Política internacional

New York Times admite, envergonhado, derrota para o Irã

Thomas L. Friedman, editorialista do The New York Times, joga a culpa da derrota para o Irã sobre Trump

Manifestação em Teerã

Thomas L. Friedman, colunista de assuntos internacionais do New York Times, publicou nesta sexta-feira (19) o artigo Trump colocou seus próprios interesses acima de tudo no acordo com o Irã, no qual expressa seu descontentamento com a condução das negociações para o cessar-fogo pelo presidente norte-americano.

O jornalista inicia dizendo que “certamente algo neste acordo preliminar entre os Estados Unidos e o Irã deve ter parecido familiar ao presidente norte-americano, magnata do setor imobiliário. Afinal, ele se parece com um pedido de falência no ramo imobiliário — um ato de capitulação financeira”.

A falência, de fato, é do imperialismo. Depois de sair derrotado do Afeganistão, enfrentar sérios problemas na Ucrânia e sofrer uma derrota amarga diante do Irã, os EUA foram obrigados a aceitar um acordo que não corresponde aos objetivos anunciados no início da ofensiva.

Essa vitória tem um valor especial. Ela coloca o Irã como a principal potência militar do Oriente Próximo, expõe a perda de importância de “Israel” e aprofunda os laços entre iranianos, russos e chineses.

Friedman e o imperialismo tiveram de engolir a declaração feita à televisão iraniana pelo principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, após o anúncio dos detalhes do acordo: “O acordo é um registro do fracasso dos EUA. As pessoas o verão e julgarão”.

Em um longo parágrafo, o colunista sionista escreve que “não é preciso ser um especialista em política externa para ver o que aconteceu aqui. É preciso ser um especialista em política interna. Trump vendeu o aliado dos EUA na guerra, Israel, e os Estados árabes do Golfo em troca dos estados decisivos da Pensilvânia, Geórgia e Michigan. Trump sabia que a inflação dos alimentos e os altos preços da gasolina desencadeados por esta guerra eram uma receita para uma derrota republicana nas eleições de meio de mandato. Ele precisava parar a guerra agora para baixar os preços até novembro, porque, se os democratas tomarem a Câmara e o Senado, Trump enfrentará investigações intermináveis sobre como usou a presidência para enriquecer a si e à sua família — e possivelmente até um impeachment”.

“Israel” não foi exatamente vendido. A operação Dilúvio de al-Aqsa demonstrou que o Estado sionista estava longe de ser invencível. O Eixo da Resistência, contando praticamente com meios próprios, impôs duras perdas ao exército invasor.

As derrotas consecutivas para o Hesbolá no sul do Líbano e a derrota sofrida diante do Irã na Guerra dos 12 Dias deixaram claro que “Israel” havia perdido parte de sua importância como braço armado do imperialismo no Oriente Próximo. Qualquer governo tende a abandonar um aliado que passa a dar mais prejuízo do que resultado.

O presidente dos EUA foi levado à guerra contra sua vontade e enfrenta pressão de sua própria base, que rejeita as chamadas guerras eternas. A rejeição a “Israel” cresceu, os preços subiram e as eleições se aproximaram. Nesse quadro, não surpreende que Trump tenha começado a deixar o Estado sionista de lado.

Tirando o corpo fora

Apesar de acusar Trump de fugir da briga, Friedman afirma: “Esta não foi uma guerra que defendi, mas, uma vez iniciada, eu realmente esperava que o Irã perdesse”.

A frase revela a posição do colunista. Ele não se opõe à guerra em si. O problema, para Friedman, é que o imperialismo perdeu. Se esperava que o Irã fosse derrotado, esperava também que os EUA e “Israel” conseguissem impor sua política pela força.

Falácia

Thomas L. Friedman diz que “o acordo não apenas adia a questão da eliminação do urânio iraniano próximo ao grau de bomba para negociações futuras — negociações nas quais o governo Trump já desistiu de sua vantagem militar —, mas também, o mais incrível, deixa claramente em aberto a possibilidade de que o Irã poderá cobrar um pedágio no futuro de qualquer navio que queira passar pelo Estreito de Ormuz”.

Friedman repete o mesmo discurso usado há décadas por Netaniahu sobre a suposta bomba iraniana. Trata-se de uma justificativa permanente para ameaças e agressões contra o Irã.

Quanto à cobrança de pedágio, trata-se de um direito do Irã sobre uma passagem estratégica localizada em sua região. O país, vítima há 47 anos de embargos econômicos criminosos, tem o direito de defender seus interesses e seu desenvolvimento.

Ao comentar a derrota do imperialismo, o colunista afirma que “aí pode residir um possível lado positivo tanto para a América quanto para Israel: o empreendimento fracassado de Trump e Netanyahu para destruir a autocracia islamofascista do Irã pode acabar salvando a democracia americana e israelense. Ambos os países enfrentam eleições decisivas”.

A inversão é completa. Os governos que bombardeiam hospitais, assassinam médicos, jornalistas e professores, e lançam mísseis contra escolas e crianças, são apresentados como democráticos. Já o Irã, que se defende de uma agressão, é chamado de “islamofascista”. Esse tipo de formulação mostra o papel do jornalismo burguês como instrumento de propaganda imperialista.

Seguindo na mesma linha, Friedman afirma que “o mundo inteiro está pior com um Irã mais forte, mas estará triplamente pior se Trump e Bibi vencerem suas eleições. Porque mais cinco anos de Netanyahu como primeiro-ministro seriam o fim de Israel como uma democracia judaica. E mais dois anos de Trump controlando a Casa Branca, o Senado, a Câmara e efetivamente a Suprema Corte representariam o mesmo perigo para a democracia americana”.

O colunista está enganado. O mundo não está pior com o fortalecimento do Irã. Está melhor desde que o imperialismo foi expulso do Afeganistão e melhor ainda depois dessa derrota no Oriente Próximo. Além disso, o conceito de democracia de Friedman é amplo o bastante para incluir genocidas e assassinos de mulheres e crianças.

Mais adiante, Friedman escreve que, “na sequência desta guerra, se houver uma ameaça diminuída de Israel e da América, isso pode também desbloquear a política no Irã. Pode apenas criar o espaço para uma maioria iraniana perguntar: ‘O que este regime tem a mostrar por 47 anos no poder, além de um desperdício de bilhões de dólares para obter uma bomba nuclear e financiar milícias na região com dinheiro que os iranianos precisam desesperadamente para seu próprio desenvolvimento e transformar nosso país em um desastre ambiental com escassez de água?’”

A formulação revela outra ilusão do imperialismo: a de que uma derrota dos EUA e de “Israel” abriria caminho para a derrubada do governo iraniano. O contrário é mais provável. O governo que derrotou o imperialismo e restaurou o orgulho nacional tende a sair fortalecido diante de seu povo.

Friedman pergunta por que os iranianos precisariam de dinheiro para seu desenvolvimento. A resposta está nas décadas de bloqueios, sanções e agressões promovidas pelo imperialismo contra o país.

O jornalismo imperialista tenta distorcer a realidade, mas é obrigado a reconhecer os fatos. O acordo aceito pelos EUA registra uma derrota política e militar diante do Irã.

A vitória iraniana servirá de exemplo para outros países oprimidos que enfrentam a ditadura imperialista. Os próximos conflitos serão difíceis, pois o inimigo continua poderoso, mas a guerra mostrou que ele pode ser derrotado.

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