Um artigo recente de Esmael Morais, publicado no Brasil 247, analisa da pesquisa Datafolha divulgado em 22 de maio mostraria Lula avançando sobre os setores independentes enquanto Flávio Bolsonaro ficaria preso à bolha bolsonarista.
Até aí, há dados. O problema começa na interpretação. A matéria transforma a queda de Flávio Bolsonaro em fortalecimento automático de Lula. Como se a eleição de 2026 fosse uma disputa simples, linear, entre dois polos: Lula de um lado, Flávio de outro. A realidade é um pouco mais complicada.
A frase central do artigo é a seguinte: “Lula entrou nessa fresta”. Para Esmael, o escândalo do Banco Master abre uma brecha que seria ocupada diretamente pelo petismo. Mas essa é apenas uma possibilidade, e talvez nem seja a principal. A burguesia brasileira não está assistindo à crise de Flávio Bolsonaro de braços cruzados. Ela joga com várias peças ao mesmo tempo.
O próprio Datafolha mostra que Flávio perdeu força, mas não que Lula herdará necessariamente todo esse desgaste. A Reuters registrou que, além de Lula aparecer com 47% contra 43% de Flávio no segundo turno, o levantamento também testou cenários sem o senador na disputa, com Michelle Bolsonaro, Zema, Caiado e outros nomes aparecendo como alternativas. Ou seja, a pergunta fundamental não é apenas quanto Flávio caiu, mas para onde a direita e o grande capital pretendem deslocar esse desgaste.
É aqui que a análise de Esmael desmorona. Ele identifica corretamente que Flávio Bolsonaro conserva uma base dura — 88% de seus eleitores defendem que ele continue na disputa, segundo o próprio artigo — mas trata isso como se o problema da burguesia fosse apenas derrotar ou preservar Flávio. Não é. O problema da burguesia é encontrar um candidato capaz de derrotar Lula ou, no mínimo, enquadrar completamente o processo político.
Flávio Bolsonaro tem uma vantagem para a direita: herda o apelo popular do bolsonarismo. Mas tem uma desvantagem para a burguesia tradicional: é uma candidatura instável e que se relaciona com uma base ampla. A terceira via, ao contrário, tem menos apelo popular, mas é muito mais controlável.
A indicação de Flávio Bolsonaro não unificou a direita e provocou desconfiança entre lideranças conservadoras e setores do mercado financeiro. Muitos capitalistas esperavam um nome mais palatável, como Tarcísio de Freitas.
A terceira via não é uma fantasia. Romeu Zema e Ronaldo Caiado já lançaram sua pré-candidatura como alternativa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Pode ser que sejam fracos eleitoralmente. Pode ser que não decolem. Mas ignorá-la é abandonar a análise de classe e trocar política por contabilidade eleitoral. A burguesia, com todo o seu aparato, é capaz de, no mínimo, levar seu candidato ao segundo turno. Da mesma forma, é capaz de, em um momento de fraqueza do bolsonarismo, tentar impor sua candidatura ao conjunto da direita nacional.
Em vez apenas de comemorar o escândalo, é preciso perguntar: quem são os setores sociais em movimento? O que querem os bancos? O que quer a imprensa burguesa? O que quer o imperialismo? Que candidatura oferece mais garantias ao grande capital? Sem essas perguntas, a análise vira torcida. E torcida não é política.





