O artigo Um olho na Copa, outro na política, de Israel Dutra, publicado no sítio Revista Movimento, ligado ao MES-PSOL, nesta terça-feira (23), é um exemplo de oportunismo. O texto já anuncia sua política no olho, ao afirmar que “somente com mobilização derrotaremos a extrema direita nas ruas e nas urnas, num cenário onde uma das poucas certezas é a polarização. A bola está conosco”.
Quem tem se empenhado em “derrotar” a extrema direita são as democracias liberais, as mesmas que atiraram a Ucrânia contra a Rússia, ocuparam o Afeganistão por 20 anos, destruíram a Líbia e a Síria, financiam o genocídio em Gaza e apoiaram a guerra de agressão contra o Irã. Não é surpresa, portanto, que a esquerda pequeno-burguesa tenha tomado para si a tarefa de derrotar o fascismo.
A defesa das manifestações de rua, em si, não é o problema. O problema é quando esses setores só se mobilizam quando a Rede Globo convoca, como ocorreu nos atos de setembro de 2025, cujo centro era pressionar o Congresso e dar ainda mais poder ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo o autor, “a verdade é que a Copa também é um espelho das enormes contradições que vive o mundo. Um governo de extrema direita na principal potência imperialista busca aplastar os povos do mundo e comanda a repressão do ICE contra os imigrantes”. A política de repressão aos imigrantes, no entanto, não começou com Donald Trump. Seus antecessores também fizeram o serviço sujo do imperialismo, ainda que com menos alarde. O que tem feito o imperialismo, desde sempre, senão esmagar os povos pobres? A esquerda pequeno-burguesa age como se Trump tivesse inaugurado uma nova era.
No mesmo parágrafo, Dutra escreve que “Trump acaba de aceitar um acordo que expressa o tamanho de sua derrota na investida contra o Irã”. A derrota, no entanto, não foi apenas de Trump. Foi uma derrota do imperialismo, que exigiu a guerra e participou da agressão contra o povo iraniano.
Dutra diz ainda que “o assustador cerco sobre Cuba, o discurso acerca do ‘narcoterrorismo’ e a presença ativa nas eleições e processos recentes na América do Sul são os sintomas desse novo tempo. Os resultados apertados e contestados das eleições de Colômbia e Peru indicam maior polarização com a extrema direita e que Trump fará de tudo para derrotar Lula. A solidariedade ianque com o governo repressor de Paz no recente levante popular na Bolívia expressa outra frente de uma mesma estratégia”.
Em primeiro lugar, o bloqueio contra Cuba não é apenas “assustador”: é criminoso. Em segundo lugar, o MES fala das eleições na Colômbia e no Peru, mas é preciso lembrar que o grupo esteve ao lado do imperialismo nas eleições presidenciais da Venezuela. A própria Revista Movimento publicou artigos com formulações como “o impasse gerado pela proclamação dos resultados da eleição presidencial venezuelana”.
A posição do MES em relação à Venezuela é reacionária e coincide com a política do imperialismo norte-americano. É por isso que o grupo escreveu que, “bancado por suas Forças Armadas (cujas cúpulas são sócias diretas das negociatas corruptas do governo), pelos apoios da Rússia e, mais discretamente, da China, Maduro consolida seu giro autoritário”. Trata-se da mesma linha usada pela direita contra o governo venezuelano.
A realidade se impõe
Ao tratar da escala 6×1, o artigo afirma que “a vitória definitiva na aprovação do fim da escala 6×1 depende da votação no Senado. E por lá se mobilizam para travar e/ou desidratar o que já foi aprovado pelos deputados”.
A frase é uma confissão de que, ao contrário do que vem alardeando essa esquerda, não houve vitória definitiva da mobilização popular. A burguesia não concede nada aos trabalhadores sem luta. Da mesma maneira que não há mobilização real nas ruas contra o fascismo, também não houve mobilização efetiva pela redução da jornada.
Embora tenha começado dentro da esquerda uma disputa pela paternidade da proposta, a verdade é que a direita também se apropriou do assunto. A burguesia pretende flexibilizar a jornada de trabalho, o que pode resultar, no futuro, em aumento dos lucros.
Sem muita convicção, o articulista diz que “é necessário seguir a pressão, debatendo e engajando as bases da sociedade de forma inclusiva e criativa”. Também sugere que “um dia de lutas e paralisações para a votação do Senado seria o ideal”. Está claro, no entanto, que nada disso está sendo organizado.
Corrupção
Como não poderia deixar de ser, o texto afirma que “a notícia que repercutiu nos últimos dias foi a revelação da Polícia Federal sobre as suspeitas de envolvimento de Jaques Wagner no escândalo do Banco Master, que hoje abala a República. As acusações são instrumentais para a extrema direita e desnudam os setores mais corruptos do PT, que não por acaso são também seus setores mais à direita”.
É claro que existe corrupção. O problema é que esses grupos apresentam a Polícia Federal, o Judiciário e as operações da direita como instrumentos capazes de combater a corrupção. Tanto é assim que, logo adiante, o autor escreve que “o PSOL está fora deste e de qualquer esquema de corrupção, sendo um partido que tem sua história marcada pela probidade e pela luta contra a corrupção”.
O MES-PSOL luta tanto contra a corrupção que apoiou a operação Lava Jato e defendeu o juiz Sérgio Moro, o Mussolini de Maringá. Esse apoio colocou o partido a reboque da burguesia.
A preocupação da esquerda pequeno-burguesa é com as eleições e com a conquista de cargos. Apesar de sua hostilidade ao futebol, com a aproximação do pleito vale até escrever que, “tal qual uma Copa onde, apesar do peso dos grandes capitalistas, há um sentimento de coletividade e torcida”, seria possível disputar “o sentido comum da soberania nacional”.
Ver essa esquerda falando em futebol lembra os velhos políticos que, durante as campanhas eleitorais, passavam em alguma feira para comer pastel ou entravam em algum boteco para tomar um pingado, esforçando-se para não fazer cara de nojo.





