A descoberta de que Flávio Bolsonaro também estava enroscado em Daniel Vorcaro deixou a esquerda pequeno-burguesa eufórica. Logo foi cunhado o termo “BolsoMaster” para tentar grudar o adversário no caloteiro-mor do país. As pesquisas eleitorais, no entanto, não parecem confirmar a tão desejada derrocada do candidato da extrema direita, que perdeu, quando muito, alguns pontos percentuais. De todo modo, como noticiou o Estadão, o PT pediu à Polícia Federal e ao STF investigações sobre a produção do filme Dark Horse. A expectativa é encontrar algum ilícito, como desvio de dinheiro para caixa dois eleitoral ou qualquer outra coisa que comprometa o oponente. Ao terceirizar a luta política para a Polícia e o Judiciário, pilares do Estado burguês, a esquerda pode estar dando um tiro no pé.
Não é segredo para ninguém, a esta altura, que a burguesia continua empenhada em encontrar seu candidato ideal para ser ungido nas próximas eleições. Flávio, ainda que menos Bolsonaro que o próprio pai, seria uma escolha muito constrangedora, para dizer o mínimo. Depois de toda a pantomima do processo contra o golpe de Estado dos fascistas do 8 de janeiro, ter de apostar no filho do homem contra um Lula obediente não parece confortável. O pior de tudo isso, porém, é ver o Lula querendo granjear o apoio da burguesia, o que até agora, com todos os posicionamentos direitistas que tem assumido, ele não conseguiu.
Na última eleição, quando Lula venceu Bolsonaro por apertada margem, a burguesia deixou bem claro que seu partido era o STF. O 8 de janeiro bolsonarista se insurgiu contra a institucionalidade, com direito a rabisco de estátua da Justiça e defecação em cadeira de juiz da alta corte, o que foi tratado como tentativa de golpe de Estado, motivando a sanha autoritária do ministro Alexandre de Moraes, com sua mão pesada. A defesa das instituições se misturou à defesa do governo que acabava de se eleger, consagrando o casório de Moraes com Lula, sob a bênção da política identitária, que sequestrou lutas tradicionais da esquerda deslocando-as para o campo da direita institucional. O resultado é um Lula pequeno-burguês, ou seja, baba-ovo de burguês.
Os comentaristas do Brasil 247, sempre entusiastas do governo Lula, foram os defensores de primeira hora do ministro Alexandre de Moraes quando revelado o contrato milionário do escritório de sua esposa e filhos com Daniel Vorcaro. Embora a cifra de R$ 130 milhões em um contrato inespecífico de duração de menos de três anos com a mulher do juiz todo-poderoso fosse suficiente para assombrar qualquer trabalhador deste país, os comentaristas “progressistas”, candidamente, defenderam o direito que tem a senhora Viviane Barci de Moraes de cobrar quanto queira, pois o contrato é privado etc. etc. Ninguém estranhou, mesmo diante da revelação de que Vorcaro tinha dado um belo golpe na praça. Ninguém disse que o dinheiro era sujo, muito pelo contrário.
O próprio Vorcaro veio a dizer que contratou o escritório para ficar próximo de Moraes… mas o assunto aparentemente foi esquecido, mesmo diante de revelação de outro contrato no valor dos R$ 50 milhões restantes, uma vez que, com a liquidação do banco, a família Moraes recebeu apenas R$ 80 milhões do contrato original. Esse novo contrato teria sido celebrado dois meses antes da quebra do banco. Se o dinheiro de Vorcaro é sujo, não há como acusar somente o Flávio Bolsonaro. No caso do ministro, aliás, a situação é muito mais grave, uma vez que seu cargo já nos dispensa de investigar a contrapartida que Vorcaro buscava. Isso, no entanto, pode ser esquecido em nome da “luta contra o fascismo” representado pelos Bolsonaros.
O problema é que a “luta contra o fascismo”, tal qual a política identitária, é um projeto da direita institucional. Foi dessa gente que o Bolsonaro roubou votos, razão última de sua prisão. Lula vem emprestando a sua popularidade para essa direita e abandonando um projeto de emancipação da classe trabalhadora, de soberania e de luta por um país independente das garras do imperialismo. Muitos dirão que Lula não tem opção, dada a correlação de forças. Que isso não seja desculpa para o conformismo, porque as coisas podem piorar muito se nada for feito.
A eleição não parece trazer esperança de projetos de transformação. Vamos assistir a um jogo de “batata quente”, em que ninguém quer ser pego com dinheiro do Banco Master. O problema é que isso, por si só, não quer dizer muita coisa diante dos grandes desafios que temos pela frente. É preciso mobilizar o povo, para além das eleições, porque um Lula sozinho no meio dos tubarões corre o risco de ser engolido de vez por eles em um último mandato.




