Frente ampla

Lula se cerca de bêbados e pede conselhos sobre como não morrer de cirrose

Depois de chegar atrás de Flávio Bolsonaro, Lula procura justamente nos defensores da conciliação com a direita a receita para tentar salvar sua candidatura

Lula terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro e convocou seus aliados para uma reunião nesta segunda-feira (5), em Brasília, destinada a preparar a campanha do segundo turno. O presidente pretende buscar, entre outros, os mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas. Até aí, nada de extraordinário: quem perdeu o primeiro turno precisa descobrir por que perdeu e mudar alguma coisa. O problema é que Lula foi perguntar justamente aos responsáveis pela política que produziu a derrota. É como um sujeito cercado de bêbados pedir aos companheiros de copo conselhos sobre como não morrer de cirrose.

Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O presidente da República chegou atrás ao segundo turno depois de quatro anos no governo, dispondo de toda a exposição proporcionada pelo cargo e tendo iniciado a campanha como favorito. Não foi um raio caído do céu no domingo da eleição. Foi o resultado político de quatro anos em que o PT procurou governar agradando à direita e terminou sem dar aos trabalhadores razões para defender o governo nas urnas.

A chamada frente ampla amarrou o governo a Geraldo Alckmin, Simone Tebet e outros representantes da direita e impediu que Lula adotasse uma orientação própria apoiada na mobilização dos trabalhadores. Um governo montado para tranquilizar os grandes capitalistas dificilmente promoveria medidas que entrassem em choque com esses mesmos interesses. O resultado foi uma administração incapaz de apresentar uma transformação de grande impacto para a população e uma campanha que chegou à reta final sem um programa que entusiasmasse sua base social.

O problema não foi simplesmente Lula ter feito poucas propagandas ou sua campanha ter usado mal as redes sociais. Durante quatro anos não houve uma ofensiva para elevar realmente os salários, diminuir a jornada de trabalho, criar empregos por meio de grandes investimentos públicos ou enfrentar os juros cobrados pelos bancos. O trabalhador ouviu repetidamente que a economia ia bem, mas não recebeu do governo uma mudança política proporcional ao entusiasmo que a vitória de 2022 havia criado.

Chegada a eleição, faltou também um programa capaz de dizer claramente o que seria feito nos próximos quatro anos. A campanha foi organizada em grande medida em torno do perigo representado pela direita. A ideia era que a lembrança de Jair Bolsonaro e o medo de uma vitória de Flávio seriam suficientes para reunir novamente o eleitorado de 2022. Apresentar a eleição apenas como uma escolha entre a “democracia” e o bolsonarismo permite à direção do PT esconder a ausência de um programa próprio para os trabalhadores, que o PT não tem.

Quando a situação eleitoral se tornou perigosa, apareceram medidas tomadas às pressas para comprar o voto dos eleitores. O governo, que havia mantido o piso do Bolsa Família congelado durante a maior parte do mandato, anunciou aumento às vésperas da votação. Vieram também outras iniciativas de última hora, apresentadas como demonstração de preocupação social quando a campanha já mostrava sinais de desespero. O problema é evidente: não se recuperam em algumas semanas quatro anos em que milhões de pessoas esperaram uma política mais agressiva em defesa de seus interesses.

O primeiro turno cobrou essa conta. Flávio Bolsonaro não precisou construir uma candidatura particularmente brilhante. Bastou ocupar o espaço de oposição deixado por um governo que entregou-se à direita e passou anos dizendo à população que essa aliança era indispensável para proteger a democracia. A política destinada a isolar o bolsonarismo terminou permitindo que ele aparecesse novamente como a principal força adversária de um governo medíocre.

Seria de esperar que uma derrota desse tamanho levasse pelo menos a uma discussão sobre a orientação seguida até agora. O que apareceu na manhã seguinte foi o contrário. Felipe Nunes, diretor da Quaest, sustentou que Lula precisaria reconstruir uma coalizão ainda mais ampla, recuperar setores liberais, disputar os votos das candidaturas eliminadas e atrair parte dos abstencionistas. O próprio levantamento apresentado por Nunes reconhece que a insatisfação com o governo e a falta de percepção de melhora nas condições de vida ajudaram a oposição. A solução proposta, porém, é insistir justamente no mecanismo político que amarrou o governo durante quatro anos. Nunes revelou assim, mesmo sem querer, qual é a vontade da Quaest, que guiou todas as suas pesquisas fraudulentas: extirpar qualquer política de esquerda (como fez ao esconder os candidatos do PCO) para dar lugar à direita da terceira via, que é a direita tradicional a qual ele quer que Lula se agarre ainda mais.

