Polêmica

Não há nada mais autoritário que reprimir os pensamentos

Crônica publicada pela Folha de S.Paulo sugere que violência contra a mulher é resultado de um mero encadeamento psicológico

No último sábado, 23 de maio de 2026, a Folha de S.Paulo publicou em suas colunas o artigo A violência antes do primeiro tapa, assinado pela advogada e dramaturga Becky S. Korich. Sob a superfície de uma prosa pretensamente sensível, a autora apresenta o que chama de “mais uma história da violência doméstica que começa miúda, quase corriqueira, até ocupar o corpo inteiro”. Contudo, longe de ser apenas um retrato literário das dores do ambiente privado, o texto se estabelece como uma peça ideológica perfeitamente alinhada às campanhas contemporâneas da esquerda pequeno-burguesa. Ao deslocar a raiz da violência da miséria econômica para o campo abstrato das ideias, dos humores e dos comportamentos individuais, a crônica cumpre a função política de alimentar o pânico moral, preparando o terreno ideológico para o avanço do Estado policial.

A crônica de Korich estabelece uma narrativa onde o conflito se desenrola inteiramente no plano da psicologia e da moral individual, ignorando as pressões brutas da sobrevivência na sociedade capitalista. A autora descreve a personagem feminina dizendo que ela “se confessou carente e, como em todas as confissões amorosas, havia um pedido —implícito, mas exposto”, enquanto o homem se encontrava “alheio, longe, ensimesmado, egoísta nos seus próprios afazeres e aflições”. A partir daí, o atrito doméstico é pintado não como o reflexo do estresse social, mas como uma mesquinharia:

“Ele se irritou. ‘Lá vem ela me encher o saco’, pensou. Mais uma demanda, mais uma conta para pagar. Triste que, para ele, o amor fosse uma dívida e não uma dádiva. Para impor a sua autoridade e educá-la a não interromper seus ensimesmamentos, ergueu a voz.”

A partir desse ponto, o texto foca obsessivamente na linguagem, transformando a palavra em um agente mágico de destruição física, uma força autônoma que cria a realidade da agressão. Korich narra que o homem “pegou, então, o atalho da agressão verbal” e que, na sequência:

“Com ela na lona, ele continuou a gritar, com lâminas na língua. A voz cada vez mais grossa. Usava uma força como se enfrentasse um inimigo armado, as palavras marchavam em formação, não com punhos, mas com uma artilharia de raiva e ameaças.”

Para o agressor, no dia seguinte, a situação estava resolvida porque ele “sentia-se limpo: afinal não usara os punhos. Foi surra sem marca”.

O ápice do idealismo da autora surge no encerramento, onde ela tenta amarrar uma relação de causa e efeito puramente discursiva para o desfecho trágico d, sugerindo que as “ideias” e os “sinais” psicológicos determinam mecanicamente a agressão física:

“A agressão física é direta, tem endereço certo. A emocional não: ela se espalha, vai mudando de lugar, escapa ao toque. Vai acostumando o corpo ao medo, até que a violência física pareça inevitável. O grito testa o medo. A mão testa o corpo. A impunidade testa o limite. Só um tapinha, só um empurrão, só um soco, só um susto. Até que a mulher já não esteja mais ali para contar.”

Ao afirmar que o “grito testa o medo” e que a agressão emocional “vai acostumando o corpo até que a violência física pareça inevitável”, Korich inverte a realidade das coisas. Ela coloca a superestrutura ideológica e psicológica como a causa motriz da barbárie doméstica, ocultando a infraestrutura econômica de exploração e degradação social que de fato a produz e a sustenta.

Para Korich e todos os defensores do identitarismo, a história e as relações humanas são movidas por abstrações: pensamentos, sentimentos, discursos e “ideias violentas” que, dotadas de vida própria, desceriam dos céus da consciência para moldar o mundo material. Na crônica da Folha, a agressão física surge como o desfecho quase místico de um vírus verbal que vai se alastrando. A única conclusão possível a que podemos chegar é a de que a violência doméstica poderia ser evitada se houvesse apenas uma espécie de “mecanismo de freio” psicológico, como uma cartilha de bom comportamento masculino ou uma terapia de contenção verbal. É absurdo.

O texto nos oferece uma pista valiosa de sua própria contradição quando menciona, quase de passagem, a pressão material que esmaga o agressor. Diante da cobrança afetiva da companheira, a autora escreve que o homem pensou: “‘lá vem ela me encher o saco’… Mais uma demanda, mais uma conta para pagar.” Ora, o que a autora classifica meramente como um traço de personalidade — afirmando que ele estava “alheio, longe, ensimesmado, egoísta nos seus próprios afazeres e aflições” — é, na verdade, o sintoma visível da brutalidade do cotidiano sob o capitalismo.

A agressividade, o egoísmo e o sentimento de posse são reflexos da infraestrutura econômica sobre a superestrutura moral. As “aflições” e as “contas para pagar” não são meros detalhes de cenário; são o motor material da neurose e do desespero que corroem as relações sociais na classe operária. O trabalhador, esmagado pela rotina fabril ou pelas dívidas asfixiantes impostas pelo sistema financeiro, é desumanizado em público. Ao retornar para o ambiente doméstico, essa panela de pressão social explode. O homem descarrega a frustração e a brutalidade que sofre do capital no elo mais fraco da cadeia familiar: a mulher.

Ao retratar a cena afirmando que o homem gritava com “uma força como se enfrentasse um inimigo armado, as palavras marchavam em formação”, Korich cria uma alegoria militar para o discurso, sugerindo que o problema central são as palavras que, “não com punhos, mas com uma artilharia de raiva e ameaças”, ganham as ruas.

