sinal com a mão que usuários das redes sociais associaram ao gesto da supremacia branca.
Cafferty perdeu o emprego poucas horas depois que a foto se espalhou no Twitter. Ele afirmou que estava apenas estalando os dedos e que não tinha intenção de fazer um gesto racista.
Segundo relatou em entrevista, aquele emprego havia lhe dado, pela primeira vez, segurança financeira para sustentar a si mesmo e sua filha, além de garantir um bom plano de saúde. Após a demissão, enfrentou um longo período de desemprego e dificuldades financeiras graves, afirmando que vivia do que restava de suas economias.
Histeria coletiva
Segundo o artigo, “a repercussão foi instantânea. Organizações antirracistas exigiram providências da FIFA. A entidade abriu uma investigação relâmpago”. Embora Evans tenha se explicado, a articulista destaca que o árbitro foi, segundo ela, “coincidentemente” filmado durante uma partida entre Alemanha e Curaçao, “uma nação caribenha de maioria negra”. Em menos de 48 horas, o caso foi arquivado.
Usar “coincidentemente” entre aspas, nesse caso, é lançar suspeita sobre o árbitro. O trecho ganha esse sentido sobretudo porque vem acompanhado da referência a Curaçao como “nação caribenha de maioria negra”. Em vez de apresentar um fato, o texto sugere culpa a partir de uma coincidência.
“O episódio é ilustrativo”, segue o texto, “e, embora seja provável que jamais saibamos exatamente as verdadeiras intenções do árbitro, talvez essa nem seja a questão mais importante. A verdadeira pergunta é outra: por que milhões de pessoas reconheceram imediatamente naquele gesto uma demonstração de racismo?”
O episódio serve, de fato, para mostrar como age essa esquerda identitária, que parte da suspeita e exige punição. Justamente por ser “provável que jamais saibamos exatamente as verdadeiras intenções do árbitro”, não se deve lançar acusações levianas.
Linha auxiliar da direita
Em seguida, Andreassy escreve que, “há vinte ou trinta anos, a maior parte do público provavelmente não faria qualquer associação política ao vê-lo. Hoje, porém, o simples fato de um movimento feito com a mão ter sido imediatamente relacionado ao supremacismo branco diz muito menos sobre o árbitro e muito mais sobre o mundo em que vivemos”.
A pergunta, portanto, é o que mudou nesses vinte ou trinta anos. A resposta está no fortalecimento do identitarismo, uma política direitista que se infiltrou na esquerda. A pretexto de combater o fascismo, o racismo e outras formas de opressão, esses setores passaram a defender censura nas redes sociais, criação de novos crimes e aumento de penas.
A direita tem aproveitado essa política. Propostas repressivas apresentadas em nome do combate ao preconceito e à extrema direita costumam receber amplo apoio no Congresso reacionário. A burguesia compreende a utilidade de endurecer o regime e utiliza esse clima de perseguição política para avançar.
Capitulação
Para justificar sua posição, a autora afirma que “não se trata de uma repetição mecânica do fascismo clássico dos anos 1930, mas de um processo real de fortalecimento da extrema direita em escala internacional”. Isso não altera o problema. Quando considerar necessário, a burguesia recorrerá ao fascismo contra a classe trabalhadora, como fez no passado.
O artigo concentra seus argumentos na extrema direita, na xenofobia e na islamofobia. A autora afirma que “talvez o maior mérito involuntário daquela imagem tenha sido justamente o de lembrar que o racismo e a extrema direita não são fantasmas do passado. São forças políticas reais, atuantes e cada vez mais influentes no mundo atual”.
Para essa esquerda liberal, o centro da questão deixa de ser o imperialismo e passa a ser o “fascismo” em abstrato. Com isso, separa fascismo e democracia liberal, quando ambos são formas de domínio da mesma burguesia.
A insistência da esquerda pequeno-burguesa em colocar o combate à extrema direita como tarefa principal desvia a classe trabalhadora da luta contra seu inimigo fundamental. Nesse sentido, além de uma capitulação, essa política transforma essa esquerda em linha auxiliar do imperialismo contra os trabalhadores, os únicos que podem derrotá-lo.