Tereza Cruvinel, em artigo publicado no Brasil 247, seguiu pelo mesmo caminho. Segundo ela, Lula deveria buscar votos no Sul e no Sudeste, reduzir a abstenção, aproximar-se do “centro” (direita tradicional) e falar diretamente aos capitalistas, inclusive sinalizando medidas fiscais do interesse deles (ou seja, mais ajuste fiscal). A colunista também defendeu uma ampliação da aliança em direção aos partidos do Centrão. Traduzida para a linguagem política concreta, a recomendação é simples: Lula perdeu governando com a direita e deveria tentar vencer oferecendo ainda mais garantias à direita.

A demonstração mais clara dessa orientação surgiu com a notícia de que Lula estuda apresentar Geraldo Alckmin como ministro da Fazenda caso seja reeleito. Segundo informação publicada pelo Brasil 247, com base na Reuters, a hipótese é que o vice acumule a Vice-Presidência e o comando da economia. O objetivo seria atrair eleitores de centro e transmitir segurança ao mercado financeiro, preocupado com a política fiscal. É dizer ao povo: vamos privatizar e terminar de entregar a economia do País aos tubarões do capital financeiro, aos moldes do que fazia o PSDB de Alckmin.

Alckmin não é uma figura secundária nessa história. Sua entrada na chapa de 2022 foi o principal símbolo da frente ampla. Antigo dirigente do PSDB, adversário presidencial de Lula e representante de uma política truculenta contra os trabalhadores, foi colocado ao lado do petista como garantia de que um novo governo não faria nenhuma ruptura mais profunda. Quatro anos depois, Lula chega atrás de um Bolsonaro no primeiro turno e a ideia em discussão é aumentar o poder do mesmo Alckmin, entregando-lhe a economia.

A comparação com 2006 chega a ser cruel para os defensores dessa política. Naquela eleição, Lula chegou ao segundo turno enfrentando justamente Geraldo Alckmin. Segundo os números lembrados por Tereza Cruvinel, Lula saiu de 48,6% no primeiro turno para 60,8% no segundo depois de atacar o programa neoliberal do tucano, especialmente suas privatizações. Vinte anos depois, o homem cujo programa era apresentado ao povo como uma ameaça pode ser colocado no comando da economia de um quarto governo Lula.

Não foi Alckmin que caminhou para a esquerda nesse período. Foi o PT que andou para a direita.

A insistência nessa aliança explica também por que é tão difícil apresentar aos trabalhadores um programa contundente. Uma política de aumento geral dos salários, redução da jornada sem redução salarial, investimentos estatais em larga escala, defesa das empresas públicas e enfrentamento aos bancos provocaria imediatamente a oposição dos setores que a frente ampla colocou dentro e ao redor do governo. Para preservar a aliança, o programa precisa ser rebaixado. Depois, quando o eleitor não se entusiasma, aparecem especialistas para explicar que falta melhorar a comunicação ou que o povo é fascista.

A experiência do primeiro turno deveria servir para encerrar esse círculo. O resultado das alianças estaduais foi uma sequência de derrotas: candidatos apoiados ou incorporados pelo PT perderam disputas importantes enquanto a direita avançou. A conciliação não serviu para bloquear esse avanço. Em diversos lugares, ajudou a esquerda a chegar desarmada politicamente à eleição, sem candidatura própria forte e sem uma política independente diante da população.

Lula afirmou, depois da votação, ser “muito bom no mata-mata” e disse que o segundo turno permitiria comparar os projetos existentes no País. A questão é justamente apresentar um projeto. Até agora, as primeiras ideias divulgadas para a virada são procurar a direita, ampliar acordos, agradar ao capital financeiro e talvez promover Alckmin ao Ministério da Fazenda. Isso não é corrigir o rumo seguido durante quatro anos. É acelerar na mesma direção, pisando com ainda mais força.

Lula perdeu votos porque foi para a direita. Não apresentou durante o governo medidas capazes de alterar a situação dos trabalhadores e chegou à eleição sem colocar diante do povo um programa à altura dos problemas do País. Quando percebeu o risco, apelou para a compra de votos tentando recuperar o terreno perdido. Agora chama os mesmos sábios que recomendaram a frente ampla para saber como escapar das consequências da frente ampla.

Se seguir esses conselhos, continuará de costas para o povo. Os bêbados já deram sua receita para evitar a cirrose: beber mais.

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