Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

Mais um páreo cabeça a cabeça

Com o fardo do identitarismo e a sombra autoritária do STF, Lula precisa conquistar o voto popular

As pesquisas eleitorais vêm jogando baldes de água gelada na pré-candidatura de Lula, que, ao que tudo indica, vai enfrentar, mais uma vez, um páreo cabeça a cabeça, embora, desta vez, com o filho de Bolsonaro, uma figura apagada e sem carisma, que, no entanto, herdou do pai um fiel e numeroso eleitorado. A reboque da estratégia eleitoral da burguesia, a esquerda comemorou a prisão de Bolsonaro como se isso pavimentasse um caminho suave para Lula na sua última subida da rampa do Palácio do Planalto.

De fato, a direita bolsonarista faz oposição ferrenha a Lula e ao PT, aparecendo, portanto, como seu maior inimigo eleitoral. Isso não significa, porém, que esse grupo seja, de fato, o maior inimigo da classe trabalhadora, que deveria estar aglutinada em torno do PT e de outros partidos de esquerda. A burguesia é quem, de fato, manda no jogo – e escolhe quem deve passar uma temporada no xilindró para não atrapalhar seus objetivos. O estilo PSDB, que teria deixado saudade nos petistas, era menos agressivo verbalmente e acostumado a fazer a política pelo andar de cima. O povo, que antes estava só com a esquerda, agora está dividido.

Bolsonaro teve de ser encarcerado pelo mesmo motivo que levou Lula à prisão: ser popular e conseguir angariar votos, muitos votos, coisa que nenhum peessedebista conseguiu por mérito próprio. De fato, Bolsonaro criou um problema para a esquerda, pois conquistou uma parte de seu eleitorado, ainda que com apelo meramente ideológico, evocando Deus, família tradicional e a ideia de que cada um pode, individualmente, progredir na medida do próprio esforço. Além disso, surfa no antipetismo lava-jatista impulsionado pela burguesia. Caberia à esquerda disputar o eleitorado, mostrando que tem muito mais a oferecer e, sobretudo, esclarecendo o que, de fato, impede o progresso do país e, consequentemente, o de cada pessoa e de cada família.

Em vez de mostrar como os grandes problemas – inclusive os internacionais – afetam a vida de cada um e de mobilizar o povo na direção da mudança, a esquerda pequeno-burguesa optou por se abraçar à política identitária, outro produto da burguesia, cuidadosamente elaborado para borrar as diferenças de classe e camuflar o verdadeiro inimigo dos trabalhadores. O identitarismo sobrevive na base da censura, que, por sua vez, é exercida pelo Estado burguês. Onde é que entra o povo nisso tudo?

O sonho da burguesia é copiar o modelo bipartidário dos Estados Unidos, em que só o Partido Democrata e o Partido Republicano se alternam no poder, sendo os dois de direita, ainda que os “democratas” de lá se reivindiquem a alcunha de “partido de esquerda”. O identitarismo é o esquerdismo possível na terra de Biden e Trump. A esquerda brasileira entrou de cabeça nessa política equivocada, que é um verdadeiro peso morto nos seus ombros, quando tem um adversário difícil do outro lado.

Além de se filiar ao identitarismo, com seu vocabulário pernóstico, a esquerda deu as mãos ao STF em sua “cruzada antifascista”, que nada mais é que uma estratégia eleitoral da burguesia. Com o imbróglio do Banco Master, no qual ministros do STF – a começar de Alexandre de Moraes, o símbolo da “luta contra os fascistas” – se lambuzaram, o PT ficou com mais uma carga para sustentar. Prender Bolsonaro, num processo cheio de problemas, e sobretudo condenar pessoas do povo a penas altíssimas, de 14 anos ou mais de reclusão, pode resolver o problema da burguesia, que não tem lastro com o povo e quer coibir pelo exemplo quaisquer manifestações radicais. Para Lula, todavia, compartilhar, ainda que da arquibancada, toda essa sanha autoritária mais prejudica que ajuda. Lula precisa do povo, não de manobras conjuntas com o STF – até porque o STF está a serviço da burguesia.

Em suma, prender Bolsonaro e bolsonaristas não acabou com o bolsonarismo. E pior: pode gerar um desagradável efeito rebote no eleitorado, prejudicando a candidatura de Lula. A esquerda pequeno-burguesa passou quatro anos se estapeando com o “gado” nas redes sociais; gente do povo, sem um horizonte de mudança e desprezada por uma esquerda pedante, pode continuar comprando a propaganda bolsonarista. A burguesia, por sua vez, vai continuar fazendo seus trambiques e usando seus truques ao sabor da conveniência, com STF, com Master, com tudo.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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