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Moradora de rua expõe o racismo real: o praticado pelo Estado

Expulsa de casa, demitida durante a gravidez e vivendo em uma barraca, Ketlin denuncia violência da Guarda Civil Metropolitana, da Polícia Militar e dos patrões

Uma jovem de 19 anos, grávida, dormindo na rua, com as roupas do corpo, hoje depende de doações para comer. Ketlin, presente no ato de 1º de Maio convocado pelo Partido da Causa Operária (PCO) e comitês de luta, conversou com a equipe deste Diário para denunciar as agressões da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar contra os moradores de rua.

“Eu estou morando na rua agora. Eu durmo na barraca com uns meninos que me apoiam agora. Estou morando na rua com as roupas do corpo, sob o sol, e esperando meu filho”, relatou Ketlin. A data, celebrada em todo o mundo como um dia de luta da classe operária, expôs, no caso dela, justamente a negação completa de qualquer direito elementar: trabalho, moradia, alimentação e dignidade.

Segundo Ketlin, a vida na rua é marcada por uma violência cotidiana. Ela afirma que moradores de rua são obrigados a acordar cedo sob agressões e intimidação. “A gente dorme ali na frente da praça, chega de manhã, 7 horas da manhã, e a gente não pode dormir de novo. A gente tem que acordar e levantar porque a gente é expulso na base da chinelada, na base do murro, do chute, do cacetete”, denunciou.

A jovem acusa tanto a Guarda quanto a Polícia de participarem das agressões. “É viatura toda hora batendo na gente, chamando de ‘preta’, chamando de ‘macaco’, batendo na gente. O que a gente é para eles? É uma merda”, afirmou. A fala de Ketlin desmascara a campanha “antirracista” feita pelos identitários. Enquanto pessoas são perseguidas na Internet por usar termos como “denegrir”, o próprio Estado, por meio da polícia, agride a população negra e utiliza os xingamentos mais escatológicos possíveis.

Ketlin relatou ainda que, no mesmo dia da entrevista, seu companheiro havia sido agredido. “Bateram hoje no meu companheiro que está comigo. Bateram nele hoje, acordando-o ali na base do chute. Se eu não entro no meio, eu corria o risco de perder meu filho”, disse. Grávida, ela afirma ter precisado intervir para impedir a agressão, colocando em risco a própria gestação. “Essa viatura é uma bosta. Não ajuda em nada.”

Quando perguntada sobre quem praticava esse tipo de violência, Ketlin respondeu sem hesitar: “Os dois: a Guarda e a Polícia. E eu não vou ficar calada, não. Eu falo mesmo”. Para ela, o tratamento dado aos moradores de rua parte da ideia de que os pobres, especialmente os que vivem nas calçadas, não devem ser tratados como seres humanos. “Eles acham que morador de rua ou drogado não é qualquer pessoa, que tem que tratar mal. Eles estão enganados, eles não têm que tratar mal ninguém”.

A denúncia não para aí. Ketlin contou ter presenciado um episódio em que um policial teria enforcado um homem em situação de rua. “Eu vi quando um policial enforcou o cara e falou para ele que ia matá-lo. Ele enforcou o cara até a pessoa quase desfalecer, mas não matou porque eu segurei”, relatou. Ela disse ter feito curso de segurança e conseguido puxar o agente. “Porque ele ia matar”.

A jovem também afirmou ter sido ameaçada. Segundo ela, um agente teria dito: “se vier, a gente vai atirar na sua cabeça”. Ketlin, indignada, respondeu durante a entrevista: “então atira, eu quero que atirem”.

A sobrevivência de Ketlin depende de doações e serviços assistenciais. Ela citou o “Chá do Padre”, instituição filantrópica ligada ao Sefras — Ação Social Franciscana —, como um dos locais onde consegue alimentação. “A gente tem direito à alimentação porque a gente pega ali no ‘Chá do Padre’. A gente pega a alimentação lá e no carro da manhã; tem o banho e o jantar”, explicou. Mesmo assim, a assistência é insuficiente. “Só o banho da noite que a gente não toma, a gente fica sem tomar banho”.

De acordo com informações sobre o Sefras, o Chá do Padre funciona das 7h às 19h e fornece refeições, banhos quentes e itens básicos de higiene. A Prefeitura de São Paulo oferta cerca de 450 refeições ao serviço, mas a demanda diária chega a 700 ou 800 refeições, sendo suprida apenas com apoio de cozinhas solidárias.

Ketlin está há um ano e dois meses morando na rua. “Desde que fui expulsa da minha própria casa”, afirmou. Natural do Guarujá, ela descreveu a própria situação como “um processo difícil demais”. Mas o que de fato levou Ketlin a morar na rua foi um crime cometido por seu patrão. Segundo ela, desde os 15 anos trabalhava para uma empresa, exercendo funções de segurança e faxina. Agora, aos 19 anos e grávida, afirma ter sido expulsa sem receber o que lhe era devido.

“Eu trabalhava de graça, eu estou grávida, e o meu patrão… Ele me expulsou e falou que não ia me pagar nem nada”, relatou. Segundo Ketlin, o patrão ainda teria usado ofensas racistas e misóginas contra ela. “Ele falou que eu era ‘puta’, ‘negra’ e ‘preta’.”

A jovem afirma que vai processá-lo. “Eu quero meu dinheiro de volta, porque eu não sou preta, eu não sou puta. Eu tenho que sustentar meu filho com meu dinheiro. Porque eu vou te denunciar. Eu quero meu dinheiro de volta”, disse, dirigindo-se ao ex-patrão.

Ketlin diz que trabalhou durante anos e que, justamente quando engravidou, foi dispensada. “Eu estava desde os meus 15 anos na empresa. Agora, com 19 anos, quando eu estava grávida, ele me demitiu. E eu quero meu dinheiro de volta, quero meu sustento, porque eu tenho que educar meu filho”, afirmou.

Ela contou que vizinhos e amigos a apoiaram em uma manifestação contra o patrão. “Já protestamos contra ele, principalmente; fomos na casa dele”, disse. Ela evitou citar o nome do acusado para não se expor juridicamente, mas afirmou: “ele vai ter que me pagar”.

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