Mais de 30 países assinaram, em Xangai, um acordo internacional de cooperação em inteligência artificial sob a liderança da China. O documento foi formalizado às vésperas da Conferência Mundial de Inteligência Artificial, realizada entre 17 e 20 de julho, e permanece aberto à adesão de novos participantes.
A iniciativa estabelece mecanismos de colaboração em pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, segurança dos sistemas e definição de regras internacionais para a inteligência artificial. O objetivo declarado é impedir que uma tecnologia com efeitos cada vez maiores sobre a indústria, o trabalho, a defesa e os serviços públicos fique inteiramente submetida a um pequeno número de monopólios e potências imperialistas.
O Brasil figura entre os países fundadores. Sua participação coloca o País em uma articulação que reúne principalmente nações interessadas em ampliar sua capacidade tecnológica sem depender integralmente das empresas norte-americanas que controlam boa parte dos programas, centros de dados, semicondutores e serviços digitais usados no mundo.
O acordo parte do reconhecimento de que a inteligência artificial já interfere em setores decisivos da economia. Sistemas de processamento automatizado são empregados na produção industrial, no transporte, na agricultura, na medicina, na educação, na pesquisa científica e nas forças armadas. Quem controla a infraestrutura, os dados e os equipamentos necessários à tecnologia adquire uma vantagem econômica e militar de grande alcance.
Para os países atrasados, a dependência assume várias formas. Governos e empresas nacionais contratam serviços estrangeiros, armazenam informações em centros de dados localizados fora de seu território e utilizam ferramentas cujo funcionamento não controlam. Além do envio permanente de recursos para o exterior, esse modelo entrega a empresas privadas estrangeiras informações estratégicas sobre a população, a produção e o funcionamento do Estado.
A cooperação proposta pela China procura ampliar a pesquisa conjunta, a formação de especialistas e o desenvolvimento de ferramentas próprias. Para o Brasil e os integrantes, a questão central é deixar de atuar apenas como compradores de produtos prontos e conquistar condições para elaborar sistemas adaptados às necessidades de cada país.
Outro ponto do acordo é a segurança. O crescimento da inteligência artificial aumentou a preocupação com falhas, ataques contra sistemas automatizados, uso militar e controle indevido de grandes quantidades de dados. Os signatários defendem procedimentos comuns de proteção sem entregar a definição das regras exclusivamente aos Estados Unidos e às grandes companhias do setor.
A conferência de Xangai reúne dirigentes políticos, pesquisadores, universidades e empresas de vários países para apresentar programas, robôs, equipamentos industriais e propostas de cooperação.
A participação do presidente Xi Jinping é uma das principais atividades anunciadas. O dirigente chinês deve apresentar a posição do país sobre o desenvolvimento internacional da inteligência artificial. A China defende que as decisões sejam tomadas por vários Estados e que os benefícios científicos sejam distribuídos de forma mais ampla, em oposição ao monopólio exercido pelas potências imperialistas.
Essa disputa não é abstrata. O governo dos Estados Unidos impôs restrições à venda de semicondutores avançados e máquinas industriais para a China, procurando atrasar o desenvolvimento tecnológico do país asiático. Também pressiona empresas e governos aliados para que limitem sua cooperação com instituições chinesas. Pequim respondeu ampliando os investimentos nacionais e formando acordos com outros países.
A presença brasileira na iniciativa abre possibilidades de colaboração em áreas nas quais o País possui universidades, empresas públicas e centros de pesquisa importantes. Também pode favorecer projetos ligados ao processamento da língua portuguesa, à indústria, ao sistema de saúde e às necessidades da produção nacional.




