A candidata do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo de São Paulo, Izadora Dias, defendeu a dissolução da Polícia Militar, a formação de comitês de autodefesa nos bairros e o armamento da população. As propostas foram apresentadas em entrevista ao vivo ao Jornal Regional, da Rádio POP, concedida na quarta-feira (16) e publicada pela emissora na mesma data.
Natural de Barra Bonita, no interior paulista, Izadora mora na capital há dez anos. Ela explicou que sua candidatura foi escolhida pela militância do PCO e que sua participação na eleição tem como objetivo divulgar o programa do Partido.
“Fui escolhida pelo Partido, pela militância e pelos filiados. Represento o programa político do PCO. Nossos candidatos não são candidatos de si mesmos”, afirmou.
Segundo Izadora, o processo eleitoral é desigual porque os grandes partidos recebem recursos muito superiores e concentram espaço na televisão. Ela citou a exposição dada a Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas, enquanto candidaturas menores ficam praticamente desconhecidas.
“O Partido da Causa Operária participa das eleições principalmente para apresentar seu programa”, disse. A candidata também afirmou que o PCO não alimenta ilusões sobre uma vitória eleitoral em um sistema controlado pelo dinheiro e pelos grandes grupos políticos.
Segurança sob controle dos moradores
Ao falar sobre a violência no Vale do Paraíba, Izadora criticou a estrutura atual das polícias. Para ela, a PM não protege os trabalhadores e costuma chegar depois que o crime já aconteceu.
“Como a polícia está organizada, ela não funciona para proteger a população, principalmente a população pobre e trabalhadora”, declarou.
A proposta do PCO é substituir a estrutura policial por comitês de autodefesa organizados nos bairros. Os responsáveis seriam escolhidos pelos moradores e poderiam ser substituídos caso a população desaprovasse seu trabalho.
“O armamento é um direito democrático. O cidadão tem o direito de ter a sua autodefesa”, afirmou. Izadora relacionou a medida à defesa das mulheres, que, segundo ela, estão mais expostas à violência doméstica e a agressões cometidas nas ruas.
Ela também argumentou que o armamento dos moradores poderia dificultar o domínio exercido pelo crime organizado em determinados bairros. A política defendida pelo PCO deve estar associada à legalização de todas as drogas, retirando da polícia o pretexto usado para atacar a população pobre em nome da chamada guerra ao tráfico.
Saúde não pode gerar lucro
Na saúde, Izadora defendeu a estatização de todo o sistema, a construção de hospitais e a contratação de mais profissionais. Também propôs o fim do vestibular para ampliar o acesso às carreiras de medicina, enfermagem e outras áreas.
“A saúde não pode ser considerada um produto. O atendimento às pessoas não tem de ser comercializado nem gerar lucro para planos de saúde e hospitais privados”, afirmou.
A candidata criticou o teto de gastos e o pagamento de juros aos bancos. “Dinheiro tem, ele só não é investido na população”, disse.
Entre as propostas apresentadas está um piso salarial de R$ 8 mil para os trabalhadores da saúde. Izadora também defendeu a revogação das reformas aprovadas desde 2016 e o cancelamento das privatizações. Para ela, os recursos gerados pelas empresas públicas devem financiar serviços essenciais.
Educação pública e controle por professores e alunos
Izadora afirmou que a educação deve ser pública, gratuita e estatizada. A candidata propôs a construção de escolas, a contratação de professores e técnicos e a expansão do ensino profissionalizante.
“A educação não pode ser um produto colocado nas mãos do setor privado para gerar lucro”, declarou.
Ela defendeu que escolas e universidades sejam dirigidas por professores, funcionários e estudantes, em um sistema de representação tripartite. Esses segmentos participariam das decisões sobre o orçamento e o funcionamento das instituições.
A candidata também se posicionou contra a proibição dos celulares nas escolas. Para ela, a internet pode ser usada como instrumento de pesquisa durante as aulas.
“Não se pode usar um caso específico para determinar a política para todas as pessoas”, afirmou, respondendo à alegação de que os estudantes poderiam usar o aparelho apenas para acessar redes sociais.
Izadora defendeu ainda o fim do vestibular e o acesso amplo ao ensino superior e técnico. Segundo ela, muitos jovens da classe trabalhadora precisam trabalhar e não conseguem competir em igualdade com estudantes que podem se dedicar exclusivamente à preparação para as provas.
Indústria e emprego
A candidata do PCO relacionou o fechamento de fábricas no Vale do Paraíba à política neoliberal aplicada no país. Ela citou antigas unidades industriais abandonadas e criticou a falta de investimento em tecnologia e produção nacional.
“Essa política neoliberal criou um arraso na industrialização brasileira”, afirmou.
Izadora disse que o imperialismo impediu o desenvolvimento de uma indústria nacional de automóveis e entregou riquezas brasileiras ao capital estrangeiro. Também mencionou as terras raras, usadas em setores tecnológicos, como exemplo de recursos que não estão sob controle do país.
Para gerar empregos, o PCO propõe reduzir a jornada para 35 horas semanais, sem diminuir os salários. A produção seria mantida com a contratação de mais trabalhadores.
“A redução da carga horária não pode vir acompanhada da redução dos salários”, defendeu.
Água, transporte e obras públicas
Izadora condenou a privatização da Sabesp e afirmou que o serviço de água e esgoto não pode ser tratado como mercadoria.
“A água é um elemento essencial para uma sociedade que se diz civilizada. Assim como a saúde e a educação, não pode ser transformada em comércio”, declarou.
Ela citou um aumento de 70% nas reclamações sobre o serviço na capital paulista depois da privatização. Segundo a candidata, o lucro das empresas deixa de ser aplicado na expansão da rede, no tratamento de esgoto e na melhoria do atendimento.
A mesma orientação foi apresentada para o transporte. Izadora defendeu a ampliação das ferrovias e a recuperação do transporte público, especialmente dos trens, abandonados em várias regiões do estado. Com um serviço público eficiente, afirmou, os trabalhadores deixariam de depender do automóvel particular.
Sobre as obras paralisadas, criticou a demora na execução de projetos viários.
“Você teria que ampliar essas vias e parar de demorar dez ou quinze anos para concluir as obras”, disse.
A candidata afirmou que um governo do PCO não seria conduzido por uma única pessoa. Trabalhadores de cada área participariam das decisões sobre saúde, educação, saneamento, transportes e infraestrutura.
Controle popular e defesa ambiental
Izadora defendeu a participação direta da população na fiscalização dos governos e dos recursos públicos. Para ela, a concentração das decisões em prefeitos, vereadores e governadores não resolve os problemas das cidades.
“Eu contaria com toda a população e com os profissionais especializados. Eles sabem quais problemas enfrentam e como o orçamento deve ser utilizado”, afirmou.
Na questão ambiental, criticou empresas que colocam o lucro acima da preservação dos rios e da segurança dos moradores. Ela citou a Vale e o risco de rompimento de barragens.
“Se o investimento na segurança afetar o lucro, a empresa calcula que a multa será menor e deixa acontecer”, declarou.
Ao encerrar a entrevista, Izadora avaliou que o regime político brasileiro não atende às necessidades dos trabalhadores.
“O regime brasileiro está podre”, afirmou. “Os trabalhadores precisam tomar a frente para resolver os próprios problemas, porque tudo o que foi apresentado até agora não resolveu nada.”