Se a violência nasce de “ideias violentas” ou da falta de educação de um homem individualmente “egoísta”, a solução burguesa passa a ser puramente moral. Mulheres seriam mortas e espancadas em todo o mundo simplesmente por falta de palestras. O fato é que, enquanto persistirem as bases materiais da exploração, nenhuma reforma no campo das ideias será capaz de frear o braço do opressor.

A insistência da crônica de Becky S. Korich em mapear uma progressão quase mecânica do abuso verbal para a morte física descamba inevitavelmente na defesa de uma das maiores armadilhas políticas da atualidade. Essa busca por um freio que impeça a transformação da palavra em ato é a senha que a esquerda pequeno-burguesa identitária utiliza para justificar sua capitulação diante do Estado policial burguês.

Esse tipo de narrativa sentimental serve como base para a aprovação de aberrações legislativas como o PL 896/2023 (o chamado “PL da Misoginia”), relatado pela senadora reacionária Soraya Thronicke e votado de forma vergonhosa em conjunto pela direita — incluindo figuras como Damares Alves e Flávio Bolsonaro — e pela esquerda identitária.

O projeto aprovado equipara a misoginia à lei do racismo, prevendo penas de 2 a 5 anos de reclusão nas câmaras de tortura brasileiras comumente chamadas de presídios. No entanto, o texto de Korich, assim como a própria lei, apoia-se em conceitos absolutamente elásticos. O que define, juridicamente, as “lâminas na língua” ou o “silêncio como castigo” descritos na crônica? Ninguém sabe definir ao certo. Ao transferir para o aparato judicial o poder de julgar e punir “sentimentos de ódio, repulsa ou aversão”, a esquerda entrega uma arma carregada nas mãos dos juízes. Serão os trabalhadores e os setores mais explorados da população os que mais sofrerão condenações baseadas no arbítrio subjetivo da magistratura.

O suposto medo da punição estatal nunca teve efeito nenhum sobre a realidade dos lares destruídos pela miséria, ou mesmo para conter a criminalidade urbana. A esquerda pequeno-burguesa, neste sentido, presta um enorme desserviço ao esconder o fato de que o Estado burguês não tem qualquer interesse em emancipar ou proteger as mulheres. A direita, por sua vez, apoia o discurso de Korich e aprova leis repressivas porque sabe que, quanto mais denso for o código penal, maior será a força do Estado para esmagar e controlar a classe trabalhadora organizada.

Outro aspecto que chama a atenção na crônica de Becky S. Korich é que, embora a grande imprensa venda esse tipo de literatura como um diagnóstico universal sobre “a mulher”, o cenário e a dinâmica descritos na Folha de S.Paulo pertencem a um ambiente da burguesia e da alta classe média urbana. O drama retratado é a radiografia da neurose de apartamento, um conflito existencial que passa ao largo da realidade brutal enfrentada pela imensa maioria das mulheres operárias e periféricas do Brasil. A autora gasta linhas preciosas detalhando a sutil e arrastada insatisfação afetiva da personagem, afirmando que:

“Ela vivia de migalhas. Faltava carinho, toque, olhar, calor. Não importava que estivessem juntos há tanto tempo, era mais uma razão para exercitar o amor e não ficar só no sentir (…) E o tempo, que deveria fortalecer o vínculo, às vezes traz preguiças.”

Essa descrição de um relacionamento que adoece pela “preguiça” provocada pelo tempo, ou pela falta de “exercitar o amor”, pressupõe um um tempo livre que a mulher trabalhadora simplesmente não possui. Para a mulher operária, que enfrenta jornadas duplas ou triplas, que acorda às 5 horas da manhã para se espremer num transporte público caótico e que ganha um salário miserável que mal cobre a cesta básica, a crise do ambiente doméstico não se manifesta como um problema de “migalhas emocionais”. A crise ali é bruta, imediata e determinada pela escassez material.

A crônica prossegue descrevendo o dia seguinte à agressão verbal com o mesmo tom:

“Para ela, a britadeira continuava. A dor inflamou —no dia seguinte a dor sempre inflama. O corpo latejava (…) O estômago era o que mais sentia: enjoo, tristeza, repulsa. Ela perdeu o apetite, de comida, de tudo. Perdeu a vontade de sentir. Perdeu a coragem de sentir. E assim foi se diminuindo para caber naquele modelo.”

Ao reduzir o aprisionamento da mulher ao fato de que ela “foi se diminuindo para caber naquele modelo” psicológico, o identitarismo esconde as correntes de ferro que realmente atam a vítima ao agressor. A mulher proletária não permanece no lar abusivo porque “perdeu a coragem de sentir” ou por uma incapacidade subjetiva de reagir. Ela permanece porque, sob o capitalismo, o salário da mulher é historicamente menor, as creches públicas são inexistentes ou precárias, e o preço da moradia é proibitivo. Ela permanece porque o desemprego e a fome a encurralam.

Chorar as dores do casamento nas páginas da imprensa liberal pode render aplausos nos salões da pequena-burguesia paulistana, mas não salva a mulher proletária do inferno da exploração. A libertação das mulheres é parte indissociável da libertação de toda a classe trabalhadora. O que a mulher operária precisa não é da cartilha moral de comportamento sugerida por Becky S. Korich, nem do arbítrio de juízes burgueses regulando o tom de voz dentro das residências. O que a mulher trabalhadora necessita é de independência material, organização política, direito ao armamento e a destruição definitiva do sistema capitalista.

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